I
Entra a tarde. E eu continuo mudo, de pé em cima da tampa da privada, a olhar pelo basculante o mar que se esconde atrás dos prédios. Muitos pardais voam, mas eles não sabem cantar. Não é bom quando o céu está assim tão calmo, tão azul e com poucas nuvens. Derreto. Há muita luz lá fora, muito mais do que eu posso suportar. Ao virar a fechadura, estou de volta, pronto para lançar mil sorrisos que disfarçam minhas impressões e perguntas. Na verdade, confesso a mim mesmo: não sei o que estou fazendo aqui, quando poderia (deveria) não estar. O calor, posso senti-lo ao encostar nas paredes minhas mãos geladas de não ter o que fazer. Onde se pode buscar mais vida, quando a sua está em falta? Tenho pressa de ser muitos e de me esconder desta criatura que vê o que vejo e que sente o que sinto. Um dia perfeito é o que bastaria para me justificar diante de todos os sonhos que machucam e das cobranças que me precipitam.
Trinta metros acima do chão, uma escalada pela helicoidal de ferro para celebrar minha transformação. Ninguém me vê entrar, esgueirando-me por entre os carros dentro do estacionamento, mergulhado profundamente na penumbra. Um homem dorme encolhido perto do muro por onde passo e dele me despeço inconsequente, pela última vez. Sugo o ar meio tonto, meus pés firmavam-se incertos nos degraus e os ferros rangem e balançam. O pó da ferrugem se desprende do corrimão à medida que minhas mãos buscam segurança com medo da queda prematura, da antecipação ridícula de uma decisão tomada sob a proteção das estrelas. Falta pouco para chegar até o topo, e o vento sopra um pouco mais gelado, ao chegar próximo do fim. Cabelos assanhados e um olhar inclusivo sobre o que é diante de mim. Devo ter certeza de que é isso que desejo, mas essa certeza nunca vem. Pior, vai diminuindo e diminuindo... É melhor eu me apressar antes que... Não me resta qualquer lembrança, estou só e sinto. A síntese que carrego no corpo revelou-me o rosto, uma coruja deu o aviso e imediatamente fui arremessado por uma força muito superior a que meus músculos seriam capazes de proporcionar. Não mais a dureza concreta do cimento partido e os três segundos em que se resume uma vida inteira.
No dia seguinte, a rotina reclama as mesmas soluções de sempre, a barba uma nova lâmina, o botão solto a linha. Sou todo ouvidos.
Antes da consciência de me ver novamente no mesmo local onde ontem comecei, um homem cruzou meu caminho carregando uma enxada no ombro. Uma visão por si mesma comum e própria, a não ser por uma coisa: a cabeça de uma boneca engastada na ponta do cabo da ferramenta. O que aquilo podia significar? A lembrança da filha que ele perdera, a sensibilidade que de curtida endureceu e se quebrou, ou apenas um gesto de ironia contra a lógica da mundo? Seria ele um José, um Raimundo, um Nonato, à procura da terra que deixou para trás, mas que o havia nela incorporado irrremediavelmente? Ele foi ficando distante, misturando-se à paisagem indivisa, seu torso moreno e bem definido, as botas de borracha, a bermuda jeans e o instrumento de trabalho figurando como um adorno tão distinto quanto irreal. Contei uma, duas, três, quatro, cinco torres iluminadas, brilhando amarelas, e porque me movesse rápido demais não pude concluir minha tarefa. A experiência mostrou, no entanto, que todo esforço precisa ser educado.
II
Dois cigarros dentro do bolso, uma vontade inconseqüente de me desfazer de tudo o que representa segurança e atravessar de uma vez ruas e avenidas, rompendo a languidez da manhã para encontrar o lugar onde pertenço. Enquanto isso, escrevo e escrevo, preenchendo o vazio com o nada. O cheiro do fumo me deixa enjoado para sempre. Torço para não ser necessário, multiplico-me em atenções e repostas cordiais. “Não acho que você devesse fazer assim. Não seria melhor...”. Meus gestos são facilmente retribuídos e a carinho impessoal que lhes devoto é-me devolvido em toques e olhares. Por vezes, chego a acreditar que lhes devo algo, que talvez pudesse lhes mostrar o que há por detrás desses muros que tão cedo construí. Entretanto, sei o quanto posso estar enganado e me mantenho firme e solícito, sincero somente o necessário para não ser incomodado. É tempo. Arrumo os papéis, faço as malas. Não estou pronto, mas deixo-me arrastar pelo medo do risco e da decepção. Arregaço as mangas, exponho todas as minhas marcas.
Fortaleza se movimenta com o acanhamento de suas calçadas quebradas, cadeiras de plástico seco, trens enferrujados, homens sem dentes, mulheres gordas. Fortaleza é o Centro. Desde o Mercado São Sebastião, circunscrevendo ainda muitos outros limites - prédios antigos prestes a desmoronarem, a crueza de uma civilização atavicamente presa ao passado de terra, sol e sangue - até alcançar a espuma do mar, próximo ao forte, onde soldados desocupados maculam o chão limpo, despejando baldes e mais baldes de água suja. Fortaleza é a galeria Antônio Bandeira abrigando vãos e vazios, prisão de muros amarelos e grades de ferro. É a Catedral, o mais destacado símbolo da arquitetura gótica construída muitos anos depois de o homem, crescido, não poder mais repousar à sombra de deus. É a Praça da Estação e o comércio das malhas que aderem ao corpo sinuoso das meninas de pele morena, sensuais e provincianas, mascando chiclete com os cabelos presos no alto por piranhas de plástico. É o comércio dos chineses, a venderem suas bugigangas descartáveis, seus pastéis sem recheio, fumando um cigarro após os outros e medindo com os olhos que não admitiam falhas o valor de seu sacrifício. É a mulher que vende vestidos com um dos pés encostados na parede, pela sobrevivência. O braço tatuado do ombro ao pulso e no rosto a resignação pacífica de uma vida livre e frugal. É o Passeio Público e o baobá secular, sempre vivo, cravejado de balas anti-revolucionárias. Perto do Atlântico de águas verdes e turvas, onde há décadas navios flutuam, as pessaos escondem os relógios e tem a seus a seus pés um pouco da infinitude que todas as crenças reunidas não são capazes de oferecer.
Dois cigarros guardados no bolso da camisa fazem toda a diferença, quando se busca coragem para transgredir a rotina de papéis e processos, organizações e responsabilidades, deslocando-se pelas ruas estreitas, cercado pelo trânsito voraz e confuso que discursa eloqüente.
Enfim sós. Não preciso de ajuda para acender um dos queridos, pois trouxe comigo meu isqueiro laranja, presente póstumo ao amigo que o merece muito mais do que eu jamais merecerei. Homens deitados nos bancos descansando o almoço, aproveitando a brisa fresca que vem do mar. Um casal tira fotos, apontando a máquina para as estátuas e para os bancos e tudo não passa de um pretexto para estarem perto um do outro. O carrinho de picolés roda lentamente pelo chão de pedras, anunciando-se por um sinete, que dobra como se convocasse fiéis a seguirem-no. Do outro lado, cruzando o portão de ferro, a sublimação do cansaço do meio-dia. Me aproximo da imagem do navio ancorado naquele mesmo ponto do espaço muito antes de eu nascer. Sento num dos bancos, o mais afastado deles. Estou exatamente onde eu deveria. A respiração sai junto com a fumaça. Descubro a resistência dos desejos que são melhores e mais sublimes quando insatisfeitos e decepciono-me por não ser recebido em minha própria casa como eu gostaria. Penso, contemplo, rezo, mas não adianta: a solidão vence todas as tentativas, a coragem de arriscar. E termino o cigarro meio tonto, meio enjoado, sabendo que mais um tiro foi desperdiçado no alvo errado. Ocorre-me que todos os olhares devem estar voltados para mim. Talvez pensem que espero alguém, sentado e fisicamente presente como uma das estátuas, mas os minutos passam, as pessoas vão embora e ninguém vem ao meu encontro.
III
As paredes ostentam um verde doentio. Ventiladores Acapulco fazem o ar quente circular pelo cômodo pequeno. Fotógrafos em mangas de camisa trazem grandes manchas de suor debaixo dos braços. Tipos magros vagueiam pela rua misturando-se às sombras atrás do muro, fuginda da luz baça dos postes. Seus olhos vermelhos encontram meus olhos castanhos. Eles andam para lá e para cá levantando poeira com as chinelas arrastadas pelo chão. Todos os dias, viro o rosto para não vê-los se protegerem da noite com pedaços de papelão e dividirem a comida com os cachorros.
Depois de muito tempo, não estava chovendo, o que me fez acreditar que a visita correria bem e que não deveria temer a volta. Ao encontrá-lo, não consegui compreender suas bochechas inchadas e seu ar soturno. Vestiu-se bem para me receber. Estava limpo e me cumprimentou com um meio sorriso, procurando despistar minha atenção com os móveis que comprara na viagem. Bogotá, Cartagena. O sol do Caribe se fazia crível na pele bronzeada e nos dedos que brilhavam cheios de anéis. De resto, não reconheci quem estava na minha frente. Pediu-me que puxasse uma cadeira. De tão pesada tive que arrastá-la pelo chão que ia sendo riscado de verniz fresco. Mesmo assim, ele nada disse. Parecia somente esperar que eu viesse para perto dele o quanto antes. Estávamos sozinhos na sala e, por um minuto, deixamos que o silêncio se impusesse entre nós dois como uma visita indesejada. Adotara uma postura de rei capitulado, amargo e rancoroso, mas na mesma proporção altivo, o que lhe conferia uma espécie de grandiosidade decadente. Haviam-lhe roubado a coroa e o cetro, porém seu castelo, ele o havia construído de outra matéria. "Não tenho salvação", seu espírito me dizia. Minha boca não pode retribuir a gentileza do convite feito às pressas por meio de um mensageiro. Não pude animar-lhe com palavras de consolo, porque elas são inteiramente desconhecidas para mim. Enquanto batia os sapatos brancos no assoalho, tentei encerrar nosso encontro bruscamente, indo em sua direção com uma das mãos estendidas, mas ao perceber isso, ele me pediu que o acompanhasse até seu quarto, o que fiz sem discutir, resignado a demorar ainda mais um pouco em sua companhia.
Não há dúvida de que Judas amava Cristo. Ainda assim ele o entregou aos romanos, porque sabia que se não o fizesse iria morrer. Entregou-lhe com um beijo na boca. Antes de traí-lo, porém, traiu seu amor pelo homem, e por isso não suportou viver com o peso desse crime. Pedro, por sua vez, também amava Cristo, e ainda assim o negou três vezes, exatamente como este havia previsto, para o horror do apóstolo. E chegada a hora, traindo seu amor por Cristo, Pedro recusou-lhe todas as vezes a que foi obrigado. Três vezes. Antes de traí-lo, porém, traiu seu amor pelo homem, e não obstante continuou vivo sob o peso de uma missão sagrada. Sou Judas? Sou Pedro?
O quarto estava abafado e as janelas fechadas uma a uma. Para destrancar a porta foram necessárias duas voltas na chave e um empurrão com o ombro. Do lado de dentro, além da cama, em um altar improvisado repousava uma imagem de Santa Muerte.
IV
Afasto de mim a trilogia que uso de muleta para qualquer começo.
Horário de partida: 14/05/1975
Horário de chegada: a definir.
A vida se consome em seu próprio caldo.
Quando criança, chorei muitas noites pela indiferença do mundo diante do meu desaparecimento. Não mais existir. Quanto absurdo! Eu fechava os olhos e aquela escuridão era tudo o que sobrava. Até então não podia imaginar nada mais cruel e insensato. O que significava estar vivo? Por que a consciência de si, quando se é tão frágil e finito? Eu não podia entender e, no entanto, não sentia como verdadeira nenhuma das explicações postas na mesa. Esse aprendizado serviu de fundamento para a construção do meu caráter, do meu amor distante e inconcluso. A razão mesma de inexistir em mim o ponto onde se encaixa a necessidade imanente do outro, de partilhar com ele sentimentos grandiosos e mesquinhos. Entretanto, eu estaria mentindo se afirmasse poder prescindir do outro. Pelo contrário. O outro sempre foi minha referência, meu ponto de contato com tudo o que eu não podia compreender por mim mesmo. Muitas pessoas passaram pela minha vida, e habitarm o lugar exato que deixei reservado para elas e nunca mais do que isso. Tomando sempre o cuidado de não lhes assustar com a exposição de meu avesso, evitei me comunicar do jeito que parecia natural e foi assim que, desde cedo, aprendi a fingir interesse e a me esconder atrás de uma afabilidade que significava antes de tudo auto-proteção. E quanto mais eu queria amar, mais amava mal. E amando mal, mais eu queria continuar tentando, a fim de buscar qualquer sentido em permanecer. Uma jornada de muitos enganos, suores frios, incertezas. Como um autômato, fazia o que acreditava certo. Sonhos inventados, outros impostos pelas circunstâncias pelas quais me deixei dominar. Resisti o quanto pude, até ficar de joelhos e deitar as costas no chão, perguntando-me o que havia acontecido afinal. Desisti e na fuga deixei as portas abertas, revelando o que por medo mantive guardado. A primeira chance de me redimir diante daqueles a quem enganei por tanto tempo. Compartilhar minha dor, apresentá-la sem véus ou máscaras. Sem cuidado. Uma nova oportunidade se anunciava. Entretanto, nunca o contato humano foi tão amargo, duro e indiferente. Sem saber, eu estava experimentando de uma maneira desleixada a mesma intenção por mim cultivada e aperfeiçoada com paciência e afinco. Havia me transformado em alvo fácil para a ingerência alheia, um tolo lançando-se por vontade própria aos leões, por acreditar que eles não tinham dentes. Por sorte, antes de enlouquecer, percebi o erro e aos poucos voltei a erguer minhas defesas. Mas essa experiência, por mais dolorosa que tenha sido, fez-me diferente de quem até então tinha sido. Aprendi que era eu quem deveria conquistar a entrega sempre postergada, a entrega impossível.
V
Gosto de andar por Fortaleza. Um convite entregue com as mãos descalças. A existência brilha debaixo do sol e tudo se retrai e se esconde por trás de cores, formas, contornos precisos, movimentos previsíveis. A essência sussurra debaixo da lua e há sombras, há véus, confusão de limites. Acabo de descobrir a convergência dos duplos. Apesar de tudo, descubro. Abro os poros e compartilho com o mundo o que tenho de mais bonito, me visto de preto. O mesmo chão onde piso, os mesmos bancos quebrados, a mesma árvore desfolhada, os mesmos cachorros fazendo a ronda pelo quarteirão e, no entanto, eles quebram o silêncio para me dizer que há mais, muito mais! Os pêlos crescem. Louco, trágico, pulsante. Estou em outro lugar, me perdoem. Aqui, onde a poesia são flores de plástico; melhor ter os olhos acesos. Deixo de reprimir a visceral ânsia de ser, pela contemplação desencoleirada e sem culpa das coisas.
Protegida da agitação e do egoísmo do dia que quer tudo para si a experiência se desdobra, vai além. Erguem-se pontes. O mundo, os seres e o que há entre eles se completam na medida em que são dependentes, na mediada em a contingência determina sua própria superação.
A cidade desperta de seu sono.
Duas pessoas se deitam no chão, um ao lado do outro, cobertos pela mesma sujeira compartilhada de viver sem intermediários entre seus corpos e a cidade. Seu amor é selvagem, posso sentir pelo jeito como ela pousa a mão no ombro dele. Eles vivem e morrem no amor que tem um pelo outro. Amor de desespero e de espírito, de alucinações, euforias violentas e depressões abissais, de cortes e cacos de vidro. Natural. Preciso de um segundo apenas. Um homem passa por mim e quase batemos os ombros. Com as mãos apoiadas em duas hastes de madeira horizontais que se projetam, ele carrega atrás de si, como uma extensão de seu corpo, um carro cheio de papelões, garrafas de plástico e metais retorcidos. Veste apenas uma calça de algodão que vai caindo enquanto ele caminha e as nádegas surgem do branco manchado, firmes e morenas. Uma estátua de bronze. A certa altura, ele procura entre os objetos que lhe fazem companhia, algo que possa amarrar à cintura, parando na calçada. Imito-o em seu gesto. Paro. De dentro do carro, ele retira um pedaço de fio, considerando, por um breve momento, seu comprimento e as proporções de seu próprio corpo. Por fim, amarra-o em volta da cintura e o arranjo parece funcionar bem. Por um momento, solucionado o problema, o rosto perde a gravidade, por ter conseguido encontrar no meio de tantas coisas inúteis algo que lhe servisse perfeitamente. Mais à frente, perto da lanchonete, a o container de lixo fermentado esta à espera do toque de suas mãos ásperas.
Pertenço quando, não onde. Trago o peito em chamas e a pele fresca pelo vento que me acaricia delicado e feminino. Não sinto fome, não tenho sede, mas uma alegria que cresce dentro de mim e me abraça maternal. E me atravessa, e ao passar deixa um vazio que não cabe. Rogo à noite que me receba como a um filho, e que me proteja como a um filho. Estou na última hora, a que passa mais veloz. Crescendo, o espaço se dilata para me receber. Na amplitude da nuvem de sonhos que paira acima de mim, vestindo a vastidão do céu, eu me derramado acre e alcoólico. O tempo afunda quando meus sapatos tocam o chão, imitando a cadência dos amores escusos nas esquinas, fugitivos, escondendo-se da reprovação que potencializa o desejo e a fome de se doar e de possuir. Mulheres altas encostando-se nas janelas dos automóveis, os cabelos de boneca caindo escorridos até os ombros, a feminilidade extemporânea exercida com autoridade e entrega. Arrisca-se tudo e perde-se tudo. Às vezes, sobrevive-se. O que a vida concede aos poucos reclama de volta para si, de uma vez. Mais cedo ou mais tarde. E é essa consciência absoluta do risco, a coragem de não dar as costas, a ferocidade com que se transformam, adquirindo formas e feições arredondadas, que as fazem tão poderosas. Transigem ao ponto de, por sua própria vontade, parecerem frágeis. Porém quando a porta do quarto se fecha elas revelam a força que carregam dentro de si, para o bem e para o mal.
VI
A poeira se acomoda nos livros com minha inteira compreensão. Uns eu gostaria de ter escrito; outros, vivido. Entre eles, este livro não se comportará como deve e se imporá pela força de quem o oferece integralmente a mim. Aceito-o por desconhecer outra chamada. Permaneço imóvel. Aguardo sem crer a visita da sacerdotisa oriental de seios descobertos, metendo-se por entre os lençóis, como uma febre boa de amolecer. Estou eternamente a espera de seu porvir. E canso e ignoro. Minhas mãos, não. Olhos de fenda observam pela janela meu jardim de vésperas e, sob pena de ser obrigado a mancar por sobre outros passos, dou por encerrada a disputa que nos opõe.
Na noite anterior, muitas pessoas perguntavam-se intimamente o que estariam a fazer ali, se nem sequer podiam relaxar com a música e os sons, que murmurados, se amplificavam por todas as direções do grande vão. Uma platéia intrusa e passageira cambaleava com copos de refrigerante nas mãos, contando com a ventura de se comensurarem nos limites das obras e se perceberem maiores e mais sábias do que elas. Afinal, uma potência nunca testada não conhece limites e, portanto, é muito mais valiosa ao permanecer imóvel. Desviei-me das bandejas e dos garçons que transitavam por entre nós, suados. Um pouco antes, disfarcei ainda mais uma vez a necessidade do salto, para ouvir como se deve a história dos homens que dormem soltos muitos metros acima do chão, na altura dos sonhos. Pensei em incomodá-los com minha curiosidade, mas a distância que nos separa impossibilitaria qualquer tentativa de comunicação, a menos que finalmente deixasse de trazer as velas enroladas no mastro e me perdesse junto com o vento que vem do sul.
VII
Se a França não perdoou Sartre, será que algum dia o Brasil poderá me perdoar? Algum dia trarei no coração a música que me lembrará dos intervalos? Terei filhos cujos rostos lembrarão o meu próprio, em branco e preto? Amigos que me apoiarão, sem se importarem com percalços ou conseqüências? Livros que me afirmarão o que é necessário para continuar e que me convencerão de que devo buscar a perfeição e aprender a renunciar sem me esconder? Um amor que não me divida com o mundo e que me dê segurança para encontrar o que preciso, longe do colo confortável que se oferece a todo instante? Sobre minha cabeça um céu que não seja azul, mas cinza e a primavera e o outono? De casa, a saudade intempestiva, irresistível, que levantará com a luz do primeiro dia e não mais dormirá, velando meu sono e minha disposição? Poderão essas paredes rachadas resistirem inteiras a esforço tão prolongado, ou virão abaixo sem remédio que as conserve íntegras?
Flores e gramados verdes, fontes e praças não serão por si só suficientes, nem as águas do pacífico, nem a neve eterna que se deita no cume da cordilheira, elevando-se monumental acima do chão negro. Ainda assim, ouço o convite de outro lugar, onde poderei ser estrangeiro por causa do meu sangue, e não pela ingratidão de não pertencer à terra que guardou minha infância e minha juventude. A terra que aprendi a amar tardiamente.
VIII
Tudo se inicia pelo desejo. A ânsia de seu prolongamento? Desejo. O ascetismo como medida drástica para renunciá-lo? Desejo.
Eu desejo... Percebi o quanto as coisas iam fora de controle quando cheguei em casa antes do previsto. Cecília me trouxe com a roupa do corpo intacta. A saia estava manchada e um pouco rasgada na lateral. Ela guiava o automóvel com velocidade e segurança. A estreiteza das ruas não a intimidava, e ela arriscava pisar um pouco mais fundo no acelerador, dirigindo acima do permitido. O carro era velho e chacoalhava bastante. Apesar de deserta, a cidade oferecia riscos que ela não saberia contornar. Tentamos em vão continuar a conversa que iniciáramos dias atrás, mas o assunto não se desenvolvia com naturalidade. As sentenças eram interrompidas antes de chegarem ao fim. Deixamos as janelas abertas para dissipar o calor que nos impedia de pensar com precisão. Cecília se crispava receando ceder ao impacto da minha imagem sentado a seu lado em silêncio; eu, ao contrário, tentava sinceramente colocar as coisas em termos exatos, antes que as palavras deixassem minha boca desorganizadamente. E quem daria o primeiro passo? Não houve tempo. Dobrando a esquina, eu estaria em casa, na presença de minha companhia mais constante ao longo dos anos, enquanto ela ainda teria o caminho de volta pela frente. Cecília respirou, puxando o ar de dentro, como se devesse submergir por longos minutos. Fingi distração, concertando com uma das mãos a posição do espelho retrovisor que julgava estar mal posicionado. Tínhamos finalmente chegado. Desci do carro, com ânimo apenas de recomendar-lhe cuidado ao atravessar os cruzamentos. Aquiesceu, balançando a cabeça. Manteve os olhos fixos na direção e os lábios selados, vermelhos. Procurei-lhe a mão esquerda, sentindo um arrepio de despedida. Porém, ao perceber a frieza do meu toque ela recuou, e bruscamente disse: “É tarde”. Então, desci do carro tateando os bolsos, onde eu esperava fervorosamente estarem guardadas as chaves de casa. A lembrança de nosso primeiro encontro se ergueu como de um sonho. Ali, naquela porta, convidei-a a entrar em meu mundo pela primeira vez, sem que ao menos estivesse preparado para reparti-lo em dois. Quis vê-la desaparecer por entre as nuvens que ameaçavam descer até o asfalto esburacado. Cecília tornou a dobrar a esquina, dessa vez tomando a direção oposta. Ensaiei um adeus murmurado, mas imediatamente parei. Eu não poderia quebrar a sacralidade do silêncio que nos afastava.
IX
Vim com a chuva afugentando os pássaros. Uma revoada estrondosa contra o céu da manhã, tênue.
Eu compreendo. Isso me põe um passo atrás do último homem caminhando a Grande Marcha. Nenhuma voz se levanta. Eles andam curvados e obedientes, rolando pedras e seguindo em frente. Ao levantar os olhos percebo que vão ainda mais adiante e que meu passo nunca é largo o suficiente para alcançá-los. E se eu parasse simplesmente, enquanto eles continuam? Despisse-me dessas roupas que nunca foram minhas?
Fracassei ao dar ouvidos ao coração. Fracassei ao dar ouvidos à razão. Se eu tivesse um espírito, esta seria a hora calma em que ele poderia me consolar. Então, como o poeta andarilho se entrega à vida, eu me entregaria à vida, e assim como ele discursaria para o invisível, regendo com minhas mãos levantadas a dinâmica da natureza, conspurcando a maldição a que estamos condenados. Perto do relógio que se ergue entre as badaladas do meio-dia, dentro do cinema abandonado, nos bancos em que se sentam tantos pretendentes de uma mesma dama, eu seria não parte, mas apenas uma manifestação – o vento que sopra – da essência universal. E minha queda, a par da surpresa e do desprezo daqueles que me são próximos, seria celebrada como o renascimento, a purificação, a libertação de todo o sofrimento. Se apenas eu tivesse um espírito.
Um homem que não encontra salvação deve ser condenado por suas imposturas, por seus crimes, pela deterioração do corpo, pela fome leonina com a qual avança em tudo que lhe conceda um pouco de esquecimento, de entorpecimento? Se viver tornou-se um dever imposto por outros, para quê?
Apesar disso, resisto. Pelos momentos em que me sinto abraçado pela beleza do mundo; pelas noites em que me protejo dentro de mim e minha voz é a única voz e fazendo-a existir além, sinto-me justificado.
Este livro é o retrato das múltiplas formas, dos fantasmas que se superpõem à meu rosto e me tornam maior do que sou.
X
Om mani padme hum. O dharma queima.
Invocava uma prece, um acontecimento qualquer que pudesse me distrair das últimas semanas. A janela do ônibus enquadrava a paisagem que se desfazia em tons de verde. As nuvens desmanchavam-se antes que eu lhes pudesse retribuir a gentileza. O caminho era longo, e por isso eu escondia o rosto dentro de um livro, enquanto me acostumava com a idéia de que a viagem chegaria ao fim, porque assim é com todas as coisas, o que não deixa de causar espanto. Tentei fechar os olhos, mas só podia me manter acordado.
Desci com as mãos cheias. Trouxe algumas roupas para passar o dia, uma garrafa de água mineral para aplacar a poeira e dois ou três comprimidos que esperava não precisar. Dois dentes grandes e amarelos emoldurados por um sorriso receptivo, seguidos de um indicador igualmente amarelo apontando a direção do quarto destinado a mim. Em seguida desci para o mar de pés descalços, apesar do alerta sobre as micoses comuns nessa época do ano.