prólogo
Quando uma pessoa não se sente representada pela própria vida, ela sabe
que está em apuros. Era o que acontecia com Gaspar e com a maioria dos seus amigos,
embora eles nunca tocassem nesse assunto, por ser delicado demais. Mas estava
ali, escancarado, pra quem quisesse olhar: eles eram apenas a caricatura do que
sonhavam ser.
Cris suportava todo tipo de aporrinhação no trabalho: do chefe, dos
colegas e principalmente dos hóspedes. E tudo isso por um salário que mal dava
pra cobrir o aluguel. Pra fazer uma grana extra dava aulas de inglês. Denis se
virava como podia, mas às vezes faltava até o que comer e não raro ele vinha
assaltar a dispensa de Gaspar. Lucas era um rei cuja autoridade ninguém
reconhecia. A perpétua entonação alcoólica de sua voz depunha contra qualquer
ameaça de esperança. As notícias que chegavam de Eduardo eram de que ele estava
cada vez mais louco e usando tudo em que conseguia colocar as mãos. Alice
continuava vendendo roupas enquanto se esquivava do assédio de seu patrão
pervertido. Murilo se escondia da própria vida na casa dos pais, dependendo do
dinheiro deles pra tudo. Mestrado e carreira profissional lhe pareciam
perspectivas tão sombrias que ele preferia matar o tempo sonhando em
desaparecer até que os velhos tivessem batido as botas. Então poderia viver
sossegado com a casa todinha pra si. O único consolo de João era que ninguém
mais lia jornais, nem mesmo os jornalistas, e suas matérias sobre dengue,
buracos e engarrafamentos passavam despercebidas. Seu primeiro livro havia
vendido pouquíssimo, e agora mofava nos fundos de uma pequena livraria.
Marcela, por sua vez, se perguntava que mau pensamento lhe havia induzido a escolher
uma profissão na qual precisava lidar com toda a merda que a natureza humana
era capaz de produzir. Havia dias em que ficava prestes a jogar tudo pro alto.
Quanto a Gaspar, aos poucos ele ia perdendo até mesmo a habilidade de criar
novas metáforas pra sua condição: o trabalho não passava de uma prisão e a
vida, uma sucessão de pequenos fracassos.
um
Tu não vai acreditar...
Que foi?
O carro quebrou de novo.
De novo?
Ainda assim, apesar da notícia, consegui convencer Alice de que
nem tudo estava perdido. Normalmente, e Alice sabia disso, eu viria cavalgando
um táxi branco até ela, mas no meu bolso apenas uma nota solitária de vinte
piscava o olho pra mim. O melhor teria sido inventar uma desculpa e cancelar o
encontro, mas eu estava resolvido a fazer aquilo dar certo de qualquer jeito. E
por isso prometi a ela tudo o que estava a meu alcance e insisti até o limite
do ridículo. As ruas eram escuras e havia muitas pessoas perigosas por aí, mas
não iria lhe acontecer nada, eu jurava de pés juntos.
Como não fazia há três dias, depois de desligar o telefone, corri pro
chuveiro e tomei um banho daqueles de secar a caixa d’água, limpando atrás das
orelhas, esfregando as virilhas e arregaçando tudo o que precisava ser
arregaçado. Pra não correr o risco de passar vergonha, caso a noite se
encaminhasse pra um ápice inesperado, sai rastejando de quatro pelo
apartamento, tentando encontrar alguma cueca que não estivesse suja ou rasgada,
e foi então que lembrei que em algum lugar dentro do guarda-roupas, que mais
parecia uma catacumba pelo tanto de teias de aranha e outros bichos antigos que
se escondiam nele, havia um pacote de cuecas novas, que eu tinha comprado o
diabo sabe quando. De olho no relógio que, como um suicida reticente, ameaçava
escorregar do alto da pequena cômoda a qualquer momento, eu vestia o jeans,
calçava os sapatos e colocava mais desodorante nos sovacos. Antes de sair, por
desencargo de consciência, coloquei duas camisinhas na carteira, embora elas me
fizessem brochar vergonhosamente e eu sempre tivesse que dar um jeito de me
livrar delas na hora H, o que já me havia me custado alguns delírios de
paternidade e uma gonorreia.
Na rua, os carros se enfileiravam como cachorros no cio, cheirando os
rabos uns dos outros, e me esgueirando por entre eles, dei sinal pro primeiro
coletivo que passou chacoalhando a carcaça. O trocador, que dormia com a cabeça
apoiada no antebraço, só acordou quando o cutuquei. Ainda grogue e com cara de
poucos amigos, ele enxugou a baba e contou o dinheiro com dificuldade, parando
pra começar de novo. O calor abrasivo do dia se estendia pela noite, deixando
qualquer um suado, por menos que se mexesse. Em compensação, o ônibus deslizava
vago, porque quem ia pros lados da Aldeota àquela hora o fazia de carro, e
tomando um lugar à janela abri as pernas sem vergonha e puxei um daqueles
livrinhos de bolso pra encurtar a viagem. De quando em quando, levantava a
cabeça pra ver onde estava e me surpreendia com a quantidade de moleques
pedindo dinheiro nos sinais, com os buchos inchados e as mãozinhas sujas e
ossudas.
Passando pela rotatória, o ônibus entrou pela Dom Luís a toda
velocidade e quase caindo puxei o sinal. O motorista guiava como um louco.
Mudava de faixa a todo instante, fazia ultrapassagens arriscadas e passava direto
pelos pontos de parada, deixando as pessoas com os braços esticados e cara de
idiota. Sem um pingo de ressentimento em abandonar seus passageiros à própria
sorte, desprotegidos e longe de casa, ele tocava firme em direção a seu destino
final, como se chegar o mais rápido possível fosse sua única e verdadeira
obrigação. Houve um cara, no entanto, que não se deu por vencido e,
aproveitando um sinal fechado, veio com tudo atrás do ônibus, fazendo um
barulho dos infernos e esmurrando a porta pra subir. O motorista fingia que o
problema não era dele, mas as poucas pessoas que haviam conseguido entrar,
muito menos por compaixão do que pelo gosto de uma boa bagunça, vendo que o
homem lá fora não estava pra brincadeira, começaram a xingar o motorista,
exigindo que ele fizesse o que devia ser feito. Mesmo contra a vontade, o motorista
finalmente acabou cedendo e lá atrás a porta se abriu com um chiado. Babando de
raiva, o sujeito subiu esculhambando todo mundo – o motorista, o trocador e
quem mais, na sua cabeça, tivesse a ver com aquilo. Era um desses caras grandões
e encardidos, com toda certeza pesava mais de cem quilos, e que mal cabia nas
roupas que devia ter pego emprestadas de alguém menos fodido de grana do que
ele. Parecia que não tomava banho há dias. Fedia tanto que, mesmo do lugar onde
eu estava, tive que tapar o nariz pra não enguiar. Com a confusão o trocador
acordou de vez e os dois começar a bater boca, sob os olhares atentos da
pequena plateia. No entanto, vendo que o grandão não dizia coisa com coisa e
que, muito provavelmente, levaria a pior se chegassem às vias de fato, o
trocador acabou se calando, e assim o homem passou a roleta e, ainda bodejando,
foi procurar uma cadeira pra sentar.
Enquanto eu não chegava, Alice esperava do lado de fora da loja, com os
braços cruzados e encostada num muro de frente pra avenida. Ela preferiu correr
o risco de ser assaltada por algum marginalzinho alado do que aguentar as
investidas do patrão que aos poucos ia perdendo a vergonha e forçando cada vez
mais a barra. Alice sabia como poucas a arte de resistir a
esse tipo muito particular que é o cafuçu endinheirado, sempre encontrando uma
maneira de se safar do chefe e ainda por cima mantendo o emprego. Mas acontece
que nesse dia sua paciência estava por um fio e era capaz de ela não se
controlar se ele viesse de novo com aquele papo furado de querer levá-la pra dar
uma volta de carro por aí.
Fora esse lance com o patrão, o que mais incomodava Alice no trabalho,
talvez até mais do que o assédio que sofria, era ter que suportar as peruas de
meia idade –maquiadas demais, louras demais, perfumadas demais – que entravam
na loja pra experimentar cada peça de roupa, sem levarem nada no final. Elas se
contentavam em passar a maior parte do tempo contando vantagem e se exibindo
por causa do marido que ficava cada vez mais rico; dos filhos que iam aprender
o valor do dinheiro se vestindo de mickey na Disney; ou do carro importado que
tinha acabado de chegar e que custava três vezes mais do que valia de fato. Mas
até encontrar coisa melhor, Alice segurava as pontas como podia, tendo que
dividir o aluguel do apartamento com a mãe. E era só nisso que elas conseguiam
se acertar, porque de resto não podiam uma com a outra.
Ao me ver apontando na avenida (eu andava propositalmente devagar pra
dar a entender que não estava com a menor pressa) Alice lançou uma cara de
preguiça em resposta ao modo como eu havia escolhido entrar em cena e tratando
de mostrar quem é que mandava no pedaço foi me arrastando pela mão até uma
lanchonete, alegando uma fome desgraçada. Tendo se sentado com um suspiro de
alívio, Alice passou os dedos pelo cardápio engordurado, sem saber se pedia um hambúrguer
ou se apostava no sanduíche de frango tropical. A gritaria das crianças e a
histeria das mães gordas e desengonçadas correndo atrás das suas crias fez com
ela se apressasse a resolver o problema. No final das contas, Alice acabou não
pedindo nem uma coisa nem outra, já que na verdade ela estava mesmo era morrendo
de vontade de comer um banana split. Pra acompanhá-la, pedi uma coca e porção
de batatas fritas, que, como de costume, vieram murchas e frias.
A cada colherada, Alice enchia a boca de sorvete e calda de chocolate,
enquanto falava sobre seu dia.
Aquele filho da puta não sai do meu pé. Às vezes ele me olha de um
jeito como se fosse voar pra cima de mim, e o pior é que eu não posso fazer
nada.
Que bosta isso. E não tem ninguém com quem tu possa reclamar?
Reclamar pra quem, Gaspar? Tu acha que eu trabalho numa repartição pública,
por acaso? Tem com que com quem reclamar não. Se eu tiver achando ruim, eu que
vá procurar outro lugar pra trabalhar.
Tá, mas e a mulher dele, o que é que ela diz disso aí?
Aquela pobre é uma pomba-lesa. Ela finge que não tá acontecendo nada,
porque não tem coragem de contrariar o marido e é confiando nisso que ele não
sai de cima. Hoje mesmo, por exemplo... quando
eu deixei cair um vestido no chão, ele se abaixou pra me ajudar - Alice fez
questão de destacar essa última palavra flexionando rapidamente e por duas
vezes o indicador e o dedo médio de cada mão - e pra não perder a viagem botou a
mão na minha coxa. E isso na frente de todo mundo.
Mermão, assim não dá. Tu tem que fazer alguma coisa, Alice.
Tu não escutou o que eu disse?
Vai atrás de outra loja. Não é possível que não exista outra loja onde
tu possa trabalhar.
Não é assim que funciona, amorzinho. Digamos que eu peça pra sair. E
depois? Tá cheio de menina que nem eu doida por um emprego. Não dá pra eu
arriscar o que tá certo. Quem me garante que eu vou conseguir arrumar outro
trabalho assim tão fácil? Tu sabe que lá em casa é só eu e a mãe. Se eu ficar
sem grana, quem é que vai me bancar? Tu?
A imagem da mão boba daquele cretino pousando cinicamente na coxa de
Alice me deixou espumando pela boca, mas eu engoli seco pra não botar mais
pilha num negócio que, por enquanto, não tinha solução. Andamos até a Santos
Dumont sem dar as mãos, já que essa liberalidade romântica não faziam parte do pacote,
e ficamos esperando o ônibus que nos levaria ao Passeio Público, onde estava
acontecendo uma festa. Apesar da enorme concentração de cultbacaninhas por
metro quadrado que a gente iria encontrar ali, havia a vantagem de não cobrarem
pra entrar e de ser fácil de chegar de onde estávamos. Da Santos Dumont,
dobramos à direita na Tibúrcio Cavalcante pra pegar a Costa Barros, e em pouco
tempo subíamos a João Moreira, passando pela Catedral. Quem andasse por essa
rua nos dias de semana ficaria surpreso com o ritmo do trânsito, com a
quantidade de pessoas indo e vindo debaixo do sol escaldante e com um comércio
como só se via no Centro, com suas lojas de artesanato, motéis baratos, bares,
pequenas confecções, hotéis de quinta, bancas de frutas frescas, picoleiros e
vendedores ambulantes. À noite toda essa agitação dava lugar a uma tristeza
plácida que só a mais absoluta falta de esperança podia explicar.
A viagem dessa vez havia sido tranquila. Parecia até que a gente estava
fazendo um daqueles passeios turísticos pela cidade, tão lento o ônibus se
movia, rangendo em seus encaixes mais profundos, no que lembrava o gemido de um
grande animal agonizante. Assim que avistou o Hotel Catedral, Alice deu sinal e
ao descer foi logo tomando a dianteira sem olhar pra trás, apenas confiando que
eu a fosse seguir de qualquer jeito. Ela cheirava a sexo. O perfume doce,
misturado ao suor que orvalhava de sua pele morna, era terrivelmente excitante,
a ponto de, sem apelo, me deixar duro dentro da calça. Pra dar uma disfarçada,
enquanto cruzávamos o portão de ferro, afrouxei o cinto a fim de deixar a calça
um pouco mais solta, lamentando não poder exibir minha masculinidade exultante
pelos quatro cantos daquela maldita praça.
Iluminado pela luz amarela dos postes, o Passeio Púbico se estendia a
nossa frente com a mesma arquitetura centenária e pobremente copiada; as mesmas
estátuas grosseiras e horríveis; as mesmas fontes acanhadas e cobertas de lodo.
Havia tantas árvores ali que o sol precisava pedir licença pra entrar. A maior
delas era um baobá de vários metros de altura e de tronco tão grosso que seis
pessoas de mãos dadas não conseguiam abraçá-lo. Não fazia tanto tempo assim,
dividindo o espaço com a vegetação, era comum ver prostitutas de pernas
cruzadas, enrolando o cabelo com a ponta do dedo, a bolsinha em cima da perna,
o batom vermelho, trocando pequenas palavras de sacanagem e amor fingido, mas às
vezes até verdadeiro, com algum homem carente, e também bêbados capotados nos
bancos, as pernas jogadas prum lado, os braços por outro, não importava a hora.
No entanto, de uns anos pra cá, o lugar que antes atiçava o medo das donas de
casa ociosas por sua fama de depravação e excesso, começou a ser frequentado
por uma classe média liberal e bem comportada, que pouco tinha a oferecer além
de suas opiniões insossas e corpos saudáveis e bem alimentados.
Nas mesas que se espalhavam ao redor de um pequeno prédio onde os
garçons iam buscar as bebidas, o pessoal conversava sobre os assuntos da moda,
enquanto mandava cerveja goela abaixo. Um pouco mais afastado, um DJ botava um
rockezinho anos oitenta pra tocar. Um ou outro grupinho, vestindo roupas
parecidas, circulava hermeticamente entre as mesas sem dizer nem que sim, nem que
não. E do jeito que estava, aquele cenário parecia ter sido montado pra me
tirar do sério, porque além de tudo não havia absolutamente canto pra sentar, a
não ser nos bancos espalhados pela praça, os quais ficavam afastados demais da
agitação. Parado com cara de estátua, eu fazia essas constatações de uma
maneira quase estoica, sem ânimo pra cavar meu espaço no meio de tanta gente. Ao
contrário de mim, Alice não parou pra avaliar a situação, e em vez de ficar
resmungando em silêncio, ligou o radar em busca de alguma oportunidade da qual
pudesse tirar vantagem. Como um predador que se acercasse cuidadosamente de sua
presa, ao notar um homem sentado sozinho, olhando o relógio como se à espera de
alguém, Alice me deixou plantado onde eu estava e saiu pra observá-lo mais de
perto. Parando há uns três metros da sua mesa, ela me chamou pra perto de si,
fazendo um sinal nervoso com a mão, já que era preciso agir rápido se
quiséssemos ter uma chance. Pra despistá-lo, Alice desamarrou o cabelo, ajeitou
a blusa, retocou o batom, perguntou se os dentes estavam ok e, seguida por mim,
se dirigiu até o alvo, impetuosa.
O homem pareceu ter captado nossa intenção de lhe roubar a mesa e
trancou a cara. Sem se dar por vencida e já puxando uma cadeira, Alice
perguntou se ele não gostaria de um pouco de companhia, enquanto a sua não
chegava, e antes mesmo que ele pudesse dizer alguma coisa, ela foi se sentando,
ao mesmo tempo em que nos apresentava sumariamente, “Eu sou a Alice e esse aí é
o Gaspar”. Querendo ganhar a simpatia do
seu novo amigo, Alice jogava charme, fazia tipo, ria à troco de nada e falava
sem parar sobre assuntos tão variados quanto a diva indie que ia fazer show no Recife
mas não em Fortaleza e a onda de violência que fazia os cidadãos de bem andarem
assustados. Contra todas as minhas expectativas, ela conseguia prender a
atenção do nosso anfitrião, e eu fiquei com a impressão de que, no fundo, mesmo
puto da vida, o cara estava dando graças a deus por aquilo ter acontecido,
porque do contrário, no instante em que ele se levantasse pra ir embora, tendo
desistido de esperar, todos veriam que ele tinha levado um bolo, o que nunca
deixava de ser humilhante. Assim, pra ter um pouco da sua dignidade preservada,
ele se aproveitava da nossa companhia e se esforçava em nos aguentar, mas só o
suficiente pra ter aquela pequena farsa validada antes de finalmente ir embora.
Deixando que Alice cuidasse sozinha daquela situação constrangedora, eu
me mantinha calado, com um sorriso decorativo no rosto, já dando por certo que,
do mesmo modo como a companhia do nosso amigo, Cris também não viria se juntar
a nós como prometido. Horas atrás, tínhamos nos falado por telefone, e ela
dissera que, assim que saísse do hotel, ia correndo pra casa tomar um banho
rápido, e, depois de arrastar o Lucas do Januário, um bar no Montese que era
como uma extensão da casa dele e que além disso servia de QG quando a gente
resolvia reunir os amigos, ia direto encontrar a gente no Passeio. Eu sabia que
alguma coisa devia ter saído muito errado entre os dois pra Cris ter desistido
de aparecer sem nem ao menos me avisar. Provavelmente, eles tinham brigado de
novo e de novo ela devia ter dito que aquela era a última vez que Lucas a esculhambava, agarrado a sua garrafa de cerveja, bêbado e agressivo. De uns tempos
pra cá, Cris havia entrado numa paranoia de salvar o Lucas da sua rotina de
vícios e excessos e isso estava custando caro pros dois, que não se entendiam
mais de jeito nenhum e viviam se pegando por qualquer besteira. Apesar disso,
nenhum deles tinha a coragem necessária de por fim a tudo. Ela, por medo de
que, com isso, Lucas se afundasse de vez; e ele, por não suportar a ideia de
vê-la nos braços de outro cara.
Após mais ou menos uma hora de papo furado e cerveja, nosso amigo
resolveu que já podia ir em paz, sem a pecha de ter engolido o bolo, e, se
despedindo vagamente, deixou uma grana em cima da mesa pra pagar o pouco que
havia consumido e desapareceu em seguida. Agora que estávamos sozinhos, bebendo
debaixo daquele céu sem estrelas, os ponteiros do relógio corriam apressados.
Alice abria a boca em longos bocejos, deixando à mostra as obturações que ponteavam
seus molares, e, depois de dar uma boa olhada em volta, disse: “Não sei que esse
povo conversa tanto. Às vezes não te parece que a gente devia só ficar calado?
Tu entende o que eu quero dizer?”. Seu cansaço contrastava com o meu ar
relaxado, de quem tinha dormido o dia inteiro. “A gente não passa de um bando
de macacos sem pelos”, devolvi. A fim de sacudir um pouco, quando o chão já
começava a girar sob nossos pés, fechamos a conta e nos levantamos pra dar uma
volta.
As árvores eram convidativas ao toque e eu as obedecia, sentindo com a
ponta do dedo a textura das folhas e dos caules. Caminhamos ao longo da mureta
que ladeava o Forte, o qual muitos séculos atrás servira pra matar índios e rechaçar
as indesejáveis investidas das naus estrangeiras, mas cuja única função agora
era a de abrigar uma inútil divisão do exército. De onde estávamos, no ponto
alto de uma ladeira que descia até a avenida Leste Oeste, era possível, à luz
do dia, ter uma visão clara da linha do horizonte traçada pelo mar e do Mara
Hope logo abaixo dela, ainda imponente apesar de comido pela ferrugem,
encalhado a dezenas de metros da costa, num banco de pedras sobre as águas de
Iracema. Àquela hora, no entanto, não se enxergava mais nada, já que céu e mar
se misturavam numa só escuridão imensa. Ficamos um bom pedaço só olhando o
vazio e sentindo o vento alisando nossos rostos, até que resolvemos procurar um
lugar mais afastado, longe da música e das pessoas. Perto da entrada havia um
banco que por muito pouco não ficava exatamente embaixo de uma antiga caixa
d’água, feita de ferro fundido. Um cinturão de plantas que não passavam de um
metro de comprimento cercava a caixa d’água e o banco, formando com aqueles
objetos duros e frios um cenário tão coeso e acolhedor que, beliscados por uma
sensação uterina de conforto, ficamos profundamente relaxados. Alice encostou a
cabeça no meu ombro, fechou os olhos e adormeceu. Com um empurrãozinho do
cansaço, a bebida subira à sua cabeça mais cedo do que esperávamos, e não me restou
outra coisa a fazer senão enfiá-la num táxi e mandá-la de volta pra casa.
“Alice... Alice... acorda. Tá na hora de ir”, eu disse, esfregando seus joelhos
macios. Ela resmungou alguma coisa que não consegui entender e se levantou
apoiada em mim. Quando finalmente consegui um táxi (por medo de serem roubados
ou de pegar algum passageiro maluco, muitos taxistas relutavam em tomar uma
corrida aquela hora no Centro) fiz com que Alice entrasse no carro e tomando a
bolsa de sua mão paguei a corrida adiantado e atravessei a rua pra beber o que
tinha sobrado do dinheiro.
Fora o motel da esquina, o Show Bar era o único comércio que, por ali, mantinha
as portas abertas de noite. Era uma espelunca encardida como tantas outras, com
a diferença de ser frequentado por uns caras mais velha guarda, antigos
frequentadores do Passeio Público, que ainda preferiam o brega ao forró eletrônico
e o álcool, à cocaína. Ali, a brutalidade neanderthal com que certos modos
civilizados eram jogados de escanteio era revigorante. Puxar o catarro com
força como se fosse cuspir no chão, falar alto, coçar as bolas, fumar um
cigarro atrás do outro sem a preocupação de que aparecesse alguém pra encher o
saco: tudo isso fazia parte do contexto e era até mesmo incentivado. Às sextas
costumava rolar strip-tease, mas por causa de um problema de última hora com a
menina que havia sido escalada praquele dia, tivemos que nos contentar com as
putas balzaquianas que zanzavam pelo bar.
Não demorou muito, uma delas passou por mim e trocamos olhares. Ela era
baixinha, usava uns shorts muito apertados, tinhas as unhas dos pés pintadas de
vermelho e um cheiro enjoado de leite de rosas. Pra não correr o risco de ser
recusada, ela ainda me sacou umas duas vezes, sorrindo sem querer mostrar os
dentes, o que não podia ser bom sinal. Por uma dessas coincidências loucas da
vida, ela era incrivelmente parecida com uma mocinha que costumava trabalhar lá
em casa e que ferrou com todas as teorias juvenis que eu e Eduardo havíamos
criado sobre como devia ser uma trepada. Essa lembrança resgatada dos pântanos
da minha adolescência fez com que eu acenasse ao passado com um cumprimento e
pedisse à puta que sentasse um pouco comigo. Confiante pelo convite que eu lhe
fizera, ela aproximou sua cadeira de mim e se enganchou no meu pescoço pra me beijar.
De vez em quando, ela colocava a mão por debaixo da mesa pra ver se eu estava
curtindo. Apesar de já ter bebido além da conta, eu não estava com muita paciência
pra contato humano. Além do mais, não conseguia parar de pensar na merda que eu
tinha feito ao enfiar Alice sonolenta naquele táxi, à mercê dos maus
instintos de um desconhecido, cujo rosto, mergulhado na penumbra, nem pude ver
direito. Ainda assim, depois de alguma insistência, deixei que a mulher me
levasse a um canto e não tentei mais resistir a seus carinhos sôfregos.
No dia seguinte, acordei perto do meio-dia, com o calor e o ruído dos
carros entrando pela minha janela. Por algum motivo, o ventilador tinha parado
de funcionar, o que me transformou num alvo fácil pras muriçocas cada vez
maiores e mais esfomeadas, e os lençóis empapados de suor aderiam ao meu corpo
como uma segunda pele.
Meu apartamento ficava no segundo andar de um prédio baixo e já meio
caindo aos pedaços, a mais ou menos três quarteirões da Treze de Maio. Boa
parte da pintura estava descascando e por todos os lados havia pontos de infiltração,
denunciados pelo mofo que ia se acumulando nas paredes, alimentado pela umidade
e temperatura adequadas. Não era uma
coisa bonita de se ver, mas em compensação o aluguel era barato e morar no Benfica
tinha lá suas vantagens. A primeira era a quantidade de bares. Em quase toda
esquina havia um deles, sempre barulhentos e cheios de gente, a maioria jovens
adultos, recém-formados ou ainda universitários, reclamando de como as coisas
não haviam saído bem do que jeito que esperavam. O trabalho, além de comer as
melhores horas dos seus dias, pagava pouco e no mais das vezes sequer fazia
sentido. Mas o pior era que, à medida que o tempo passava, parecia cada vez
mais claro serem eles os próximos a sucumbirem à interminável ciranda que fazia
o mundo girar e onde tantos outros antes deles já haviam perdido a juventude.
“Ganharás o pão com o suor do teu trabalho”, era o que tinham escutado a vida
inteira, só esqueceram de lhes dizer que do pão restou apenas as migalhas e que
suar já não era o bastante.
A outra vantagem era estar a apenas uma caminhada de distância do
Presidente Vargas. Aos domingos, quando o tédio gritava no meu ouvido, “E aí,
irmão, o que vai ser?”, era sempre uma boa terapia ir ao estádio e gritar gol quando
o Ceará resolvia ajudar. Como a maioria, eu enchia a lata antes de entrar,
porque dentro do estádio não se podia consumir bebida, e ficava brincando de
chamar todo mundo de filho da puta, até nas raras vezes em que aqueles
miseráveis conseguiam acertar uma jogada. Noventa minutos depois, saía de lá
sentindo que um pouco do peso ficara pra trás, misturado à leva de homens sem
rosto que caminhava ruidosamente de volta às ruas. Mas como um analgésico cujo
efeito desaparecia no momento em que era sentido, essa impressão logo se
desmanchava no ar e tudo voltava a ser como antes.
Porém, o melhor de tudo sobre o Benfica era a quantidade ainda maior de
lanchonetes, pizzarias e barraquinhas de comida onde se vendia baião de dois,
vatapá, acarajé, bolo fofo e até um belo cai duro no pão árabe, com ovo, carne
moída e tudo mais que um homem precisava pra se manter em pé e bem alimentado.
A facilidade de comida era tão grande e, desde que se conhecesse os lugares
certos, o preço tão em conta, que, ao me mudar pra lá, em pouco tempo desisti
da ideia de comprar um fogão. Nos fins de semana, quando eu queria fugir dos
PF’s sebosos que eu engolia perto do trabalho, ia numa das muitas churrascarias
que havia por ali ou então corria até o Shopping Benfica e me resolvia por lá
mesmo.
Depois de tomar uma ducha pra espantar o calor, vesti uma roupa limpa e
desci as escadas pensando como seria bom se eu conseguisse juntar dinheiro pra
comprar um carro que realmente funcionasse. Fora do apartamento, a luminosidade
era tão grande que chegava a ofuscar e cobrindo os olhos com a mão eu seguia
esbaforido, com o sol queimando meus miolos e derretendo minhas banhas. Com uma
certa pressa, entrei no primeiro mosqueiro que encontrei aberto e sem olhar o
cardápio pedi o de sempre. Eu e o Lucas tínhamos combinado de reunir os amigos
mais tarde naquele sábado pra jogar poker, o que não passava de um pretexto pro
que seria a última bebedeira coletiva antes das minhas férias acabarem. Por
isso eu precisava comer logo e voltar pra casa e descansar bem, quem sabe até
dormir mais um pouco se conseguisse, porque a noite prometia ser longa. Ao
terminar, fiquei esperando em pé que o garçom trouxesse o resto da comida
embrulhada pra viagem e, ainda lutando com um pedaço de carne nos dentes, fui
me arrastando até o mercantil comprar vodka e cerveja.
No apartamento, blusas e cuecas enfeitavam as cadeiras e havia
cinzeiros, pratos e copos jogados pelos cantos. Pelas minhas contas, já devia fazer alguns meses
que a sala não via uma vassoura e o chão estava tão sujo que bastava cair um
pouco d’água pra que aquilo se transformasse numa poça de lama preta. Apesar
disso, a possibilidade de impor uma certa ordem àquele covil nem teria passado
pela minha cabeça, não fosse a chance de a Alice aparecer. Eu também tinha estendido
o convite a Cris, mas algo me dizia que ela não viria. Se minhas suspeitas estivessem
corretas, se a Cris e o Lucas tivessem mesmo brigado a noite passada, então ela
evitaria a todo custo encontrá-lo, pra mostrar o quanto ainda estava puta com
ele. A Marcela, por outro lado, não curtia muito esses nossos encontros
alcoólicos e descontrolados e sempre arranjava uma desculpa pra não dar as
caras. A dessa vez é que ela agora estava atendendo também aos sábados e, se
fosse virar a noite com a gente, acabaria perdendo o domingo, que era seu único
dia de folga.
Antes de começar a arrumação, liguei a TV, deitei no sofá, fechei os
olhos e peguei no sono outra vez. Não sei o quanto de verdade havia na crença
de que quem dormia de barriga cheia tinha pesadelos, mas sempre que eu resolvia
tirar um cochilo depois do almoço eu era inundado por sonhos ruins. Daquela vez
não foi diferente, e o medo que eu sentira de que algo pudesse acontecer a
Alice dentro daquele táxi, não tendo se materializado no sono da noite anterior,
retornou claro e bastante real naquele momento. No pesadelo, o taxista dirigia
a esmo pelas ruelas do Centro e, ao encontrar um lugar escuro e deserto pra
estacionar, ele desligou o motor do carro e se esgueirou pro banco de trás,
onde Alice nem se mexia. Acordei de uma vez, com o coração a mil, sem entender
direito o que havia acontecido e me perguntando como eu podia ter esquecido de
ligar pra Alice e checar se estava tudo bem. Procurando o telefone no meio da
bagunça, senti as pernas tremerem e meus intestinos revirarem, o que sempre
acontecia quando eu ficava nervoso. Cada vez que o telefone chamava sem
resposta, as imagens do sonho iam dando voltas na minha cabeça. Como num filme
de suspense, quando a ligação estava prestes a cair na caixa postal, minha
vertigem foi interrompida pela voz sonolenta da Alice, pedindo que eu parasse
de respirar em cima do telefone. À enxurrada de perguntas que eu fazia, Alice
respondia de forma lacônica, confusa com minha aflição despropositada e
provavelmente achando que eu estivesse tendo uma bad por causa de alguma coisa
que eu tinha tomado. Alice falou que estava bem, apesar de não se lembrar direito
de como havia chegado em casa. Ela tinha apenas uma vaga recordação de ter sido
colocada por mim dentro de um táxi e de ouvir a mãe a xingando de tudo quanto era
nome por ter se esquecido das chaves. Mais estranho do que isso tudo, ela disse,
era não ter sobrado um puto em sua carteira pra contar história. Pra não me
complicar, mudei de assunto e, recobrando os sentidos, perguntei se ela ia mesmo aparecer mais tarde.
Alice desconversou, afirmando: “Não sei. Vou ver, vou ver”.
Tentando recuperar o movimento das pernas, cai no sofá de novo,
enquanto o relógio marcava a décima sexta hora do dia. Meu estado de excitação
anterior foi seguido por uma moleza de quebranto, tão renitente que a simples
ideia de resistir a ela parecia loucura. Se eu tivesse uma alma, pensei,
poderia jurar que ela decidira abandonar meu corpo mole e inerte. Contudo, a
consciência do dever se impôs e não pude mais ignorar o que precisava ser
feito. O relógio marcava a décima sexta hora do dia e em pouco tempo o pessoal já
estaria batendo na minha porta. Aproveitaria a arrumação pra suar bastante e
fazer com o que o resto do álcool evaporasse do meu organismo, depois do que
tomaria um banho revigorante e estaria pronto pra outra. Pra acordar, preparei
uma xícara de café no micro-ondas e fui tirando as roupas de cima dos móveis e
enfiando tudo no cesto do banheiro e em seguida no guarda-roupas quando o cesto
ficou cheio. Empilhei os pratos na pia, deixando a água correr por sobre as
crostas secas de comida. A vassoura corria rápida pela sala e pela cozinha, e a
poeira acumulada ia sendo devidamente empurrada pra detrás das portas. O
banheiro recebeu uma atenção especial, mas não importava o quanto eu esfregasse
não conseguia livrar a privada de sua aparência suja e encardida.
Ao dar o serviço por terminado, olhei pro apartamento decepcionado em
constatar que, apesar dos meus esforços, ele continuava com cara e cheiro de
sujo. O pano de chão, passado às pressas, deixou a sala com uma catinga
estranha, como se houvesse um cachorro molhado escondido debaixo do sofá. Apesar
disso, a hora avançada não me permitia continuar e coloquei meus apetrechos de
limpeza de lado e tratei logo de tomar uma ducha pra não ter o banho
interrompido na metade pela campainha tocando nervosa. A televisão continuou
ligada pra eu não perder o rastro da hora, enquanto eu me levava com o mesmo capricho
manjado dos dias em que ia encontrar Alice.
Como sempre, Denis e Murilo foram os primeiros a chegar. Murilo era meu
amigo há muito tempo, desde a época em que a gente estudava no Dom Bosco, mas
Denis era relativamente novo no grupo. Ele havia se juntado a nós fazia uns três
anos e foi mais ou menos assim que isso aconteceu. No final dos anos noventa,
Denis largou a faculdade de letras antes mesmo de terminar o primeiro semestre,
porque não conseguia tomar a sério aquela lenga-lenga acadêmica que não levava
a lugar nenhum. Ele achou que tinha mais futuro arrumar um emprego, juntar uma
grana e passar um tempo viajando, enquanto organizava as ideias e
decidia o que queria fazer da vida. Durante essa época, ele trabalhou de caixa
de supermercado, motorista de limpa-fossa, barman e foi até operador de
telemarketing. No entanto, não conseguiu durar em nenhum dos empregos (Denis
era respondão, não gostava de cumprir horários e se metia em confusão com todo
mundo) e, sem o dinheiro, a viagem foi sendo postergada indefinidamente. Depois
da tentativa fracassada de viver como assalariado, ele andou sumido por quase
uma década, ninguém sabe onde, se pelo interior do Ceará ou pelos estados
vizinhos, nem fazendo o quê, pois ele simplesmente se recusava a falar sobre
esse período e ficava com raiva quando alguém insistia em arrancar dele alguma
informação. O fato é que assim que voltou a Fortaleza ele começou a vender doces e guloseimas, concentrando sua atenção no Benfica, onde o mercado
consumidor estava em franca expansão. Denis só não havia prosperado ainda porque
tinha o péssimo hábito de misturar negócios com prazer, e o lucro que conseguia
com seu pequeno comércio ao ar livre só dava pra cobrir suas dívidas com os
fornecedores. Toda vida que o Denis caía na besteira de usar mais do que
vendia, os caras o pegavam de jeito e, sem saída, ele topava fazer qualquer negócio
pra conseguir dinheiro, inclusive catar bichas velhas em algum cinemão do
Centro. Denis sabia que se vacilasse o castigo era certo e ele definitivamente
não queria virar mais um presunto ensanguentado no meio da rua, logo quando
finalmente tinha caído nas graças da coroa com quem morava,
apesar de ela continuar ameaçando colocá-lo pra fora de casa, a cada nova que ele
aprontava. Em troca desse teto, pelo menos três vezes por semana, às vezes
mais, o Denis a comia do que jeito que ela queria e era só quando a mulher
parava de lhe encher o saco.
Como todos os caminhos se cruzam no Benfica, foi na pracinha da
Gentilândia que o Murilo conheceu o Denis. Quase todos os dias, mesmo quando
estava liso, depois de vagar pelas tardes mornas de Fortaleza à deriva como uma
jangada desancorada, o nariz de Murilo começava a coçar e ele ia bater lá pra ver
o que estava rolando. Os dois tinham personalidades totalmente opostas, o que
dificultou um pouco o contato inicial. Enquanto Denis era temperamental,
impulsivo, metido a machão, oportunista como um cão medroso, o tipo de sujeito
que fazia as coisas sem pensar duas vezes, Murilo era passivo, indolente, meio
bonachão, falava arrastado e nunca tinha certeza de porra nenhuma. Ainda assim,
apesar de todas essas diferenças, os dois acabaram descobrindo algo muito forte
em comum. Denis e Murilo partilhavam o mesmo sentimento de que, no fundo, a
vida não exigia nenhum gesto heroico, nenhum sacrifício supremo ou compaixão
desmedida, mas apenas a capacidade de aguentar. Era o que Murilo chamava de
filosofia da vítima. Se o mundo era dividido entre vítimas e algozes, ele
dizia, com algumas outras categorias menores e menos importantes no meio dessas
duas, uma vez que a pessoa escolhesse o lado da vítima, como eles,
conscientemente ou não, haviam feito, então tudo se resumia ao quanto você era
capaz de aguentar antes do fim. O que não significava que não se pudesse
revidar quando aparecia a chance.
Embora tenha sido essa afinidade de espíritos que os ligou inicialmente,
foi outro fato, bem mais concreto, que ajudou a solidificar de vez a união.
Depois que ficaram amigos, Murilo, que vivia duro, veio com uma proposta que
prometia resolver os problemas do Denis e, de quebra, os dele também. Se Denis
permitisse que Murilo participasse dos seus negócios, em troca, ele prometia ajudá-lo
a espalhar seus contatos, já que conhecia muitas pessoas interessadas em
comprar e que não eram nada fiéis a seus dealers, e, assim, aumentando as
vendas, os lucros aumentariam e não haveria mais problemas com dívidas e tudo ficaria
ótimo. O plano teria dado certo se Murilo não tivesse se mostrado um péssimo
sócio, já que ele também tinha o mau hábito de cagar onde comia. Do mesmo jeito
que Denis, ele não soube se segurar, cheirando no mesmo ritmo que
vendia e, no final, acabaram os dois devendo até a alma. Nesse tempo eles
começaram a andar pra cima e pra baixo juntos, numa espécie de solidariedade
mútua pra ver se davam um jeito de descolar uma grana e saírem limpos dessa.
Foi nessas circunstâncias que eu fui apresentado ao Denis pela primeira vez.
Era um domingo à tarde se eu não me engano, quando Murilo veio bater na minha
porta quase chorando e pediu que eu emprestasse dois mil reais a ele, com a
promessa de que devolveria o dinheiro assim que pudesse. Claro que isso nunca
aconteceu e eu continuo esperando essa grana até hoje.
Sem perder tempo com cumprimentos e palavras amigas, eles se meteram na
cozinha atrás de copos. Pouco depois foi a vez de João chegar, o que me deixou
confuso e ao mesmo tempo surpreso, porque eu não lembrava de tê-lo chamado. Pelo
modo como estava vestido parecia ter vindo direto do jornal e carregava umas olheiras
de quem não dormira bem a noite passada. João era reservado com quem não
conhecia e mais ainda com aqueles de quem não gostava. Conversar com ele sempre
envolvia um certo risco, e os mais suscetíveis frequentemente acabavam se
machucando. Mas se você não tivesse o mínimo de sensibilidade como o Denis e o Murilo,
por exemplo, então não havia com o que se preocupar, pois de resto o João era inteiramente
inofensivo. Ganhar seu afeto demandava tempo e atenção a pequenos detalhes.
Nunca se podia adivinhar o que se passava pela sua cabeça e seu senso de humor,
de tão particular, era quase inacessível, especialmente nos últimos tempos. Por
causa de uma briga que pegara com seu editor, agora todos os abacaxis caiam no
seu colo e ele sempre tinha que ficar preso até tarde com alguma matéria pra
qual não dava a mínima e com frequência saía prejudicado nas escalas de fim de
semana. E o pior é que ele não tinha nem com quem reclamar, já que o povo da
redação tampouco ia com a cara dele.
Há coisa de dois anos, João lançara um pequeno romance sobre uma
camareira que trabalhava numa pousada na Praia de Iracema e que fazia um
dinheiro extra trepando com os hóspedes, quase sempre homens solitários, de
passagem pela cidade. Numa dessas, ela acabou ferindo a regra de ouro da
profissão e ficou de quatro por um paraguaio misterioso e desconfiado que
passava o dia olhando a rua da janela. Certa vez, querendo deixar as coisas um
pouco mais interessantes, quando a camareira veio lhe fazer sua tradicional
visita das cinco, o paraguaio a chamou pra perto de si com uma sensualidade
encantadora e, usando aquele seu sotaque de fronteira, cafajeste, pediu que ela
abrisse a boca sem fazer perguntas. De olhos fechados, ela obedecia, ao
contrário das pernas que tremiam contra sua vontade. O paraguaio então umedeceu
o indicador na língua da camareira e depois de mergulhar o dedo num pó branco
como talco voltou a introduzi-lo na boca da mulher, deixando-a molhada de
excitação. A camareira provou uma das sensações mais intensas de toda sua vida.
Ela nunca tinha se sentido daquele jeito, tão poderosa, tão dona de si. Dali em
diante, o mesmo ritual se repetiu dia após dia, durante o mês em que o
paraguaio esteve hospedado na pousada. E era com um gosto amargo que ele admitia
pra si mesmo ter a camareira conseguido virar sua cabeça, enfeitiçando-o de um
jeito que, apesar dos seus quarenta anos bem experimentados, ele pensava só ser
possível nas canções de amor. O paraguaio já não era capaz de se imaginar longe
dos carinhos daquela morena pequena e macia como uma rolinha, apesar de uma
intuição ruim que lhe dizia que, pro bem da moça, era melhor deixá-la fora da
sua vida. No entanto, já perto de ir embora, ele resolveu ignorar seus instintos
e, coisa que nem era do seu feitio, começou a se apegar a possibilidade de que
deus havia colocado aquela mulher no seu caminho pra salvá-lo. Completamente
cego por essa ideia, o paraguaio fez uma oferta irrecusável à moça: se ela
fosse embora com ele, iria fazer dela uma mulher muito rica. Nunca mais
precisaria trabalhar na vida, e eles morariam numa casa grande, cheia de
quartos, com piscina e quintal pros filhos brincarem. A camareira achou que
tivesse ganhado na loteria e disse à família que tinha conhecido um empresário
rico e que eles iriam se casar. A única condição é que fosse embora com ele
imediatamente. Disse também que não se preocupassem, porque assim que pudesse
mandaria notícias. Seis meses depois, os corpos dos dois, ou melhor, o que havia sobrado deles foram encontrados enterrados numa cova rasa, cercada pelo capim alto, a
trinta quilômetros do centro de Assunção, mas disso a família jamais ficou
sabendo. E assim terminava a história da pobre moça.
Desde pequeno, João tinha essa fixação por histórias violentas, cujas
vítimas, por um motivo que talvez só ele soubesse, quase sempre eram mulheres.
O livro, entretanto, passou completamente despercebido. Com exceção de uns
poucos amigos a quem distribuíra algumas cópias, ninguém tinha ouvido falar
nele, o que deixava João mais puto do que triste, já que ele alimentava a
ingênua esperança de um dia sair do jornal e ser escritor.
Antes que os três começassem a se estranhar, fui buscar o baralho e as
fichas e sugeri que iniciássemos logo os trabalhos. A pequena mesa retangular
da sala nos dividia, dois a dois, em fronteiras opostas. De um lado, ficamos eu
e o João, e do outro, dando as costas pra porta, estavam o Denis e o Murilo. Pra
não atrapalhar o desenrolar do jogo, as bebidas quentes haviam sido colocadas
ao alcance da mão, numa das pontas da mesa, e de vinte em vinte minutos alguém
ia até a cozinha pegar mais cerveja, porque, no meio daquela noite quente, ela
parecia ser a única coisa que nos trazia algum conforto. Depois do primeiro
copo, João foi começando a se soltar e lá pelas tantas até arriscou a falar
sobre algo que normalmente teria mantido consigo, “Tô escrevendo outro livro,
mas ainda não sei direito como é que ele vai se chamar”. Denis e Murilo,
que até então permaneciam estranhamente quietos, ao ouvirem o que João dissera,
não conseguiram segurar uma risadinha escrota, mais maldosa do qualquer coisa
que pudessem ter dito. A verdade nua e crua é que nenhum deles gostava do João.
Achavam-no orgulhoso e pedante. E daí que ele trabalhava num jornal? E daí que
ele escrevia livro? Grande merda. Todo mundo era escritor e jornalista hoje em
dia. Isso era o que eles falavam do João pelas costas. E naquele momento, a
única coisa que os impedia de repetirem aquelas palavras na frente dele era
saberem que, com aquilo, iriam começar uma briga e eu acabaria mandando todo
mundo se foder e encerraria a noite.
Embora eles tivessem conseguido se controlar, por muito pouco aquela
risadinha que parecia ter sido combinada, tão natural foi a sincronia com que
ela havia brotado da boca dos dois ao mesmo tempo, não pôs tudo a perder. Ferido
em sua integridade artística, João se enfureceu e contra-atacou imediatamente:
“Do que é que cês tão rindo, hein? Cês não sabem de porra nenhuma. Vivem aí só
de ficar debochando dos outros. No dia que vocês tiverem feito alguma coisa
melhor do que eu, aí podem rir de mim à vontade, até dizer chega”. Denis e
Murilo se entreolharam, como se pesassem as vantagens e desvantagens de ignorar
um desaforo como aqueles em troca de beberem às minhas custas e, no final, cada
um virou seu copo de uma vez, e continuaram a jogar.
Diferente do Denis, Murilo conseguiu terminar a faculdade, mas só
porque a cada novo semestre seus pais vinham com a ameaça de botá-lo na rua se ele
insistisse em querer desistir. Apesar do esforço dos velhos, seis anos haviam se
passado desde que ele se formara e absolutamente nada ainda tinha acontecido. O
diploma do Murilo jazia enterrado numa gaveta, debaixo de um monte de papéis
velhos e contas a pagar, e todo o dinheiro que ganhava vinha dos bicos que
fazia pro Denis ou então era pescado da carteira de alguém. Mesmo nunca
tendo pagado aqueles dois mil, não era raro o dia em que Murilo
aparecia no meu apartamento e como quem não quer nada me entregava aquele seu
sorriso desfaçatado e me pedia uma graninha, na boa. Em troca, de vez em quando
ele me arrumava um pouco de doce e um suprimento mensal de erva, que eu deixava
guardada numa caixinha de balas Valda.
Na mesa, sem contar o Murilo, que jogava poker on-line todo santo dia, Denis
era o único que realmente sabia o que estava fazendo. O pai dele, que era um
jogador viciado, a ponto de apostar as poucas posses da família só pra sentir a
adrenalina bombeando o coração que só faltava explodir, havia lhe ensinado o
segredo das cartas e também de outros jogos. Nas damas, o velho era um
adversário de respeito. Toda tarde, com sol ou chuva, ele andava cinco
quarteirões pra jogar apostado num tabuleiro entalhado num toco de madeira, grosso
como o sujeito que o havia feito, levando uma garrafa de pinga debaixo do braço.
E não havia dia em que não passasse numa banquinha de Para Todos, fazer uma
fezinha num dos bichos com os quais ele vivia sonhando.
Exatamente como tinha aprendido com o pai, Denis conversava, parecendo
desatento e distraído e, de repente, surgia com a carta certa e acabava com a
gente. Ganhou as duas primeiras rodadas num sopro. Lucas era a única pessoa
páreo pra ele, mas enquanto não chegava íamos sendo depenados. “Da próxima vez,
não vou cortar o baralho pra vocês não pensarem que eu tô roubando. É tudo uma
questão de sorte”, ele dizia, entre uma vitória e outra.
Com o tempo, a bebida foi dissipando a névoa da animosidade que pairava
sobre a mesa e, à certa altura, quando já tínhamos derrubado todas as cervejas
e entrado pela vodka, João foi pego de surpresa, rindo frouxamente de uma
história que Murilo acabara de contar. “Menino, eu preciso falar um baratismo pra
vocês... Sexta-feira passada eu tava dando um close sozinho na Divine, vendo se
catava alguma coisa, e, quando foi aí, eu vi um anão belíssimo dando sopa. Ele
era todo tatuado e ainda por cima tinha cara de ativo. Ai, eu não me aguentei,
fiquei só olhando pra ele. Mas tinha uma bicha lá que chegou depois de mim e que
também não tirava o olho desse anão. Aí eu cheguei pra ela e disse: ‘Bicha, vem
cá. A senhora pode tirar o cavalinho da chuva. Eu vi primeiro’. Ela fingiu que
não me ouviu e a gente ficou cada uma no seu canto paquerando o anão. Aí quando
foi um pedaço eu fui lá falar com ele. Enquanto a gente tava conversando, a
bicha ficou me encarando com ódio. Depois de um tempo, eu me despedi do anão e
fui até aonde a bicha tava e disse assim pra ela: ‘Tá bom, bicha. A senhora
pode ficar com o anão’. Ela não entendeu nada e perguntou o que é que eu tinha
ido falar com ele”. “E o que foi que tu falou?”, o Denis também quis saber. “Eu
disse assim pro anão”, o Murilo respondeu, “‘Anão, tem uma bicha mais baixa que
a senhora querendo ficar contigo’”.
Passava das dez quando Alice chegou, arrumada demais pra que eu
acreditasse que seu único objetivo era ficar ali com a gente. Debaixo da
maquiagem pesada, seu rosto não denunciava o mínimo cansaço e seus olhos
pareciam duas bilas redondas e brilhantes, cercadas pelos cílios pintados. Depois
de falar com todo mundo, Alice puxou uma cadeira, porém já se desculpando,
porque, como eu suspeitara, ela não iria se demorar. Daí a pouco, seu telefone
tocou e depois não parou mais. Sempre antes de atender, Alice tomava o cuidado
de se afastar dos meus ouvidos curiosos, indo até a cozinha. Pela sétima vez,
quando eu já estava quase pronto a tomar o telefone das suas mãos e jogá-lo da
janela, Alice voltou mastigando uns biscoitos e, levando a mão à boca, foi se
despedindo de nós estalando beijos no ar. Eu a acompanhei até a porta, tão
atordoado pela rapidez daquela visita, que, por um segundo, cheguei a alimentar
a esperança louca de que aquilo não passasse de uma brincadeira de mau gosto e de
que Alice fosse dar meia volta e se sentar perto de mim outra vez. Mas nada
feito. Antes de sair, ela me abraçou com força, me deu um cheiro no pescoço e
desceu as escadas, espalhando seu perfume adocicado pelo ar. Em seguida, corri
até a varanda pra espiar Alice. Os olhares corrosivos dos três, direcionados a
mim, aguardavam impacientemente que eu terminasse logo aquele meu showzinho de auto
humilhação e continuasse a jogar. Lá fora, encostado ao meio-fio, um carrão
branco, com vidro fumê e cara de importado, esperava com os faróis ligados e o
motor funcionando. Ao aparecer na rua, Alice deu uma última ajeitada nos
cabelos, já puxando o trinco da porta e desaparecendo dentro da noite que
agonizava.
Enquanto isso, sentado numa cadeira de plástico que se torcia com o
peso de suas risadas, Murilo cochichava alguma coisa no ouvido do Denis,
virando um copo atrás do outro. Eu não sabia se eles estavam rindo de mim ou se
aquilo era só uma piada interna, e passei direto pro banheiro mastigando essa
dúvida. Quando voltei, tomei um susto ao encontrar seus lugares vazios. Só o João
continuava sentado, olhando o vazio como se tivesse perdido nele alguma coisa e
amassando um rei de copas com as mãos.
Cadê o Murilo e o Denis? Pra onde é que eles foram? – perguntei.
Sei lá. Saíram sem dizer nada. Olha, Gaspar, eu vou te falar uma coisa...
não sei como é que tu aguenta esses dois idiotas. Eu sabia que eu não devia ter
vindo. Eu sabia. Foi deprimente.
Ah, não reclama João. Esse encontro esteve à altura dos meus convidados.
Quer dizer então que eles não disseram nada, foi? Ótimo. Eu não esperava me
livrar daqueles dois tão cedo. Bom, é melhor tu ir embora também. Tô morrendo
de sono. Depois a gente se fala.
João recolheu suas coisas e se levantou, sem conter a indignação pela
maneira rude e mal educada com a qual eu tinha me livrado dele. “Tu é um
grosso, Gaspar”, ele disse, enquanto caminhava rigidamente em direção à porta.
Eu começava a limpar a mesa, aliviado por aquela noite ter acabado sem
maiores problemas, mas não deu nem dez minutos e três batidas soaram do lado de
fora, ou melhor, três socos que quase botaram a porta abaixo. “Puta que pariu.
Vai arrebentar a porta caralho?”, gritei, pensando que fossem Denis e Murilo que tivessem voltado. No entanto, ao girar a maçaneta, dei de cara com o Lucas, mal conseguindo ficar em pé de tão bêbado. E de tão bêbado seu pescoço
não dava mais conta de suportar o peso da cabeça, fazendo com que ele andasse
com o queixo encostado no peito. Lucas só voltava a ficar na sua posição
natural quando urrava, chamando pela Cris, “Criiisssss. Criiissss. Gaspaaaaaarrrrrrr,
cadê ela? Criiisssss”.
Cala boca, merda. Para de gritar e me diz o que aconteceu. Se tu
continuar desse jeito, os vizinhos vão começar a reclamar.
Cadê ela, Gaspar? Cadê ela? – ele insistia, cambaleando seu corpo enorme
e fedendo a cachaça.
Tentei levá-lo ao banheiro, esperando que uma ducha de água fria o
deixasse mais tranquilo, porém o Lucas se debatia, arremessando seus braços pra
todo lado. Eu me desviava como podia, sabendo que, se um daqueles cotovelos me
acertasse no lugar errado, eu seria nocauteado sem direito à contagem.
Finalmente, depois de botar muita força, fiz com que ele desse alguns passos em
direção ao banheiro, mas antes que pudesse cruzar a porta Lucas tropeçou num
copo e perdeu o pouco equilíbrio que lhe restava, derramando seu peso enorme
sobre mim. O baque da queda, seguido pelo meu urro de dor, fez tremer a mesa da
sala e as paredes do apartamento. Se os vizinhos já não estivessem tão
acostumados comigo, meus hábitos estranhos e meus amigos sujos e de caráter
duvidoso, eles provavelmente teriam chamado a polícia pra ver que porra estava
acontecendo. Num só impulso de raiva, empurrei o Lucas pro lado e fiquei em pé
outra vez. Enquanto checava se não havia nenhum osso quebrado, puxei-lhe pelo
braço, mas era como tentar erguer sozinho uma coluna de ferro. Nem a queda serviu pra calar a boca do
Lucas, que gritava e choramingava como um bebê gigante. Minha cabeça explodia.
“Cala a boca, má. Eu juro por deus que se tu continuar com essa putaria, eu vou
te cobrir de porrada, tá me ouvindo?”, rosnei. Mas eu nem tive a chance de
cumprir o prometido, porque o Lucas não demorou a cair no sono, enrolado junto
ao pé da mesa e roncando como um trator.
Pra recuperar o fôlego e esquecer aquela noite de merda, peguei o que
havia sobrado da vodka e preparei uma dose dupla misturada com quisuco (ficou
uma droga mas eu resolvi tomar assim mesmo) e tirei os tênis e estiquei as
pernas e esperei sem saber muito bem pelo quê. Mas aí a campainha tocou de
novo, alta e estridente, e de novo a porta tremeu com o impacto de batidas
apressadas. Dessa vez, eu estava resolvido a permanecer imóvel, brincando de
morto, mas mudei de ideia no mesmo instante, por causa de uma daquelas
intuições fortes o suficientes pra serem ignoradas. Era difícil, mas talvez, talvez
Alice tivesse caído em si e se arrependido daquele seu encontro idiota pra
passar a noite comigo. Em que espécie de homem eu tinha me transformado. Ficar
daquele jeito por causa de algumas migalhas que caiam por acidente no meu colo. Ainda assim, me levantei sem pensar mais em nada, e foi só eu virar a chave, Denis e Murilo abriram a porta com tudo, segurando um saco cheio de cervejas
e achando muita graça da minha cara de surpresa e decepção e mais ainda daquele
enorme urso deitado embaixo da mesa. “Olha quem chegou”, o Denis gritou pro
Murilo, que imediatamente correu pra acordar o Lucas. Do modo como ele estava
dormindo, nem uma bomba teria sido capaz de trazê-lo de volta. Mesmo assim, eu
não quis arriscar e tratei de tirar os dois de perto dele. O Murilo acatou
minha ordem com desdém e em seguida foi colocar as cervejas no congelador,
enquanto Denis contava como, há poucos instantes, um sujeito esquisito havia se
aproximado deles no posto de gasolina, querendo saber se não estavam
interessados em tirar umas fotos. “Que tipo de fotos?”, eu perguntei a ele. “Não
faço a menor ideia. Eu perguntei pro cara, mas ele enrolou, enrolou e não disse
nada. Meu palpite é que ele queria comer a gente. E se eu não tivesse impedido,
esse viado aí”, Denis falou, apontando pro Murilo, “era capaz de ter se metido
no carro com o cara e uma hora dessas taria de quatro e amordaçado em algum
motel na Barra do Ceará”. Da cozinha, Murilo fingiu um suspiro e
gritou, “Ai meu deus, era mesmo. Até agora tô arrependido de ter te escutado”.
Muito concentrado e com os olhos frios e cintilantes, Denis puxou uma
cadeira pra continuar o jogo de onde tínhamos parado, e só então se deu conta
de que o João não estava mais ali. “A gente precisa de mais uma pessoa pra
jogar essa porra. Não tem jeito, Gaspar. A gente vai ter que acordar o Lucas”,
ele disse. Enquanto isso, tendo voltado do banheiro, Murilo andava de um lado
pro outro, agitado e suando muito.
Porra, eu preciso duma cerveja – Murilo disse, fungando como se
estivesse gripado.
Mas elas ainda tão quentes – Denis advertiu – cutucando o Lucas com pé.
Não tô nem aí. Gaspar, onde foi que tu enfiou o abridor?
Ei, vocês dois, é melhor darem o fora. Tô pregado de sono. E, Denis,
pode desistir, o Lucas só vai acordar amanhã.
Eles não queriam acreditar que eu estivesse falando sério, mas pra
acabar com qualquer dúvida corri até a cozinha e fui tirando as cervejas do Murilo
do congelador. “Vão beber essas cervejas aí noutro lugar. Não tô mais a fim de
ver ninguém”, afirmei. Eles me ouviam perplexos. Denis, que estava um pouco
mais sóbrio, ainda tentou me dobrar, dizendo que eu podia dormir tranquilo e que
eles ficariam ali pela sala quietinhos, sem fazer zoada, e, de manhã, quando eu
acordasse, nem os encontraria mais lá. “Não, porra. Tô falando sério. Vocês tem
que dar o fora”, insisti. Balançando o pé freneticamente, Murilo se virou pra
mim e falou, “Não acredito que tu tá expulsando a gente, Gaspar. Ainda não é
nem uma da manhã. Pra que essa pressa de se ver livre da gente? Até parece
que tu vai arrancar a Alice da cama de alguém”. Esquecendo o síndico e suas
advertências, resolvi dar uma de doido e comecei a chutar tudo o que encontrava
pela frente pra assustá-los. Ao perceberem que não tinha outro jeito, eles
terminaram de derrubar o pouco que sobrara em pé no apartamento e saíram
batendo a porta. Enquanto isso, Lucas dormia profundamente, agitando uma das
mãos pra espantar os mosquitos que zumbiam em seus ouvidos.
Depois de expulsá-los, virei o resto da vodka com quisuco e fui me
deitar no quarto. Como o sono não veio, engoli dois comprimidos, um pra dormir
e outro pra sonhar, e apaguei.
dois
Retornar é sempre triste.
Cumprimentando o porteiro, subi as escadas. Na mesa havia uma pilha
enorme de papéis e em cima deles um bilhetinho amarelo com meu nome escrito. Bruno carimbava o que via pela frente com a regularidade de uma máquina e, sentada em
sua cadeira giratória, Rute cutucava as unhas com um alicate. “A partir de
amanhã é bom começar a chegar na hora. Tá cheio de trabalho acumulado”,
advertiu. Ela devia ter uns cinquenta anos, talvez mais. Não dava para saber ao
certo. Para disfarçar as rugas, rebocava o rosto com uma base espessa e quando o
ar condicionado quebrava a maquiagem vinha abaixo junto com o suor, dando à pele
a impressão de derreter. Só vestia azul e branco, por conta de uma promessa que
fizera para se livrar de um câncer que havia lhe arrancado um dos peitos, e passava
a maior parte do tempo entretida em algumas poucas atividades. Uma delas era dar
ordens, resquícios de um hábito antigo. Houve uma época em que Rute chegou a
ser uma figura importante na repartição, casada com um vereador influente, que há
mais de dez anos orbitava com sucesso a esfera do pequeno poder. No entanto, a
doença, seguida da separação, logo a tornaram obsoleta e indesejável. Os
privilégios não tardaram a desaparecer, assim como os convites para as festas
de final de ano.
No horário de sempre desci para almoçar com Cláudio. A poucos metros de
onde eu trabalhava, num cubículo alugado no Centro, ele se gastava xerocando livros
e documentos, e havíamos nos tornado amigos porque a copiadora da repartição
vivia quebrada. O lugar de tão pequeno lembrava um banheiro e, dentro, o calor por
vezes se tornava insuportável. Cláudio vivia ofegante, respirando pesado, como
se estivesse prestes a sufocar. Os cigarros deviam contribuir para isso, já que
ele fumava desde os quinze anos. De tanto passar as mãos no rosto para enxugar o
suor que descia pela testa, trazia-o eternamente sujo. Depois de comer um PF a
dois quarteirões da Duque de Caxias, sempre corríamos à banca do Newton, em frente ao Cine Betão, comprar cigarro.
Homens imundos e esfarrapados se
espalhavam pelas ruas e calçadas, quase tanto quanto o lixo. Era raro o dia em
que não se aproximavam pedindo dinheiro. Quando não conseguiam o que queriam, às
vezes acontecia de arrancá-lo à força. Por andar ali há tanto tempo, cheguei a
conhecer alguns deles. Havia um em especial que me chamava a atenção. Com o
olhar vidrado, ele remexia a lama que se acumulava no meio-fio. Sem cuidar do rasgão
bem no meio do short, revelando sua masculinidade crua, conversava consigo
mesmo por horas. Fruto de algum acidente ou defeito de nascença, as pernas não
passavam de dois pequenos tocos, e se locomovia usando apenas os braços
musculosos.
Querendo celebrar meu retorno, Cláudio sugeriu que antes do almoço déssemos
uma passadinha no Disney Lanches para uma cerveja, coisa rápida, só para
aliviar a tensão do primeiro dia. A televisão, presa a um suporte no alto da
parede, atraía todos os olhares. O noticiário de esportes anunciava o novo
pacote de reforços dos times da capital em meio a vaias e comentários.
De volta ao trabalho, circulei pelos corredores, bebi várias xícara de
cafés, me livrei do excesso de papéis e empurrei o resto para o dia seguinte. Ansiava
chegar em casa, embora encontrar o apartamento vazio sempre me deixasse um tanto
desconsolado. Pouco depois de colocar os pés na rua, o suor já escorria pelos
sovacos. Sem prestar atenção no que acontecia ao redor, percorria a mesma paisagem
gasta de todos os dias. Descendo a General Sampaio, longe ainda do meu destino
final, o telefone tocou.
O que tá fazendo?
Voltando pra casa, por quê?
É que eu queria te fazer um convite. Queria que tu fosse a um lugar
comigo hoje.
Que tipo de lugar?
Ah, isso é surpresa. Só vai saber se aceitar. O carro já ficou pronto?
Ainda não.
Tem um ônibus que tu pode pegar na Praça da Bandeira. É só pedir pra
descer assim que cruzar a Barão de Studart. Te encontro lá em uma hora. Topa?
Agarrada à bolsa e com o passo apressado, olhando constantemente para
trás e para os lados a fim de se certificar de que ninguém suspeito a acompanhava,
Alice surgiu envolta pela noite. A seguir, não muito longe de onde eu descera,
atravessamos a avenida e paramos bem em frente a uma construção de muro baixo,
acima do qual se erguia uma placa dizendo “Centro de Meditação”. Passando por
um jardim amarelecido pelo sol, e vencidos os três degraus que levavam ao interior
da casa, chegamos a uma sala ampla, com várias almofadas cuidadosamente distribuídas
pelo chão. Fomos recebidos por um homem de pele morena, rosto caído e ar de
abandono. Apesar da barriga redonda e compacta que se pronunciava debaixo da
camisa, era magro e se movimentava com leveza. Cumprimentou-nos flexionando o
tronco na altura dos quadris e então sentou-se com as pernas cruzadas uma sobre
a outra. Falando com uma lentidão calculada pediu que o imitássemos.
Além de nós havia mais cinco ou seis pessoas na sala. Depois das
apresentações, fechamos os olhos como nos foi indicado e fez-se a escuridão. O
silêncio era esmagador. Como uma criança quando se vê livre do cuidado dos
pais, minha mente, privada dos sentidos mais básicos, experimentou primeiro uma
liberdade deliciosa e despreocupada, para logo depois vagar desgovernada por caminhos
agrestes e pouco familiares. Quem sabe aquele sacrifício do corpo – pelas
costas subia uma dor fina e fria que chegava até a nuca – e da alma não me
tornasse ao final doce e imaculado como um caju. Repicando um pequeno sino
dourado, o homem pediu que andássemos em círculo, pé ante pé. Quando tudo
acabou, eu e Alice flutuamos de volta à rua.
Pena que tu não pôde ficar mais tempo com a gente.
Foi mal. Eu sei que era tua despedida
das férias, mas tava resolvida a dar uma chance a esse cara que já vinha me
chamando pra sair faz tempo. Me esquivei até quando pude, mas ele insistiu
tanto. Tu sabe como as mulheres podem ser generosas.
E como foi o encontro? – perguntei,
engasgado.
Nada com o que eu já não tivesse
acostumada. Depois do jantar, o cretino quis me levar pro motel.
Mas tu não foi, certo?
Não, eu fui sim. Não me pergunte por
que fiz isso. Eu mesma não tenho a menor ideia. Ele nem era o meu tipo e ainda
por cima transpirava demais. Não foi nada agradável a experiência de ter um
estranho suando em cima de mim – disse e, após uma longa pausa, Alice perguntou - Que é que tu tem, Gaspar? De repente
ficou aí todo calado.
É só uma coisa que eu acabei de
lembrar. Quinta não é o aniversário do Lucas?
O ônibus de Alice avançou chacoalhando a estrutura frouxa pelo asfalto
irregular, com raiva daquela incumbência perpétua. Antes de subir, ela se
despediu com um beijo atirado à distância. Apoiado em uma das pernas eu
continuava a esperar, mirando o asfalto enquanto os automóveis passavam
ligeiros.
três
Depois de uma semana na oficina, o carro permanecia derramando óleo. Com as unhas cheias de graxa, o mecânico coçava a barriga peluda, dizendo que o motor não tinha mais salvação, precisava ser refeito, “Do jeito que tá, não dou nem um mês pra quebrar de novo”.
Terminado o expediente passei no Cláudio, que, com os cotovelos pontudos enfiados na fórmica encardida, olhava a pilha de livros que precisava copiar e rosnava, “Tô velho demais pra isso”. Larguei-o na parada de ônibus, onde as pessoas se acotovelavam em busca de espaço, e dei a volta no quarteirão para pegar a Duque de Caxias novamente. O calor me cercava de todos os lados e o trânsito avançava lento. Quase uma hora após deixar o trabalho, apontei na Monsenhor Catão, onde ficava a loja de Alice. Ela, que esperava do lado de fora, colada ao muro, ao reconhecer o barulho inconfundível do motor, se precipitou para o carro rapidamente, como se fugisse de alguma ameaça terrível. Atrás da porta de vidro, Alberto a observava parado, com a boca aberta e as mãos na cintura. “Então, esse é o cara que tá te incomodando?”, perguntei. Bufando, Alice reclinou o banco, fechou os olhos e afirmou, “Só dirige, Gaspar. Só dirige”, e se manteve calada durante toda a viagem.
No Januário, Murilo e Denis conversavam, ao mesmo tempo em que Lucas apoiava um dos braços em Marcela, que não cansava de revirar os olhos por causa de sua verborragia dadaísta. Ao contrário de Alice, ela não usava maquiagem ou brincos e mantinha os dedos livres de anéis. Como se tivesse acabado de chegar, trazia os cabelos molhados e exalava um reconfortante cheiro de sabonete. Vestindo uma camiseta branca muito justa e uma saia fina e esvoaçante, Marcela seria a personificação de uma pastoral tropicana não fosse o tanino de suas palavras.
Ao passo que eu cumprimentava o pessoal, Alice se afastou discretamente para atender uma ligação e, minutos depois, deixando a cadeira a meu lado vazia, levou a noite consigo, ao entrar num carro que a esperava com os faróis apagados. Pouco depois de sua partida, ocupando o lugar de Alice, João veio se juntar à bebedeira e, para disfarçar o constrangimento de aparecer sem ter sido convidado, pediu três garrafas por sua conta. Embora tivesse a resistência de um marinheiro, no apagar da última hora, já exibindo sinais de embriaguez, Marcela deu um abraço em Lucas, esvaziou o copo e saiu arrastando as sandálias. Assim, no final, ficamos apenas os cinco, cheios de raiva e cercados de bebida.
Pensei que a Cris viesse contigo, Gaspar – Lucas perguntou, como quem não quer nada.
Tu ao menos se lembrou de chamá-la?
Claro que não. Tu é quem devia ter feito isso.
Por quê?
Por que... Ah, droga, tu sabe por quê.
Não era obrigação minha. Se a quisesse aqui, tu mesmo deveria ter feito o convite.
Tanto faz, não tô a fim de ouvir sermão, ainda mais de ti. Sabe por onde ela tem andado?
Não escutou o que eu disse? Não sei o que a Cris tem feito, por onde ela tem andado, o que ela tem comido. Merda. Não sou teu moleque de recado.
Mas me diz uma coisa, Gaspar, disso tu deve saber com certeza – Lucas estava na ponta dos cascos, pronto para me fazer pagar por minha insolência, – qual é a da Alice? Ouvi dizer que ela vem recendo umas ligações estranhas já tarde da noite, e depois, quando menos se espera, algum carrão aparece e a leva embora. Pelo que me falaram, foi assim naquele dia lá no teu apartamento e hoje... Vocês viram? A Alice parece ter encontrado uma maneira mais rápida de tirar o pé da lama. Afinal, vender roupas tava ficando muito cansativo.
Tu não vai conseguir me tirar do sério, Lucas. Nem vale a pena se dar o trabalho.
Pedimos outra rodada e a conversa foi ficando cada vez mais torta. Já tendo colocado seu copo de lado, João observava tudo em silêncio, temendo que aquela demonstração desnecessária de rancor terminasse por explodir em seu colo.
Se tem uma coisa que eu detesto é comemorar aniversário. É uma tradição de merda. O que há de tão especial em celebrar a própria finitude?
Não vejo nada de errado com aniversários – Denis retrucou.
Nem eu – Murilo disse. - Na pior das hipóteses, é mais um motivo pra encher a cara. Além do mais, aniversários são como uma carta branca pra fazer besteira. A desculpa “Mas é meu aniversário” comove até os corações mais duros.
Vocês ficam enrolando, enrolando... Quero ver quem é que vai pagar essa porra – afirmei, enquanto, zonzo, tentava contar os cascos embaixo da mesa.
Gaspar, tu é um filisteu. Só pensa em dinheiro – Denis disparou.
Só quero deixar claro que dessa vez eu não vou pagar a conta sozinho, ouviram? Tô cansado de vocês, seus merdas sanguessugas.
Eu sou o único que merece beber de graça hoje. Afinal de contas é meu aniversário. É obrigação de vocês pagar a porra toda – Lucas falou, aos berros.
Mas você não acabou de dizer que odiava aniversários? – Murilo fez questão de pontuar, erguendo o copo como se fosse fazer um brinde.
Foda-se, isso não muda nada. É meu aniversário. Ponto.
Só porque o dia hoje foi bom, eu pago a minha parte e a do Murilo – afirmou Denis, atirando um maço de dinheiro em cima da mesa.
Ô Murilo, tu não se cansa de ser a putinha do Denis?
Tu tá é com inveja dele, Lucas, só porque o Denis não é um filho da puta quebrado e mesquinho como você.
Não adianta ficar me bajulando, Murilo. Considere isso apenas como um adiantamento.
Por que não diz pra gente onde é que tu consegue arrumar grana assim de uma hora pra outra, hein Denis? Tu pensa que a gente é idiota ou o quê?
Pega leve, Lucas. É melhor tu se acalmar.
Não tenho medo de ti.
Pois deveria.
Essa brincadeira imbecil tá começando a perder a graça – eu disse.
Fica na tua, Gaspar. Meu assunto é com o Denis.
Tu devia se preocupar mais em ganhar teu próprio dinheiro do que em ficar contabilizando o dos outros.
Se eu não vivesse nessa terra de gente estúpida, seria um homem rico – Lucas afirmou, batendo na mesa violentamente.
Acho muito difícil – João disse, finalmente resolvendo se manifestar.
Então, nosso escritor favorito abriu a boca. Diz pra gente, Gaspar, tu que leu o livrinho do João, havia algo que se salvasse naquelas páginas, ou tudo não passava de um delírio egocêntrico?
E quem foi que disse que ele leu? – Murilo se adiantou. - O Gaspar continua o mesmo de quando o conheci: só sabe bater punheta e ver televisão.
Afinal de contas, quem disse que eu queria vocês no meu aniversário? – Lucas atirou de repente, como se só agora tivesse se dado conta de nossa presença.
Tem razão, Lucas. A gente devia ter te deixado chafurdando aqui sozinho –respondi.
Sabe de uma coisa, Gaspar? – Lucas continuou, por um momento esquecido do desafio de João.
O quê?
Tu é incrivelmente anal, cara. Nunca te disseram isso?
Não, mas obrigado por deixar claro pra todo mundo.
E sabe de outra coisa? – insistiu.
O que é?
A Alice e a Cris... aquelas duas se merecem. Elas deviam virar sapatão e ficar juntas.
Depois de uma pequena trégua, João voltou a derramar gasolina na conversa, mas, para seu azar, o fogo acabou se voltando contra ele.
Nunca fui com a cara da Alice – afirmou, imprudentemente.
Tu nunca vai com a cara de mulher nenhuma, João, principalmente das que chegam perto do Gaspar – Murilo atacou.
Isso é ridículo. Eu nunca...
Então é verdade mesmo, João, isso sobre você e o Gaspar? Eu acho que vocês dariam um belo casal.
Não provoca, Lucas.
Não vem querer colocar panos quentes, Gaspar. Hoje é meu aniversário e eu tô bêbado, porra. Tenho direito de provocar quem eu quiser.
Eu sempre soube – Murilo continuou.
Num acesso de raiva incontrolável, João arremessou seu copo vazio na cabeça de Murilo e saiu desabalado. Pressionando a testa com as mãos, ele tentava estancar o sangramento, enquanto Lucas morria de rir, esparramado na cadeira. Durante a confusão, Januário ameaçou chamar a polícia se não fôssemos embora imediatamente. Apesar da noite avançada, de lá seguimos para o Gato Preto, já que nenhum de nós encontrava motivos para não continuar.
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quatro
Seguindo os conselhos de Marcela, buscava evocar pensamentos tranquilos, mas invariavelmente era invadido por meus delírios de cama: mulheres nuas se metiam debaixo dos lençóis; Rute era espancada com um furador de papel; Eduardo tocava a campainha desesperado; Alice desaparecia num carro de faróis apagados. Ficava horas assim na cama, ouvindo o barulho das motos musculosas que passavam rasgando o ar pela avenida, “Zummmmm”. Se os remédios não surtiam mais o efeito esperado, permaneciam ótimos em borrar limites e deixar tudo confuso. E o dia seguinte me encontrava exausto, mas ainda acordado.
Até receber a ligação de Murilo – aflito, ele implorava que eu o fosse encontrar por volta das quatro e meia em frente ao Betão - o café era a única coisa que me impedia de andar esbarrando nas coisas. Tentando manter os olhos abertos, eu ia de um lado ao outro, abria e fechava gavetas, riscava folhas em branco e desfazia clips de papel. Nos intervalos em que deixava as unhas descansarem de seus cuidados meticulosos, Rute me lançava olhares de desprezo. De quando em quando, fazia sinal de reprovação com a boca e chamava a atenção de Bruno, que, rangendo os dentes, resmungava algo de volta. Terrivelmente ocupado, ele batia o carimbo na mesa, sem tirar a vista do computador. Alheio àquelas provocações anódinas, logo após deixar Murilo falando sozinho ao telefone, avisei que precisaria sair mais cedo para resolver uns problemas e, antes que me perguntassem qualquer coisa, caminhei marcial em direção às escadas.
A noite em claro havia me deixado com uma fome ansiosa pelo resto do dia e enquanto Murilo não chegava fui comer um cachorro quente. Perto das cinco, o Centro começou a esvaziar e, nas lojas, os vendedores esperavam o fim do expediente de braços cruzados. Com a barriga cheia, eu folheava umas revistas na banca do Newton, achando graça dos homens que entravam apressados no Betão. Como os outros cinemas pornôs do Centro, os filmes ali dentro serviam apenas de decoração. Tanto assim que, apesar de ser frequentado em sua maioria por gays, a pornografia exibida era em geral bastante ortodoxa. O que aqueles homens procuravam na verdade, o que os interessava mesmo, era desabotoar as calças e se tocar tão naturalmente como se isso nem fosse um convite; era trepar num banheiro imundo, inconscientemente desejando o pior; era o sexo em estado puro, cru e violento. Da banca, dava para sentir o cheiro indescritível que vinha de lá, uma mistura de porra e desinfetante que me deixava nauseado. Sentado, eu fumava com uma indolência tão grande, que acabei deixando o último cigarro pela metade. Quando havia poucas sombras projetadas no chão e as portas dos comércios iam sendo desenroladas estrepitosamente, Newton me despachou com sua voz de pato rouco.
Mesmo para os padrões de Murilo, aquele atraso estava passando dos limites, e como seu telefone permanecesse desligado, decidi dar uma última olhada ao redor antes de ir embora. Enquanto isso, naquele instante, ele vinha correndo pela Floriano Peixoto e depois de dobrar a esquina na Dom Pedro I, antes que eu pudesse alcançar o carro, segurou meu braço por trás e perguntou:
Quanto é que tu tem aí?
Caralho... Tá querendo me matar de susto? – berrei, tentando recuperar o fôlego. - Não muito, por quê?
É melhor a gente ir andando. Eu te explico no caminho.
Uma dezena de quarteirões depois, Murilo insistia em não dizer nada a respeito da missão para a qual eu havia sido sumariamente convocado e foi preciso ameaçar abortá-la para conseguir arrancar dele alguma coisa. Considerando minhas palavras nada lisonjeiras, ele conferiu os bolsos e falou, “O negócio é o seguinte... Primeiro a gente vai ter que passa lá em casa, porque os velhos perderam as chaves e ficaram trancados. Depois que eu resolver isso, aí então eu te explico o que tá acontecendo”. “É bom mesmo”, assenti, segurando um arroto. Para afastar de vez da minha mente a ideia abandoná-lo, Murilo tentava me manter distraído, desviando a conversa por caminhos inesperados.
Gaspar, tu já parou pra pensar que o existencialismo tem realmente pouco a ver com liberdade?
Não dô a mínima pro existencialismo - afirmei, sem dar o braço a torcer. – O que eu quero saber é aonde que isso vai dar.
Peraí, deixa eu acabar – ele gemia. – Na verdade quanto mais condicionada é a realidade, mais livre se é, porque não há muito o que se possa fazer pra mudar as coisas, entende? O que o existencialismo fez foi trocar as bolas. Chamou o que era prisão de liberdade e o que era liberdade, de prisão. As escolhas... – antes que pudesse concluir sua ideia, Murilo estacou, interrompido pelo toque do telefone. - Eu não já disse que tava indo? Por que vocês não ficam me esperando aí quietinhos? O que querem que eu faça? Que eu chegue voando, que eu me teletransporte? – e, respirando fundo, prosseguiu - Vamos pegar o Pancho, por exemplo. Quem tem a existência mais condicionada, ele ou eu? O Pancho só faz o que lhe é permitido fazer, o que é da sua natureza. Ele come, caga, mija, late, balança o rabo, trepa de vez em quando e só. Coisas que são comuns a todos os cachorros, de todas as raças e em todas as épocas. Então, entre mim e o Pancho, ele é quem tem a existência mais condicionada. Eu poderia ir à Lua, ser um bilionário, ou até presidente do Brasil. Mas eu não sou, nem faço nada disso, entende? Então quem de fato é mais livre? Ele ou eu? Pra mim liberdade não é poder escolher entre uma coisa e outra. Liberdade é não precisar escolher.
A casa de Murilo ficava numa rua mal iluminada e sem saída. Ao chegarmos, Pancho nos recebeu com a alegria destrutiva de sempre, arrebentando tudo com seus pulos atrapalhados. Parando por um instante, ele me encarou com aqueles olhos redondos e calorosos e, depois de enfiar as patas na minha barriga, correu para o quintal, de onde voltou arremetendo seu corpo contra o meu e me deixando coberto de baba. Enquanto Murilo dava a volta pela lateral, esperei sentado num batente, resistindo ao calor do cimento curtido pelo sol, que vencendo a calça, queimava minha pele. Porque não tivesse respondido a nenhuma de suas investidas, num momento de compreensão absoluta, balançando o rabo comprido e ossudo, mas já sem a intensidade de antes, Pancho pousou o focinho úmido em meus joelhos e baixou as orelhas.
No interior da casa, os três batiam boca a todo volume. O pai, esbravejando, lamentava o filho inútil que havia gerado, ao passo que a mãe chorava a missa perdida. Furioso com o espetáculo que montaram para recebê-lo, Murilo ignorou as súplicas para que não tornasse a sair e, surgindo pela porta que levava à sala, falou “Tá vendo o tipo de merda que eu tenho que aguentar todo dia?”, e em seguida saiu arrastando o cachorro até o quintal. Diante daquela brutalidade injustificada, a serenidade de Pancho desapareceu por completo. Ele mal levantava os olhos para o dono e tremia com o rabo entre as pernas. A troco de nada, Murilo sentou a mão espalmada no lombo do animal, que ganiu um pouquinho, e apontou para a rua. Tendo liberado um pouco da raiva reprimida que o açoitava, ao entrar no carro, Murilo parecia mais aliviado.
Gaspar - disse, parando para encontrar as palavras certas – será que... será que eu poderia ficar na tua casa por uns dias?
Nem fodendo, Murilo. O Eduardo pode aparecer a qualquer momento.
Que nada... Faz quanto tempo que ele não dá as caras?
Eu sei, mas tu sabe como ele é, não dá pra confiar. Além do mais, não quero correr o risco de ter vocês dois por perto ao mesmo tempo. Por que tu não tenta com o Lucas?
Com o Lucas? Com o Lucas? – repetiu, a fim de deixar claro o absurdo da minha sugestão. - Tu só pode tá de sacanagem.
E o Denis? Será que não rolava com ele? – continuei, tentando despistá-lo.
Tu sabe que a Dora que me detesta, Gaspar. Ela acha, ou melhor, tem certeza de que o sonho da minha é dar pro namorado dela.
Mas, convenhamos, isso não deixa de ter fundamento.
Enquanto isso, obedecendo as indicações de Murilo, pouco depois de deixarmos a Treze de Maio, entramos numa rua calma, ladeada por casas antigas e prédios residenciais. Mais à frente, perto de um terreno baldio coberto de mato e entupido de lixo, ele pediu que eu estacionasse o carro. Do outro lado da rua, ficava uma casinha acanhada e sem número, escondida atrás de uma árvore.
Aqui? Tu quer que eu pare o carro aqui? – perguntei, deixando o motor ligado.
É, aqui mesmo.
Olha, se tu não me disser agora mesmo que tá acontecendo...
Gaspar, tu lembra da Ângela? – Murilo interrompeu, baixando a voz.
Ângela? Não conheço nenhuma Ângela – disse, escarnecido.
Vai dizer que já esqueceu dela? – ele insistiu, com um sorrisinho cretino na boca.
Tu deve tá ficando louco, cara. Não sei de quem é que tu tá falando.
E a rua? Não tá reconhecendo a rua?
O lugar me pareceu familiar, mas eu achei que fosse só impressão minha.
Mas então, tu não lembra de nada mesmo? – tornou a perguntar, dessa vez sem conseguir segurar a risada.
Lembrar do quê?
Daquele dia em que a gente enlouqueceu com os doces do Denis, cara. Depois de sair da casa dele, foi aqui que a gente veio parar.
Puta que pariu.
Pode apostar.
E o que é que a gente tá fazendo aqui, seu idiota? Vamo embora.
Não, espera – Murilo falou, se lançando para a direção do carro, que começava a se mover. – Tu vai ter que me ajudar a recuperar uma coisa muito importante que tá nas mãos da Ângela.
Que se foda. Isso não é problema meu - rebati.
Qual é Gaspar, a Ângela ficou caidinha por ti. Se tu pedisse, aposto como ela não iria te negar. Tudo o que a gente precisa fazer é entrar lá e pedir.
Então por que tu não pede?
Já tentei, mas ela não me dá ouvidos.
Pode esquecer, não entro lá de novo nem a pau.
Aquela foi uma noite bastante confusa pra todo mundo, mas eu juro que não contei nada pra ninguém, Gaspar. Agora, minha disposição em manter esse segredinho entre nós seria ainda mais estimulada se tu fizesse o que eu tô te pedindo – Murilo ameaçou, passando da rogativa à chantagem.
Então vai ser assim?
Se eu entrar lá sozinho, a Ângela chuta minha bunda pra fora em cinco segundos. Mas contigo o negócio vai ser diferente. Por favor Gaspar, me ajuda. Se o Denis descobre que eu perdi o bagulho dele, tô fodido.
Como é que tu foi deixar isso acontecer?
Não interessa. Por favor Gaspar eu preciso da tua ajuda. Tu não sabe do que o Denis é capaz.
Explica a situação pra ele. O Denis vai te escutar.
Tu não tá entendendo o tamanho da merda, cara. Por favor, tô te pedindo. Eu juro que essa é a última vez que eu te peço alguma coisa na vida. Por favor, por favor...
Não acredito que eu vou arriscar minha bunda por ti.
Não tem com o que se preocupar – Murilo afirmou, quase eufórico - ninguém vai arriscar a bunda aqui.
Descemos do carro e após atravessarmos a rua, enquanto eu aguardava escorado na árvore, Murilo se pôs a bater no frágil portão de ferro com o cadeado que o selava.
Já que ela não quis te devolver na boa, por que tu não pegou à força?
Tô vendo que tu não conhece mesmo a Ângela. Se tentasse algo assim, não saía daqui vivo – Murilo falou, repetindo as batidas, sem sucesso.
Pronto, satisfeito? Não tem ninguém em casa – disse.
Calma aí, apressadinho. A Ângela nunca sai de casa antes das oito, não tem a menor chance.
Como ninguém respondesse, Murilo colocou a sutileza de lado e passou a chamar por Ângela de uma maneira que ele sabia que a deixaria irritada, “Ângela, Ângela, Ângela”. Mal terminou de pronunciar seu nome pela última vez, do interior da casa, ouvimos uma voz grossa e abafada, “Já vai, merda”. Pouco depois, Ângela apareceu com uma tolha amarrada na cabeça e o corpo ainda molhado. “Pra que tanta pressa, meninos? Vocês me arrancaram do banho, sabia?”, disse, abrindo o portão para que entrássemos. “Então Murilo, tu trouxe aquele teu amiguinho... Como é teu nome mesmo, querido?”, Ângela quis saber, me olhando de cima a baixo, para verificar se a realidade fazia jus à sua lembrança.
O que eu posso fazer por vocês? – indagou, tomando lugar numa cadeira perdida no meio da sala.
Na verdade, a gente veio te pedir um favor...
Isso é sobre aquilo que tu esqueceu aqui, né? Não tem conversa, bicha. Ele agora vai ficar comigo – bateu o pé.
Mas isso não é justo, Ângela. O pacote o nem meu é, é do Denis. Por favor, eu preciso dele.
Quem mandou tu deixar aqui? Tá vendo? – Ângela perguntou, fazendo com o dedo um circulo no ar. – Debaixo desse teto tudo me pertence.
Isso não é justo, não é justo – Murilo choramingava, como uma criança da qual acabassem de tomar um brinquedo.
Quem decide o que é justo ou não é justo sou eu. Tu ainda não entendeu isso?
E se eu disser que meu amigo se dispõe a pagar por ele? – Murilo lançou de pronto, me pegando desprevenido.
Aí é diferente, né meu bem? - Ângela falou, passando a mão no queixo para conferir os pelos que começavam a despontar.
Pois diz um preço – Murilo pediu.
Trezentos.
Tá louca, Ângela?
É pegar ou largar.
Não tem como baixar isso não?
Depende do seu amiguinho – Ângela disparou, olhando para mim. - Se ele for gentil comigo como da outra vez, faço pela metade.
Gaspar, e então? – Murilo teve a audácia de perguntar, no auge de seu desespero.
Vá pro inferno - respondi.
Então se é assim, o preço é esse aí mesmo – Ângela disse, ofendida. - É pegar ou largar.
E agora, que é que eu faço? Onde é que eu vou arrumar essa grana? – Murilo falava com voz a embargada. – Ai meu deus... Gaspar, faz alguma coisa...
Não tô com essa bala toda, cara. Sinto muito.
O que eu vou fazer agora?
Vamo logo vocês dois que eu preciso terminar meu banho. Não posso mais ficar aqui perdendo tempo. Vocês vão dar o aqué ou não?
Escuta Ângela, a gente pode negociar – intercedi. - Murilo, quanto é que tu tem aí contigo?
Tô liso, Gaspar.
Como é que tu... Tudo bem. Eu tenho oitenta. A gente pode usar isso como um adiantamento. Até o final da semana, o Murilo passa aqui pra te pagar o resto.
Bicha, tu pensa que eu nasci ontem? – impassível, Ângela mantinha as pernas cruzadas.
E se a gente te desse uma garantia? – eu propus.
Que garantia?
Deixa eu ver... Murilo, mostra o telefone pra ela.
É, me mostra o telefone – Ângela afirmou, de olho no volume que se destacava do bolso de Murilo.
Porra, Ângela, o telefone não...
Então vão os dois pra fora daqui, que eu preciso terminar de me aprontar.
Mas, Ângela, eu juro por tudo o que é mais sagrado, essa semana eu apareço aqui com o dinheiro. Eu juro. Confia em mim – Murilo repetia.
Eu aceito o aqué e o telefone ou então nada feito. Quando tu vier pagar o resto, tu pega ele de volta.
Mas Ângela... – Murilo suplicava.
Dá logo a porra do telefone pra ela – ordenei, encerrando a discussão.
Tá, tá bom... Mas pra gente não sair na pior, bem que tu podia descolar um padê, hein Ângela? Tipo um brinde, sacou?
Bicha, aqui não tem esse negócio de brinde não, tá louca? Pra levar o padê, só pagando.
Ao receber o dinheiro e o telefone, Ângela abriu um sorriso largo, de orelha a orelha, e foi buscar o pacote de Murilo. Me puxando para um canto, ele quis saber se meu dinheiro tinha mesmo acabado ou se eu estava apenas blefando. Quando já íamos bem adiantados pela rua, um grito estrondoso preencheu a noite. No carro, colocando um dos braços para fora, Murilo sorria desanuviado, “Tá sabendo alguma coisa sobre o show do Zé Mário?”.
cinco
Deitado à toa na grama, ele se mexia de vez em quando, devido aos sonhos felinos que o punham correndo atrás de ratos, escalando muros e farejando o perfume inconfundível de uma fêmea no cio. Em algum momento de sua vida – quem saberia dizer se antes ou depois daquele dia - quando ainda era pequeno e frágil, a tranquilidade confiante com que agora descansava lhe parecera impossível. Como não temer aquelas criaturas ameaçadoras, gigantes que se moviam em duas pernas, capazes de com um sopro aniquilar o fogo sagrado que queimava em seu peito? Procurava abrigo sempre que se aproximavam demais e lá permanecia encolhido e assustado, esperando que a noite baixasse e as levasse embora. Foi assim por um longo tempo, o suficiente para que conhecesse os ventos de setembro e as chuvas de fevereiro e março, até que certas coisas foram ficando mais fáceis, à medida que sua força crescia e também a habilidade de se virar sozinho, sem a ajuda de ninguém. Logo, se deu conta de que já não era menor do que os outros gatos e de que saltar havia se tornado tão fácil e natural quanto andar e de que os obstáculos que antes o impediam de ir mais longe, de subir mais alto, iam se parecendo mais e mais consigo, como se não passassem de uma extensão de seu ser. As máquinas que faziam tremer o chão com sua pesada congruência de engrenagens também não o demoviam mais de sua languidez sadia. Uma coisa, no entanto, permanecia um mistério. Não entendia por que as criaturas cruzavam seu caminho sempre tão apressadas. Talvez elas tentassem desesperadamente encontrar o lugar a que pertenciam, onde não faltava água nem comida e onde podiam caçar o dia inteiro e descansar em paz. Se não fosse isso, o que as impedia de imitá-lo e virem se deitar junto a ele, debaixo de uma árvore amortecendo o sol do começo da tarde? Impossível compreender.
Mosquitos tão pequenos quanto grãos de areia sobrevoavam-lhe a cabeça, passando de uma orelha a outra e pousando nos bigodes, que se moviam em breves espasmos. Aborrecido, ele abriu os olhos, levantou a cabeça e, ainda deitado, começou a se lamber, como um bom gato que era. A língua macia e pequena percorria o corpo inteiro, demorando-se no peito. Ao terminar, ficou de pé e, com uma expressão triste, levantou o rabo e se espremeu todo. Depois de enterrar suas vergonhas com uma diligência enternecedora, desapareceu por entre os carros estacionados.
Era por volta das três horas, quando o gato desistiu de seu repouso e nos deixou, a mim e a Alice, descansando o almoço. A circulação de pessoas era pequena onde estávamos e encontrando um lugar para encostar os ossos, era possível até tirar um cochilo sem ser incomodado. Alice cantarolava baixinho, apoiando a cabeça em meu colo, quase pegando no sono. Ela havia passado o sábado inteiro na loja para cobrir umas das vendedoras que precisou ficar em casa cuidando do filho, e com isso conquistara uma folga bem no meio da semana. Oportunidades como aquela eram raras e quando surgiam Alice fazia o máximo para aproveitá-las, de preferência longe de casa e da mãe. O único inconveniente era encontrar companhia. Todos estavam ocupados demais com a própria vida para abandonar tudo ao primeiro chamado. Ela então considerava, repassando a infindável lista de nomes na agenda, buscando um meio de se livrar da rotina, alguém que não tivesse a coragem de lhe arremessar um “não” gordo e sem culpa na cara. Contudo, suas expectativas nunca se concretizavam e ela discava os mesmos números tão conhecidos e eu largava as obrigações para encontrá-la.
Estrategicamente sentada perto do ventilador, Alice olhava o cardápio. Panos coloridos, tapetes de deuses hindus e quadros com temáticas cósmico-planetárias enfeitavam as paredes a sua volta. Adiante, num cômodo lateral, pessoas comiam no chão, e, ao fundo, um de jardim de inverno guardava mais algumas mesas debaixo de suas telhas escuras. Dos caibros, suspensas por fios de náilon, bolinhas de isopor de todas as cores imitavam planetas. Na mesa ao lado, um casal fazia planos juntos, como se o futuro fosse mais do que apenas uma possibilidade, por demais translúcida. Sem muito interesse, Alice perguntou como eu estava, erguendo a mão para fazer seu pedido. Depois que o garçom, um rapazinho magro e descalço, nos atendeu, ela sacou um livro da bolsa e, fingindo distração, colocou-o em cima da mesa. Na capa, um bhikhu enrolado em um manto açafrão meditava tranquilamente de olhos fechados. Porém, como não eu tivesse demonstrado curiosidade alguma, Alice foi obrigada a ser um pouco mais incisiva. Segurando o livro entre as mãos, abriu-o mais ou menos na metade e pediu que eu ouvisse bem, “‘Podemos levar a vida como um barco desgovernado, mas isso é perigoso. Mais cedo ou mais tarde, quando menos esperamos, a travessia é interrompida pelas pedras que surgem no caminho...’. Que foi? Tá rindo de mim, seu debochado?”. Colocando o livro de volta na mesa, Alice empurrou-o em minha direção e disse, “Pode rir, sabichão, mas vai por mim... todo mundo precisa de um rumo na vida”.
Mesmo tendo as palavras de Alice sido dirigidas a mim em tom de ameaça, não pude deixar de ficar enredado pela imagem daquele barco hipotético, navegando sem direção, prestes a ser engolido. Sem alarde nem perguntas do tipo “Por que tá tão calado?” ou “O que te faz pensar que a necessidade de comunicação é inútil?”, mas com um simples toque, Alice incutiu em mim a consciência do silêncio e me trouxe de volta. Depois de comer, fiquei brincando com um pedaço de rapadura, enquanto ela devorava um doce de maracujá. Dali, o próximo passo era encostar nos hippies sentados no chão, jogar um pouco de conversa fora e ver se nos deixavam fumar com eles. Com o charme de Alice, não foi difícil nos infiltrarmos na roda. Sorvendo a fumaça concentrada e enjoativa com dedicação, o primeiro cigarro nos deixou leves, o segundo tirou o cinza dos olhos e o terceiro teria feito descer o paraíso, se Alice não houvesse insistido para que fôssemos embora.
Perto de onde o gato havia se deitado, uma multidão de pombos voava desordenadamente. Alguns fugiam espantados com as pessoas que passavam, ao passo que outros bicavam o chão à procura de comida. Mas havia um deles que não fazia nenhuma das duas coisas. Aproveitando a distração coletiva, cortejava uma fêmea sem se importar com os perigos reais ou imaginários que tiravam o sossego dos demais. Dançava em volta de sua dama com as penas do pescoço eriçadas, querendo parecer maior e mais forte do que era. Inspirado por aquele exemplo da natureza, estufei o peito, limpei a garganta e arrisquei, “A gente devia ir pro meu apartamento”. Alice riu, segurando a barriga com os braços, como se aquele fosse o convite mais inusitado que recebera na vida.
E o que é que a gente vai fazer lá?
Isso depende mais de mim do que de você... quer dizer, depende mais de você do que de mim.
Aos poucos ela foi percebendo a seriedade da proposta e mudou de assunto. Enquanto isso, a tarde se apagava, consumida em seu próprio fogo.
Gaspar, ainda não contei pra ninguém, mas eu conheci um cara, o Bira. Ele é totalmente diferente dos babacas que aparecem na minha vida. O Bira é realmente uma coisa. Só mesmo conhecendo pra ver. Ele faz de tudo, Gaspar, de tudo mesmo. Ele é publicitário, mas agora mesmo ele e os amigos tão rodando um filme. Não, e tem mais. Advinha quem ele chamou pra dar uma mão com o figurino, advinha. Porra, isso não é maravilhoso? – Alice exultava. - A gente vai se encontrar no Januário hoje pra discutir melhor os detalhes. Aí, eu aproveito e mostro o lugar pra ele.
Aposto como esse cara nem sabe chegar no Montese.
Deixa de ser ranzinza, Gaspar. Só porque o cara tem grana não quer dizer que ele seja um mané. Por falar nisso, tu não gostaria de encontrar a gente lá mais tarde?
Não vai ser meio esquisito, quer dizer, já que eu nem o conheço? – indaguei, sem entender por que Alice me queria entre eles.
Claro que não – ela garantiu, tomando cuidado para não parecer afetada.
Bom, então... Tá, por mim pode ser – afirmei, com um gosto amargo na boca.
Aproveita e chama teu irmão, Gaspar. Ele não tá morando lá perto?
É, ouvi dizer que ele passando uns tempos no Franzé – respondi, cada vez mais intrigado com a atitude de Alice.
Pois então, convida ele. Assim pelo menos vocês podiam se ver. Não te passou pela cabeça que o Eduardo pode tá precisando de ajuda?
Por que esse interesse todo no Eduardo? – perguntei afinal.
Ah, por nada – Alice falou aturdida - é só que... no filme tem esse personagem que é a cara dele, sabe? Parece que o Bira escreveu pensando no Eduardo. Aí eu achei que a gente podia usá-lo. É coisa simples, mas se ele topar, vai ganhar cachê e tudo. Não é muito, mas dá pra fazer um estraguinho bom.
Tu sabe que com o Eduardo por perto as coisas podem facilmente sair de controle, não sabe? Então vou logo dizendo que eu não me responsabilizo por nada. Vai ser tudo por sua conta e risco.
Tá, eu entendi. Mas fica tranquilo. Vai dar tudo certo. Só me promete que vai tentar falar com ele.
Vou ver o que eu posso fazer – prometi, considerando que talvez não fosse mesmo uma má ideia aproveitar a deixa de Alice e conseguir com que Eduardo arruinasse as filmagens em meu lugar.
Ai que ótimo. Jura mesmo? Tu nem imagina o quanto isso é importante pra mim, Gaspar.
Chegando em casa, tratei de ligar para Eduardo, mas, perdido em seus delírios dissonantes, Franzé foi quem atendeu o telefone. Embora não entendesse direito o que ele falava, lá pelas tantas consegui arrancar a informação de que Eduardo estava sumido há três dias. Mesmo sabendo que deixar recado com Franzé era quase tão inútil quanto rogar a deus por algum favor, mandei-lhe que avisasse a Eduardo do encontro, e na hora e no lugar marcados fui esperar Alice.
Quando Januário voltou com a garrafa, disse a ele que não se preocupasse comigo, pois a noite prometia ser tranquila. Afirmei também que receberia convidados e que ele fizesse o favor de não me encher o saco. Para me desvencilhar dos olhares sequiosos das pessoas que aguardavam em pé e aguentar as investidas de Januário - ignorando minha recomendação, ele vinha ter comigo a todo instante, a fim de me convencer de que eu não precisava de tantas cadeiras ao redor da mesa - bebia cada vez mais rápido. Balançando a perna neuroticamente, para que a terra ressoasse aquela espera angustiosa, levantei o dedo e gritei por algo mais forte. Arrisquei também alguns pedidos para o cantor, que, àquela altura, apesar de ainda arranhar o violão com destreza, mal conseguia se manter sentado. E quando eu mesmo já me aproximava perigosamente de perder os limites, a voz de Alice lambuzou meu ouvido, como num sonho. Ela dizia sentir muito por me haver feito esperar tanto, mas é que, devido a um imprevisto, Bira fora obrigado a cancelar o encontro e, sem ele, nada fazia sentido. Depois disso, o certo a fazer era guardar a noite no bolso, antes que fosse tarde demais. Mas então, tendo pago a conta e preparado os trinta passos necessários para me ver fora dali, feliz de ter tomado a decisão correta, Eduardo apareceu, repentino e silencioso como uma assombração.
O que tu veio fazer aqui uma hora dessas? O pessoal já foi embora faz tempo.
Gaspar, eu tenho que te contar esse sonho – o rosto emaciado e os olhos fundos denunciavam sua magreza excessiva, e com medo de que mais alguém pudesse ouví-lo, Eduardo me puxou de volta para dentro. - Eu chegava no teu apartamento e encontrava uma mulher que eu nunca tinha visto parada na porta. Os peitos dela eram enormes, tão grandes que ficavam pulando pra fora do vestido o tempo todo. E quando eu quis te chamar ela me impediu. Eu mandava ela sair do meio, mas ela gritava, fazia o maior escândalo, falando que ainda não tinha chegado a minha vez. Aí eu me concentrava e contraía todos os músculos, até os que eu nem sabia que tinha. Depois de uma eternidade, ela finalmente me deixou entrar. Na sala havia uma luz muito forte, mas os outros cômodos continuavam escuros. Tinha a impressão de ver tudo borrado e comecei a achar que ao cair naquele sonho meus óculos haviam ficado pelo caminho. Mas aí levei as mãos ao rosto e vi que eles continuavam no lugar. Me sentia tão cansado que precisei encostar num canto pra recuperar o fôlego. Tu e o Lucas tavam conversando. Uma hora, a peituda apareceu lá dentro e serviu pra gente uma bebida estranha. Pela cor, pensei que fosse vinho, mas o cheiro e o gosto eram completamente diferentes. Bastava um gole e a pessoa ficava completamente louca. No som tava tocando Nelson Gonçalves. Aquela mesma música que o pai sempre ouvia...
Dá um tempo, Eduardo – interrompi-o. – Tá tarde, eu tô cansado e, além do mais, se tem uma coisa que me tira do sério é quando alguém vem querer me contar a porra de um sonho. Eu sempre pulo essa parte nas histórias. Deixa de frescura e me diz onde é que tu tava. O Franzé falou que tu tinha sumido.
Aquele filho da puta deu pra ficar me dedurando agora? Essa é boa. Eu tava por aí. Que diferença faz? E por que é que tu se importa mesmo? Não foi tu quem me chutou da tua casa? Então, do que é que tá reclamando? – Eduardo arregalou os olhos, embora se mantivesse frio ao falar.
Eu suportei todas as tuas escrotices, Eduardo, até as piores, como deixar o computador todo sujo de porra, porque tu não consegue bater punheta como uma pessoa normal. Nem quando tu começou a sumir com as minhas roupas eu reclamei. Agora, tu esperava mesmo que eu aguentasse teus amigos viciados acabando com a minha comida?
Isso só aconteceu uma vez.
Uma vez o caralho.
Não preciso mais ficar me explicando pra ti – Eduardo rebateu, estranhamente calmo.
Você é quem sabe o que tá fazendo da tua vida.
Tu fica aí falando como fosse melhor do que eu, me dando conselho como se fosse melhor do que eu, mas eu sei que isso não é verdade.
Então tá. Lavo minhas mãos.
Tanto faz. Cadê todo mundo, pra onde é que eles foram? O Franzé disse que tu queria me apresentar a um pessoal.
É, mas tu demorou demais e eles foram embora. Todos eles. Em-bo-ra.
E o que eles queriam comigo?
Esquece. Tu não ia querer saber mesmo. Eram só uns otários amigos da Alice. Tu não perdeu nada.
Eu sabia que sabia que a Alice tinha alguma coisa a ver com isso. Por isso é que tu tá assim, de ovo virado. Foi a Alice, não foi? Ela disse que ia vir e não veio. Agora eu tô entendendo. Tu ficou puto com ela e tá querendo descontar em mim. Quem é mesmo o fodido da história, hein? – Eduardo lançou a pergunta, contraindo o rosto no que parecia ser um sorriso.
Não tô puto com ninguém, Eduardo. Só tô cansado. Só isso.
Pois tu devia ficar puto sim. Aquele vadia não te respeita e tu é um idiota. Tu devia fazer que nem eu quando fico com raiva.
Saindo quebrando tudo por aí? Tu quer que eu seja preso? Se isso acontecer, quem é que vai consertar tuas cagadas?
Só falo por falar, mas tu é quem sabe. Tá a fim?
O que é isso?
É um beck, porra, nunca viu?
Guarda isso, seu idiota. Se o Januário vir isso aí, é capaz de ele chamar a polícia.
Então o que é que tu tá fazendo num lugar como esse?
Tu faz perguntas demais, não acha não?
Lembra da vez que eu arrebentei o retrovisor daquele cara que te deu uma fechada?
Claro que eu lembro. Fui eu que tive que pagar tudo.
Isso é só um detalhe... Gaspar, tu não muda mesmo. Só consegue ver o lado ruim das coisas. Por que tu é tão cuzão?
Não tem absolutamente nada de errado comigo.
Nem comigo.
Faz quantos dias que tu não toma banho?
Tá dando pra notar, é? Essas roupas tão limpas, peguei elas emprestadas hoje.
Mesmo assim, cara. Tu tá fedendo pra caralho.
Besteira. Agora, pára de enrolar e diz o que foi que tu achou do meu sonho.
Sonhos não querem dizer absolutamente nada. Noite passada, por exemplo, eu sonhei com uma professora da época do Dom Bosco, a Marta. Tu não deve lembrar dela. A Marta era uma daquelas jovens esposas cheias de escrúpulos, mas que na verdade são doidas pra encontrar alguém que as pegue de jeito. No sonho a gente tava sozinho na sala de aula e eu não conseguia parar de olhá-la, paralisado de desejo. De repente, ela tira a blusa e me chamando de filhinho começa a esfregar os peitos na minha cara, assim ó - para ilustrar melhor, me pus de pé e representei aquele pequeno ato, exagerando a expressão e os gestos, como um mau autor.
Outro sonho com peitos? Deve ser coisa de família. Nesse sonho, tu era criança ou adulto?
Qual é a diferença?
Não sei, mas é melhor ter certeza.
Acho que eu era... adulto. Não, criança.
Eu sempre soube, Gaspar. Conheço o teu tipo. Tu gosta mesmo é de ser subjugado, por isso é que vive atrás dessas mulheres que te botam no chinelo. Elas te deixam maluco, cara. Vai por mim, guardar esse tipo de coisa pode fazer muito mal. Se tu tiver interessado, conheço uma dominatrix malvadinha que atende em casa. Acho que ela deva ser uma das únicas que fazem esse tipo de serviço na cidade. Ela cobra caro, mas ouvi dizer que o prazer é garantido.
Tu tá é delirando, Eduardo. Que foi que tu usou hoje?
Porra nenhuma. Num já disse que eu tô limpo? Agora eu sou outra pessoa.
E se eu te disser que eu inventei essa história toda?
Não importa, seu idiota. Tudo isso já tava dentro de ti, só esperando pra sair, fosse num sonho ou numa história inventada. No final das contas, o que eu disse continua valendo do mesmo jeito. O que uma pessoa precisa fazer pra ser atendida aqui? – Eduardo esperneou, batendo na mesa com um copo.
Se quiser, pode beber o resto. Acho que eu vou pra casa. Não aguento mais ficar nesse lugar.
Peraí, não vai agora não. Acabei de chegar. Por que é que a gente não chama o Lucas? Aí a gente conversa, se diverte, bebe mais um pouco e depois tu volta pra tua casa. Ainda tá cedo. Que horas são? Onze? Ainda tá cedo. Vai, liga pra ele.
Não vou chamar o Lucas. Se quiser chame você, porque eu vou embora. Amanhã tenho que acordar cedo. Se continuar chegando atrasado, vou ser demitido.
Então vai, pode ir, continua vivendo essa tua vidinha de merda que tu vai ser muito feliz... Gaspar, Gaspar, espera... já que não tem jeito de tu ficar, pelo menos me arruma uma grana.
Com a cabeça pesada, passei direto para o quarto, me desfazendo das roupas. Na cama, fiquei um bom tempo apenas controlando a respiração, rolando de um lado para o outro, antes de sacar as meias. Ainda sem querer me dar por vencido, deitei de barriga para baixo, enterrando a cara no travesseiro. Apesar de ser uma das melhores posições para se conciliar o sono, ela me deixava com uma dor nas costas terrível e por isso eu a evitava a todo custo. Porém, dadas as circunstâncias, era um risco que precisava tomar. Resignado e esperando pelo pior, me preparei para o sacrifício, mas bastaram alguns minutos para perceber que aquilo tampouco iria funcionar. Um caso tão sério como o meu não poderia ser resolvido com truques baratos. Mirando fixamente o teto, eu procurava me convencer de que havia coisas muito piores do que ser obrigado a ver o dia nascendo outra vez. Num último sopro de esperança, arremessei a cueca para longe, me esparramando nu em cima dos lençóis encardidos e úmidos, com os quatro membros esticados como se estivesse boiando. Também não adiantou. No estado em que estava, recorrer aos remédios seria arriscado. Misturados à bebida, seus efeitos se tornavam imprevisíveis. Certa vez, depois de ter tomado algumas cervejas em casa, engoli a dose de sempre, a mesma que costumava ser inócua, e apaguei por quase onze horas. Foi uma descoberta e tanto, embora, por motivos óbvios, só a pudesse utilizar nos fins de semana.
Com uma raiva contida, caminhei até a sala rosnando os palavrões mais sujos que me vinham à cabeça, sem conseguir definir algo ou alguém que os merecesse em especial, o que terminava por anular seu efeito confortador, e ao alcançar o sofá tomei as duas almofadas que lhe serviam de enfeite e as arremessei no chão. Elas haviam sido presente de Alice, que as comprara com a promessa de trazerem um pouco mais de alegria para o apartamento. Suas cores vivas, no entanto, não duraram muito tempo, vítimas do suor ácido de Eduardo, que tinha a mania de assistir TV com uma almofada encaixada em cada sovaco. Inadvertidamente, ele terminou me fazendo um grande favor, pois assim elas nunca mais me fizeram lembrar de Alice. Cruzando as pernas, enterrei a bunda na espuma gasta e senti a dureza do chão pressionando minhas carnes contra os ossos pontudos. Reticente, cerrei as pálpebras, mas foi o bastante para que a tontura retornasse e, a todo momento, eu ameaçava tombar para frente. A azia subia pela garganta. Os pensamentos corriam sem direção, como galinhas assustadas. Ao redor, muriçocas gordas de sangue voavam inebriadas, mas ainda ágeis demais para mim.
O silêncio que até então se tinha feito absoluto, mais sólido do que a própria realidade, foi quebrado por uma gargalhada indecorosa. Embora fosse necessário um olhar até certo ponto desinteressado para percebê-lo, como o da escritora que, depois de muitos anos sem se deparar com um homem nu, não conseguiu parar de rir diante do pênis flácido do amigo, que viu por acidente ao entrar no banheiro onde ele se lavava, por um desses descuidos que interrompem, ainda que brevemente, a toada monótona da causalidade, me dei conta do quão ridiculamente engraçada era a nudez masculina.
Sem saber se sentia fome ou não, fui à cozinha preparar um lanche. Por medo de vomitar, não me atrevi a comer tudo. Encostado no parapeito, olhava a lua cheia e os vagabundos que costumavam passar a madrugada zanzando pela rua. A angústia e a impaciência conviviam em meu peito junto com o que quer que estivesse provocando aquela ereção imprevista, mais intensa à medida que era resistida pela dureza gélida da parede. Voltei ao quarto ofegante e um tanto vermelho, esfregando as mãos úmidas na barriga. Deitado, liguei a luminária em cima de um banquinho improvisado, enfiando a mão debaixo da cama para puxar um livro. Enquanto ia passando as folhas anarquicamente, eu inventava possíveis recomeços, quem sabe uma fuga para um lugar distante, alguma praia de águas verdes e dunas brancas, onde, queimado de sol, eu me sentisse apaziguado.
seis
Em casa, curtia um momento a sós na frente do computador quando o telefone tocou. Só por medo, atendi. A vida podia ser bem miserável às vezes.
Tô atrapalhando?
Não, não.
Queria falar contigo. Sobre o que aconteceu no aniversário do Lucas...
Esquece isso. Todo mundo acabou falando um monte de merda um pro outro. É sempre assim quando a gente se encontra.
Perdi o controle.
Não foi nada. O Murilo teve um corte na testa, mas nem precisou levar pontos.
Com esse aí não tô nem um pouco preocupado. Por mim, ele pode é morrer que eu não ligo. Além do mais, ele mereceu. Imagina, inventar aquela história de eu implicar com as mulheres... Que absurdo.
Ele só falou aquilo pra te deixar irritado, João. Todo mundo sabe que isso não é verdade.
Eu nunca mais quero ver nenhum daqueles filhos da puta na minha frente.
Tudo bem, acho que eles não vão se importar com isso. E se você quer saber... Menino, nem te conto, acabei de lembrar.
Do quê?
É uma fofoca lá da redação. Promete que não vai sair espalhando por aí?
Pode confiar.
Sabe o Macedo, o meu editor? A gente até foi pro lançamento de um livro dele, Gaspar. Um baixinho, de óculos...
Sei, sei.
E lembra da mulher que tava com ele?
Não era uma com o vestido todo amassado e que parecia ter exagerado no Rivotril?
Exatamente. Pois semana passada, ela entrou na redação completamente transtornada. O pessoal ainda tentou acalmá-la, mas ela não deixava que ninguém chegasse nem perto. Ela gritava, “Eu quero falar com o meu marido. Macedo. Macedo. Tu me traiu. Traiu”. E era tão alto que o jornal inteiro parou pra ver o que tava acontecendo.Todo mundo na redação sabia que o Macedo tava comendo uma das estagiárias do caderno de cultura. Agora, como isso chegou aos ouvidos da mulher dele é que é o mistério. De qualquer forma, quando ela descobriu, foi até lá tirar a história a limpo. Tu tinha que ver o Macedo quando ele saiu da sala. Ficou branco, sem nenhuma gota de sangue, ao dar de cara com a mulher gritando descontrolada, na frente de todo mundo, “Corno, brocha. Tu vai pagar por isso”. E a melhor parte vem agora. Ela disse que não saía de lá, enquanto ele não pedisse desculpas de joelhos.
De joelhos?
De joelhos. E o bom é que no dia anterior eu tinha levado uma rolada do Macedo por conta de uma besteira. Ah, quem dera a vida fosse sempre justa assim.
Tu tá ligando de casa ou do jornal?
De casa. Tava fazendo o prefácio de um livro, mas aí fiquei sem ideia e resolvi conversar com alguém.
Sobre o que é o livro?
Boa pergunta.
Depois que aquele cara saiu dizendo que tu queria aparecer às custas dele, pensei que tivesse desistido de fazer esse tipo de trabalho.
Sabia que depois ele veio me pedir desculpas? Tive vontade de mandar ele se foder, mas fiquei na minha. Aceitei... Que barulho é esse?
Barulho? Ah, é só a TV.
Tu não consegue fazer nada sem essa maldita televisão ligada?
É mal de quem passa muito tempo sozinho. Nem assisto mesmo.
Por falar em passar muito tempo sozinho. Tu já fez aquele teste que eu te mandei?
Que teste?
Aquele das personalidades.
Fiz sim.
E aí?
Não gostei.
Tá, mas qual foi o resultado?
“Tendência pra doenças nervosas”. Acho que prefiro o horóscopo.
Então... tô pensando em relançar meu livro.
Pelo menos dessa vez eu vou poder ir.
É verdade, tu não apareceu no primeiro lançamento. Por que foi mesmo?
Eu tava ardendo em febre. Dengue ou algo assim.
Eu já te contei sobre aquela noite?
Não lembro. O que foi que aconteceu?
Eu tava comemorando no Gato Preto, quando reparei num cara que parecia só e deslocado. Ele não era de se jogar fora e tava todo arrumadinho. Me deu uma pena dele. Tive que chamá-lo pra ficar com a gente. Ele disse que tinha chegado na cidade há pouco tempo e que ainda não sabia onde ficava nada. Só tinha certeza de que tava hospedado numa rua de calçamento, perto da praia, mas nem o nome se lembrava direito. Eu não sabia se ele tava se fazendo de idiota ou me dando mole, mas como eu já tinha bebido horrores, me joguei em cima dele, pra ver se ele se assustava e ia embora, ou então se a gente encerrava aquela conversa e ia pra outro lugar. Enfim, o fato é que a gente acabou indo pro meu apartamento. Quando terminou tudo, ele pediu que eu chamasse um táxi e perguntou se o Campus do Benfica ficava perto ou longe dali. Aí eu fiquei curioso, né? Quis saber o que ele iria fazer lá. Sabe o que ele respondeu?
O quê?
Que ia começar a dar aula na segunda.
Tu comeu um professor?
Na verdade, foi ele quem me comeu.
E vocês continuaram se vendo?
A gente ainda se encontrou algumas vezes, mas não rolou. Talvez seja mal de acadêmico, mas ele era, sei lá, meio chocho.
Tu viu uma matéria que saiu ontem sobre uma tal de Marília Mendes? Quem é ela?
A Marília é uma das queridinhas, uma das eleitas. Se ela quiser escrever frases de autoajuda num rolo de papel higiênico, ainda assim vai ter um monte de idiota querendo comprar. Mas por que é que tu tá falando nisso?
Por que a coisa toda era muito engraçada. A matéria dizia mais ou menos assim: “A escritora Marília Mendes está passando uma temporada em Buenos Aires, num luxuoso hotel na região portuária. Da varanda de seu quarto, enquanto segura em uma das mãos uma taça de vinho e na outra um cigarro, Marília assiste ao melancólico pôr-do-sol, antes de ganhar a rua e aproveitar a agradável noite portenha na companhia dos amigos. De manhã, ela medita, tendo recentemente se iniciado no budismo por influência do namorado, o também escritor e publicitário Tadeu Nogueira, o que segundo ela vem lhe trazendo muita paz de espírito. Mas nem quando está de férias a escritora deixa de lado o que mais gosta de fazer. Marília está dando os últimos retoques para o lançamento de seu mais novo livro de poesias, cujo título provisório é Oceanos. Mais nova revelação da poesia cearense...”.
Aff, se tu continuar sou capaz de estourar os miolos. Vem cá, tu vai fazer alguma coisa amanhã à noite? Por que tu não vem aqui? Tem até vinho na geladeira.
Não sei, é melhor deixar pra outro dia. Ei João, tu ouviu algum boato sobre a Cecília? Me disseram que dessa vez ela voltou pra ficar.
Foi, ouvi dizer. Olha, eu sei que não é da minha conta, mas se fosse você ficava longe dela. Não adianta querer remendar o passado, Gaspar. Isso é burrice.
Calma. Só perguntei por perguntar. Eu não vou atrás da Cecília. Tá louco?
Que horas são?
Deixa eu ver...
Putz, tenho que ir. Preciso terminar de escrever essa merda hoje.
Depois de desligar, voltei ao computador. Logo em seguida, o telefone começou a tocar novamente, mas dessa vez era engano, “Alô? Aí é do Supreme Motel?”. A vida podia mesmo ser bem miserável às vezes.
sete
As luzes apagadas e a ausência de ruídos indicavam não haver ninguém ali dentro. “Parece que todos os cabeleireiros resolveram não trabalhar hoje”, pensei. Apenas por excesso de cuidado, agarrei o trinco da porta, que gemeu ao se abrir. Surpreso, não tive ânimo de entrar. Provavelmente, haviam esquecido de passar a chave. Quando me preparava para dar meia volta, tive a impressão de ouvir o barulho de uma descarga. Surgindo de dentro do banheiro e ganhando forma à medida que se aproximava, um anjo descabelado veio andando até mim e disse, “Achei que não fosse mais aparecer ninguém”. Acendendo as luzes e indicando a cadeira, pediu que eu sentasse.
Tu me lembra alguém. Acho que é por causa do nariz. É a primeira vez que tu vem aqui?
É – respondi, lacônico.
Então pode ficar tranquilo. Tu não vai se arrepender – ela passava as mãos nos meus cabelos nervosamente, pronta para começar.
Espera, mas eu nem disse como queria o corte.
E como é que vai ser?
Eu quero diminuir o volume e deixar meio bagunçado aqui na frente. Mas cuidado pra não tirar muito.
Por causa das orelhas? – perguntou, num falsete.
Por causa das orelhas.
Tá entregue.
Tem outra coisa. Eu preferia que tu usasse a navalha ao invés da tesoura.
Navalha é coisa de barbeiro. Só corto com tesoura. Mas tu nem vai notar a diferença... Como é teu nome?
Gaspar.
“Gasparzinho, o fantasminha camarada”. Puxa, eu adorava aquele desenho. Nunca conheci ninguém com esse nome antes. Se importa se eu te chamar de Gasparzinho?
Prefiro Gaspar.
Aposto como tu deve ter achado estranho encontrar as luzes apagadas, mas é que eu precisava fazer xixi e resolvi economizar um pouco. Então, Gasparzinho...
Gaspar, se não se importa.
Que é que tu faz da vida? Deixa eu ver... Posso apostar que tu é psicólogo, acertei?
Não, eu não sou psicólogo. Deus me livre. Não é melhor começar a cortar do outro lado?
Pronto, descobri com quem tu se parece. Como é que eu não percebi isso antes? Tu é a cara do meu terapeuta. Tem até os mesmo olhos de fome. Tu já parou pra pensar que de perto todo mundo é meio doido? Já reparou nisso?
Às vezes não precisa nem chegar tão perto.
Tu é engraçado, Gasparzinho. O Roberto é engraçado também. E muito inteligente. Sabe, ele diz cada coisa que me deixa passada, com a cara no chão. E além de tudo, o homem ainda é charmoso. Às vezes, no meio da terapia, me pego pensando umas besteiras que me deixam até desconcertada. Fico toda vermelha e morro de vergonha. Tu imagina que um dia a gente se encontrou no banco e ele virou o rosto pra não falar comigo? Achei que não tivesse me visto e fui até onde ele tava, mas o Roberto continuou agindo como se nem me conhecesse. O povo na fila deve ter achado que eu era uma maluca. E eu que pensei que a gente era amigo. Aquele babaca. Eu tenho certeza que a mulher dele tem um amante.
É melhor começar a cortar do outro lado – insisti.
Calma, Gasparzinho. Tô te achando muito tenso. Vai encontrar alguém mais tarde? – perguntou, enquanto fingia massagear minhas costas.
Talvez, mas isso não é da sua conta.
Nossa, não tava querendo me meter. Confia em mim. Vou te deixar lindo, relaxa. Sabe, antes de começar a terapia, eu era assim que nem você. Naquela época, eu tava vendo um psiquiatra. Ele dizia que eu era, sabe, esquizofrênica, hipocondríaca, suicida, anoréxica. Um pouco de tudo. Por isso o filho da puta queria me entupir de remédio. Mas aí eu disse, “Olha, eu vou ficar boa e não vou precisar mais tomar essas porcarias, tá me ouvindo?”. Sabe o que foi que ele disse? Que se eu ficasse boa sem os remédios, ele rasgava o diploma na minha frente. Aí eu não fiquei por baixo, “Pois no dia que eu melhorar, volto aqui e esfrego essa porra na tua cara, seu cretino”. Tive que sair de lá arrastada, porque minha vontade era matar aquele... Depois disso eu conheci o Roberto. Sabe o que ele disse pra mim no nosso quinto encontro? “Olha Fátima, você é uma das pacientes mais complicadas que eu já tive”. Foi tão bonito o jeito como ele falou – e, parando para admirar o próprio reflexo no espelho, perguntou – Tu me acha bonita, neném?
O quê?
Não precisa ficar envergonhado. Eu vi jeito como tu olhou pra mim. Pode dizer, tu me acha atraente?
É... sim, sim, acho que sim.
Viu? Eu sabia. Não deixo passar nada, presto atenção em tudo. Me lembro até da cor das meias que o Roberto usou na semana passada. Ele diz que é porque eu sou muito controladora. Não sei. Acho que não é verdade. Sei lá... O Roberto me deixa tão confusa. Se ele tentasse me convencer que eu sou uma geladeira, acho que conseguiria.
Tomando um táxi, pedi que estacionasse numa esquina, subi a rua a pé para não chamar a atenção e cruzei o velho portão de madeira que se abria em duas bandas. Havia pessoas conversando nas calçadas ou encostadas nos carros e nos muros. À esquerda, três mulheres se ignoravam mutuamente na penumbra, dividindo um sofá com os braços rasgados. Seguindo em frente, cheguei a um salão, onde uma radiola arranhava LP’s antigos com os decks abertos como duas bocas famintas, e de lá passei a um corredor estreito que levava a outro cômodo, no qual a cerveja circulava fartamente e as pessoas riam e falavam alto. Para manter as mãos ocupadas, comprei uma garrafa e passei a imitá-las. Uma chuvinha frágil começou a cair do lado de fora, tão fina que mal dava para ver os riscos d’água contra a luz dos postes, e ela logo se foi com a nuvem que a tinha trazido. Livre de perigo, novamente expus minha pele salgada ao relento, de modo a observar os carros que apontavam na esquina. Um deles estacionou ao longo da rua, numa vaga apertada que ninguém ainda havia ousado conquistar. Cuidadosamente desarrumada, Cecília abriu a porta e guardou as chaves na bolsa e sorriu àqueles que a esperavam. O beijo, entretanto, guardou para o homem que a veio buscar e a levou para dentro. Apertando os olhos, chequei as horas e com um gole selei a determinação de ir embora. Enquanto isso, Cris veio abrindo espaço por entre as pessoas que se amontoavam na sala principal.
A Cecília não perde tempo. Ela continua a mesma de sempre, não consegue ficar sozinha. Ela nem ter te reconhecido com esse cabelo, Gaspar. Por que tu não esperou pelo Marcel?
Porque eu tava na pilha de cortar e cortei.
Aquele desgraçado do Lucas não vem mesmo, né?
Desiste Cris. Ele não vai aparecer.
É, eu sei, mas enfim... Quando é que tu pode ir lá no hotel pegar os ingressos?
Segunda tá bom pra ti?
Tá, mas tu tem que aparecer na hora do almoço, senão vai dar merda. Eu não desconfiava que a Alice curtia o Zé Mário. Isso soa tão estranho.
Tu sabe como ela é volúvel. Gosta e desgosta com a mesma facilidade.
Mas então, o carro sai da oficina a tempo do show?
Não sei. É provável que não.
E como é que tu vai fazer?
Até lá dou um jeito. Primeiro eu tenho que ver se a Alice vai aceitar o convite.
Escuta, tô cheia de esperar aquele filho da puta. Tô indo pra casa. Quer uma carona ou vai ficar mais um pouco?
Não, eu vou contigo. Não tem nada pra mim aqui.
Cris pisava fundo o acelerador e o carrinho ia chacoalhando pelas ruas esburacadas a toda velocidade. Ao chegarmos em meu apartamento, ela desligou o motor e com um gemido asseado abriu as pernas para receber minhas mãos frias e pegajosas.
Segunda. Decidi não me precipitar e não passei no hotel como prometido. Era melhor agir com cautela, tirar uns dias e pensar no que fazer. Cris entenderia.
Largando o trabalho antes das cinco fui à Pastelaria da China. O lugar, pequeno e sujo, não era diferente da maioria das lanchonetes do Centro, a não ser talvez pelo fato de os donos serem chineses de verdade. Sentado em uma prateleira, fora do alcançe de mãos intrusas, Buda ostentava o sorriso sardônico de quem alcançou o indizível, e, atrás do balcão, ao lado da máquina de espremer laranja, um dos amarelos, o mais velho deles, recebia o dinheiro no caixa, enquanto os outros se dividiam em funções menos importantes. Das primeiras vezes, tentei puxar conversa com eles, interessado em saber o que os havia trazido para cá, mas a única coisa que faziam era balançar a cabeça e sorrir, mostrando os dentes pequenos e estragados. Em compensação, preparavam um pastel delicioso. Enquanto eu esperava pelo pedido, tentava adivinhar o que os chineses conversavam entre si. Devia ser algo como, “Por que os rolinhos ainda não ficaram prontos?” ou “Quem derramou carne moída no chão?”. Após quinze minutos angustiantes, devorei os pastéis com uma fome incomum.
No caminho de volta, não pude deixar de prestar atenção na mulher-papagaio a meu lado. Ela era miúda e possuía os pezinhos virados para dentro. Os olhos, redondos e vazios. Estava tão concentrado na singularidade de sua figura que tomei um susto quando um velho me cutucou o ombro. Com uma voz fraca e arrastada, ele tirou do bolso um pedaço de papel e perguntou onde ficava o endereço anotado. Suas mãos tremiam. Preferi não correr o risco de passar uma informação errada e dei de ombros. O velho então baixou a cabeça e, como se estivesse profundamente desapontado, se afastou.
Na manhã seguinte acordei atrasado, e o sol já se derramava caudaloso sobre Fortaleza. Minha vontade era caminhar até a repartição, a fim de experimentar umas ideias novas, mas temia que elas derretessem antes mesmo de ganharem forma. Um chapéu teria resolvido meu impasse, mas por haverem sido praticamente abolidos como uma coisa cafona, de gente do interior, era difícil encontrá-los na rua, só mesmo quando Bob passava pelo Disney Lanches, com um resto de cigarro entre os lábios. Jamais soube por que o chamavam de Bob, nem por que um dia decidiu abandonar seu claustro ambulatório para nos pedir um gole de cerveja. Logo ele que nunca parecia ver ninguém. Naquela ocasião, convidei-o a sentar conosco, mesmo sob os protestos de Cláudio, que, fazendo caretas e tapando o nariz, reclamava do mau cheiro. “Um homem não tem mais o direito de matar a sede, caralho?”, bradei em sua defesa e, puxando uma cadeira, pedi outra cerveja.
Bob tinha o olhar duro e cristalino, contrastando com os farrapos e o corpo coberto por uma poeira compacta, terrosa. Era a primeira vez que o via de perto e isso me deixou irritado. Bob era um animal raro. Agia como se entendesse a vida, aceitando com naturalidade o que nela havia de pior. Não tirava os olhos da rua, cruzando as pernas e apoiando um dos braços na mesa. Por temer assustá-lo – era preciso cuidado para não deixar que o brilho da arma afugentasse a presa - não tive coragem de perguntar como havia conseguido as cicatrizes que se estendiam até a altura do ombro; ou qual a primeira coisa que fazia ao acordar; ou, ainda, o que pensava da vida. Magro e fino como uma linha, ele balbuciava palavras inaudíveis, sopradas em seu ouvido por algum anjo torto. Com medo de que sua presença pudesse estimular uma invasão dos indigentes que se acotovelavam nas esquinas, Messias, um velho manco e sebento, veio se arrastando até onde estávamos e perguntou se já não era hora de mandar o mendigo passear. Respondi que não, disposto a lutar por Bob, se fosse preciso. Porém, sob os aplausos dos demais, acabamos enxotados para uma das mesas que ficava na calçada. Não suportando mais esse golpe, Cláudio saiu. Bob permanecia quieto, os olhos eternamente grudados no asfalto, alheio ao que acontecia. De quando em quando levava a cerveja à boca, mas era tudo. Ao terminar, jogou o copo dentro do saco, o saco em cima do ombro e partiu calado como chegou, aproveitando a camuflagem da noite.
Depois de jogar as chaves na cômoda, deitei no sofá e adormeci por duas horas. Levantei com uma dor desgraçada no pescoço. Para curar a tontura, preparei um pouco de café e me meti debaixo do chuveiro. Como não havia roupas limpas, coloquei de volta as que me haviam acompanhado desde a manhã e ganhei a rua outra vez.
Quarta-feira. Vestida com seu uniforme preto, Cris trazia o cabelo preso por um coque no alto da cabeça. A maquiagem clara parecia querer indicar a quem se aproximasse que, lá fora, fazia uma bela manhã de sol. Assim que coloquei os pés no saguão, ela fez sinal para que eu aguardasse. “Trouxe o dinheiro? Tu nem imagina o que precisei fazer para conseguir esses ingressos”, afirmou, com um sorriso diabólico nos lábios. Pedindo que eu agisse normalmente, como um dos hóspedes, me levou por entre portas e corredores a uma das cozinhas do hotel. “Faz quanto tempo que tu não prova uma comida boa de verdade?”, perguntou, enquanto puxava dois pratos limpos. Por força do hábito, pediu notícias de Lucas, embora, distante, sequer ouvisse o que eu tinha a dizer. Quando voltou a fixar a atenção em mim, ficou vermelha e largou o garfo que até então usara apenas para brincar com a comida. Ainda que também tivesse perdido a fome, elogiei o bobó de camarão. Cris então largou o prato ainda cheio em cima da pia e, disfarçando um sorriso, disse:
Tu tá com a cara péssima, Gaspar. Por onde é que tu andou ontem à noite?
Fui dar uma volta.
Uma volta?
É, uma volta. Qual é o problema?
Desse jeito tu vai acabar que nem o Lucas.
Não precisa se preocupar. Sei o que tô fazendo.
De volta ao trabalho, depois de passar a tarde inteira telefonando para Alice, consegui fazer com que atendesse. Sua voz soava alegre, mas contida. Ela disse que não havia podido falar antes por causa do movimento na loja que estava intenso, e, com um “Te ligo mais tarde”, breve e seco, encerrou a conversa. Enquanto isso, os papéis iam se acumulando tão rapidamente na mesa que já nem era possível ver do outro lado. Sem mais explicações, Bruno desistira de fazer todo o trabalho, aproveitando o tempo livre para checar e-mails, procurar letras de música e ler as notícias do dia. Seu rosto perdera o ar carregado que o acompanhava sempre. Rute também parecia outra pessoa. O desprezo habitual com o qual se dirigia a mim dera lugar a uma reserva educada. De uma hora para outra, começou a dizer bom dia, e não ficava mais de cara feia, quando eu dava um tempo no serviço, ou inventava uma desculpa para sair mais cedo. Essa súbita mudança de ares me deixou a princípio confuso e depois preocupado. Aproveitando os inimigos que Rute havia cultivado ao longo de tantos anos de repartição, não foi difícil descobrir o que estava acontecendo. Circulava à boca pequena o boato de que ela, Bruno e mais dois funcionários estavam armando para me foder. Há algum tempo, os quatro vinham preparando um relatório no qual descreviam pormenorizadamente todos os meus podres: os dias em que chegara atrasado ou saíra mais cedo, os dias em que sequer tinha aparecido e a lista de processos que mofavam na minha mesa. Me acusavam inclusive de ter vindo trabalhar bêbado algumas vezes e outras tantas de ressaca. Tudo datado e documentado. Também indicavam testemunhas para confirmar a veracidade do relato. Se aquilo chegasse às mãos erradas, seria meu fim. Atordoado, eu me questionava, quase filosoficamente, “Os que esses filhos da puta têm a ganhar com isso?”. Ao descobrir a seriedade e a extensão do golpe que planejavam contra mim, estive a ponto de pedir misericórdia. Porém, já de cabeça fria, percebi que seria inútil tentar dissuadir Rute e os outros do plano. Ela sonhava com o dia em que eu, completamente humilhado, lhe imploraria que não fosse adiante com aquilo. Eu não podia dar esse presente a ela e, se quisesse ter uma chance, era preciso agir rápido.
Sexta-feira, dia do show, nem desci para almoçar. Quando entrou na sala e me viu trabalhando como um louco, em pleno horário de almoço, uma sombra caiu sobre o rosto de Rute. Com um misto de surpresa e incredulidade, foi caminhando até sua mesa, sem dizer uma palavra. Ela tinha entendido a mensagem. Agora que eu havia descoberto tudo, poderia enfim contra-atacar. Muito depois de todos terem ido embora, quando já passava das sete, decidi que havia feito o bastante. O show começaria em menos de duas horas, e eu ainda precisava passar em casa para um banho antes de pegar Alice. No caminho, liguei para avisá-la que talvez fosse demorar um pouco. Alice falava com a voz ofegante e parecendo agitada:
Gaspar, ainda bem que é você. Escuta, não precisa me buscar, viu? A gente se encontra lá.
Mas eu não tô tão atrasado assim. Prometo que vai dar tempo. Além do mais, todo mundo sabe que esses shows sempre atrasam.
(Pede pro porteiro avisar que eu já tô descendo) Tenho que ir, Gaspar. A gente se vê.
Gaspar lamentava o descuido. Ainda assim, sem perder o ânimo e decidido a não permitir que aquele pequeno contratempo arruinasse a noite, se aprontou o mais rápido que pôde, e às oito e meia procurava um lugar para estacionar. Enquanto o telefone chamava, ele mantinha a cabeça baixa, distraído em contar as pedras soltas na calçada, quando percebeu a aproximação de duas sombras que se moviam lado a lado. A menor era de Alice; a outra, de um homem que desconhecia. Estendendo-lhe a mão num aperto firme, ele falou, “Muito prazer, Bira”. Depois foi a vez de Alice, que, deliberadamente afetuosa, pôs os braços em volta do pescoço de Gaspar. Um pouco mais atrás, ele os acompanhou silencioso à bilheteria. Chegando lá, Bira sacou dois ingressos do bolso, quando Gaspar já se preparava para fazer o mesmo, e, na hora de escolher os assentos, não fez caso das regras de etiqueta e, como um muro, se colocou entre Gaspar e Alice, a qual não fez qualquer objeção a esse arranjo. Ao contrário parecia até mais confortável com ele. Alice comentou rapidamente que Bira só tinha podido vir porque um cliente ligou na última hora cancelando a reunião. Pouco depois, Zé Mário entrou. Ele se dirigiu ao público uma única vez e ignorou os pedidos de bis. Na saída dois repórteres abordavam as pessoas querendo saber o que elas haviam achado da apresentação. A maioria se desvencilhava apressada, buscando a proteção dos carros. Perto de onde haviam se encontrado, os três pararam para as despedidas. Alice perguntou, “Tu não quer vir com a gente encontrar uns amigos do Bira? Dizem que até o Zé Mário vai dar uma passadinha por lá”. Entre dentes, Gaspar soprou uma desculpa pouco confiável e se livrou do convite. Alice então colocou novamente os braços em volta de seu pescoço, ao passo que Bira lhe acenou de longe, adiantado.
Ao entrar no carro, Gaspar desejou comer um pastel quentinho, perto da sabedoria secreta dos chineses. Esperava ansiosamente o dia em que conheceria da vida tanto quanto eles ou mesmo quanto Bob e seus olhos pacíficos. Então perderia a capacidade de errar, exatamente como o monge fornicador que, ao gozar pela primeira vez, compreendeu a natureza de todas as coisas. Quem sabe, o biscoito da sorte um dia lhe dissesse, “Do abismo da vida, brota a verdadeira felicidade”.
Antes de arrancar, dei um trocado a uma garotinha que me olhou como se eu não fosse um estranho. Tomando cuidado com outra aproximação repentina, tirei o telefone do bolso. Murilo atendeu como voz de sono.
Alô?
Que é que tá fazendo?
Refinando, por quê?
Tô passando aí em vinte minutos.
Que é que a gente vai fazer?
Recordar.
Houve uma época em que saíamos rodando pela cidade, sempre que nenhum dos dois queria ou conseguia dormir. O motor, queimando óleo, soltava uma fumaça preta e densa que nos seguia por todo o caminho. Para o caso de darmos com a polícia, as bebidas ficavam escondidas debaixo do banco, de onde só saiam para tornar a encher os copos. Há muito que tínhamos substituído a fruição do prazer por uma pressa pura e simples, querendo tudo até o fim e o mais rápido possível. Começávamos pela Duque de Caxias, na altura do cruzamento com a Padre Mororó, um dos quarteirões mais podres do Centro. O ar que se respirava ali era viscoso e pesado. Não fazia diferença se ventava ou não, o fedor nunca ia embora. Impossível dizer de onde vinha ou que associação de substâncias era capaz de produzi-lo. Nas redondezas havia um comércio de peixes, e era comum ver sacos de lixo espalhados pelas calçadas, amontoados em grandes pilhas cobertas de varejeiras. No entanto, isoladamente, não era possível crer que pudessem provocar tamanho efeito, sentido até muitos quarteirões depois. Eu tinha a impressão de que na verdade um grande cu se abria bem acima de nossas cabeças e nos observava com seu grande olho onisciente. Subindo em direção ao mar pela General Sampaio, passávamos pela Divine, onde, perto das onze, as pessoas começavam a se reunir. Murilo dizia que todo gay que se preze já tinha entrado ali pelo menos uma vez na vida, nem que fosse só para fazer o debut. Apesar de trazer mais azar do que sorte, certas tradições precisavam ser mantidas para que os mais novos não perdessem as referências. “Tu acredita que hoje em dia tem gente que nunca ouviu falar da Maria Cão1?”, Murilo reclamava. Do lado oposto, no Jóia, mulheres conduziam suas companheiras ao som do forró que saía dos porta-malas dos carros, enquanto homens machos entornavam copos de cerveja na noite quente, lançando olhares maliciosos para os rapazinhos parados na porta da boate. Entre os grupos não havia espaços demarcados, e as pessoas iam e viam de um lado para o outro por vários motivos: para conseguir bebida, drogas ou apenas uma trepada. De lá, seguíamos nossa viagem sentimental pelo coração de Fortaleza. Nas calçadas, os mendigos se deitavam para dormir ou porque estivessem entorpecidos demais para ficarem em pé. Os que tinham mais sorte se largavam em cima de colchões velhos e rasgados. Era comum haver crianças entre eles. A maioria contudo adormecia no cimento frio, encolhida dentro das próprias roupas. Àquela hora já não se aproximavam dos carros pedindo dinheiro, pois quem passava por ali tão tarde corria atrás de emoção, e isso podia ser perigoso. Olhando-os pela janela, Murilo tomava grandes goles e franzia a testa, como se de repente seu futuro tivesse se materializado bem diante de seus olhos.
Do teatro, parei num posto de gasolina para comprar bebida e dez minutos depois buzinava na porta de Murilo. Para tirá-lo de casa era preciso fazer muito barulho, e, como nos velhos tempos, enterrei a mão no volante por intermináveis segundos, até que ele apareceu com os olhos injetados de cólera. Pancho latia desesperadamente. Não reconhecendo o carro, Murilo hesitou. Sua expressão tinha ido da raiva ao susto e instintivamente recuou um passo. Sem entender o que estava acontecendo baixei os vidros.
Não tá me reconhecendo, seu idiota?
Como eu poderia te reconhecer? Que merda de carro é esse? E pra quê os vidros fumê? - Murilo deu um suspiro de alívio, se precipitando para dentro.
É alugado.
A julgar pelas roupas amarrotadas e pelo aspecto sujo, Murilo não havia saído de casa. Soltei um grunhido, mais ou menos como se limpasse a garganta, e começamos a nos mover. Trocávamos palavras esparsas, com preguiça de começar uma conversa de verdade. O vento assanhava nossos cabelos, enquanto nos entregávamos à contemplação do asfalto reluzindo à luz dos postes, cansados da companhia um do outro. Dentro do carro, tudo o que se ouvia era o som das garrafas sacolejando debaixo do banco. Íamos nos arrastando pelas ruas sem fazer barulho, seguindo firme pela São Paulo, depois entrando pela Barão do Rio Branco e descendo pela Senador Alencar.
Pra onde é que a gente tá indo afinal?
Hoje a gente vai encher a cara. Que é que tu acha disso?
Contanto que eu não tenha que pagar – Murilo falou, reclinando o banco e balançando a cabeça em sinal de aprovação. – Então vamo pro Gato Preto.
Tu não tá cheio daquele lugar? Não, tenho uma ideia melhor. Dessa vez, a gente vai pro Show Bar.
Ai não, aquela pocilga?
Não é tão ruim assim.
E o que eu ganho com isso?
Pode pedir o que quiser, eu pago.
O que foi que te deu hoje?
Depois de acertado o lugar, continuamos calados, cientes de que as palavras eram nós que não se desfaziam por puro capricho. Perto de chegarmos, à contra-gosto, Murilo quebrou o silêncio outra vez.
Merda.
Que foi?
Preciso de um banheiro agora mesmo.
Não tem ninguém na rua. Escolhe aí um cantinho mais escuro e mandar ver.
Não dá.
Como não dá? Tu tá com dor de barriga?
Pensei que não ia voltar mais. Se tu não tivesse me apressado tanto, teria dado tempo de ver se tava tudo certo.
E agora?
A gente tem que achar um banheiro, ou não me responsabilizo pelo que possa acontecer.
Aguenta aí. A gente tá quase chegando.
Eu não vou cagar naquela espelunca, Gaspar. E se não tiver papel?
Papel? Se eu fosse você, dava graças a deus se encontrasse uma privada lá dentro.
Isso é tudo culpa sua.
Culpa minha? Por que tu não me disse que tava se cagando? Se eu soubesse tinha esperado, droga.
Tem certeza de que não tem outro jeito? E o banheiro do Passeio?
Esquece. Essa hora já fecharam.
A gente arromba a porta, então.
E se a polícia passa e vê a gente?
Que polícia, Gaspar?
Não, não. Tu vai ter que se virar aqui mesmo – afirmei, parando o carro.
Não devia ter saído de casa.
Havia pelo menos cinco motos amarelas estacionadas no meio-fio. Perto delas um grupo de homens conversava animadamente. Seus rostos brilhavam de suor e o cheiro que saía de seus sovacos por pouco não nos nocauteou, ao passarmos pela entrada. Um sujeito moreno e desdentado, erguendo o braço ossudo, nos indicou o banheiro. Apesar da pressa, Murilo abriu a porta receoso, com medo do que pudesse encontrar. Sentei e pedi uma cerveja. O bar estava cheio, e todos, sem exceção, tinham os olhos vidrados na mulher que dançava nua em cima de um palco improvisado. Antes de a segunda música terminar, ela desceu e começou a andar entre os homens, incitando-os. A seguir, se deitou numa mesa comprida, de madeira, oferecendo a si mesma como banquete. Em poucos segundos ficou cercada de animais famintos, que avançavam sobre ela enlouquecidos de desejo, passando as línguas ásperas sobre sua pele, apalpando com gula seus peitos, bunda e sexo. Enquanto isso, no meio da confusão, um deles gritava, “Quem meter o dedo na buceta, paga multa”.
Alguns minutos mais tarde, Murilo saiu do banheiro, aliviado.
Até que enfim. Pensei que tu tava parindo um bebê lá dentro.
Por que tu saiu de perto da porta, porra? – Murilo esbravejou. - Toda hora aparecia algum bêbado querendo entrar, e eu tive que ficar segurando a porta com o pé.
É que eu tinha que ver isso.
Que porra é essa? O que esses caras tão fazendo?
Presta atenção. No meio deles tem uma mulher deitada numa mesa. Aparentemente, os caras podem fazer o que quiserem com ela, menos enfiarem os dedos.
Ai, pois se fosse eu fazia era pedir que eles metessem os dedos e o que mais eles quisessem.
Olha lá, eles já tão se dispersando. Será que ainda vai rolar outra dessas hoje? A próxima eu não perco.
Só me deixa em casa antes. Sinto que vem mais por aí.
A companhia de Murilo só havia servido para despertar em mim maus instintos. Após largá-lo no portão de casa, tomei o caminho de volta para o Centro. Girando o volante de um lado para o outro, brincava com a ideia de arrebentar o carro num muro. No processo, quem sabe ganhasse uns ossos quebrados e também a solução para meus problemas no trabalho. Afinal, quem teria coragem de demitir um suicida?
Chegando ao Show Bar, reduzi a velocidade, sem decidir o que fazer. Parei para encher o copo e em seguida continuei meu caminho. Depois de rodar por um tempo, encostei o carro no Besouro Verde. Sentadas num batente, duas meninas que não deviam ter mais de vinte anos conversavam. A mais bonita tinha o cabelo pintado de vermelho. Já sua amiga possuía o nariz largo e com a pontinha arrebitada, deixando à mostra dois grandes buracos negros. As tatuagens nos braços e nas pernas talvez servissem para disfarçar aquele pequeno defeito. Me aproximei trocando os passos e as convidei a sentarem comigo. A ruiva virou o rosto, e porque eu continuasse insistindo, me mandou à merda. A nariz de porco, por outro lado, não parecia tão decidida a fazer o mesmo.
Acordei com o sol queimando minha cara e uma das pernas jogadas para fora da cama. Na boca, o gosto acre de álcool e suco gástrico. A cabeça doía e eu mal conseguia manter os olhos abertos. Ainda tonto, continuei deitado. Virando de lado para escapar da luminosidade, tornei a fechar os olhos e adormeci. Quando o telefone tocou, levantei num pulo, achando que fosse segunda e que me ligavam do trabalho. O coração batia na garganta, enquanto eu tentava pensar numa desculpa que ainda não tivesse usado. Só quando reconheci minhas roupas jogadas no chão é que as lembranças da noite anterior começaram a retornar. Desabei na cama outra vez, com a respiração descompassada. Antes de colocar o quarto abaixo para encontrar as chaves do carro, fui à cozinha buscar um copo d’água. Na mesa, embaixo de um livro, encontrei um bilhetinho escrito às pressas. “Você é muito doido, cara. Se tiver a fim de fazer isso de novo, sabe onde me encontrar. Peguei quarenta reais pro táxi. Renata”. Dei uma geral no apartamento para saber se algo mais havia sumido, troquei de roupa e desci para comer alguma coisa.
oito
Exatamente o que eu precisava para desanuviar o pensamento: um pouco de vinho quente num copo de geléia de mocotó. Tendo me livrando das roupas, sentei no sofá, jogando a cabeça para trás. Apesar de tudo, a escuridão não convidava ao sono, esse pequeno alívio. Na parede da sala, logo acima da televisão, o relógio marcava a mesma hora enigmática há três semanas. Pelos meus cálculos já devia ser madrugada, quando cheguei do apartamento de João.
Caixas se espalhavam por todos os cantos e as paredes exibiam o contorno dos quadros e pregos enferrujados. As prateleiras poeirentas, destituídas de seus objetos, não escondiam um certo ar de inadequação. Concedendo à sala ainda um pouco de familiaridade, apenas a poltrona de molas que trouxera da casa da mãe.
João me recebeu ainda vestido com a roupa do trabalho. Descalços, seus pés rosados soltavam pequenos estalidos à medida que ele caminhava para abrir as janelas, escondidas detrás das cortinas. Perguntei-lhe como andavam as coisas. Com o orgulho trôpego, João engoliu em seco e disse: “Bem, obrigado”. A seguir, à pretexto de buscar uma aspirina, se levantou para ir ao banheiro. De lá voltou sorridente, embora sua tristeza anterior tivesse parecido menos perturbadora. Agora, em lugar da languidez e do olhar arrastado, uma euforia dura o dominava. As mãos, sem conseguirem pousar nos joelhos, se moviam num frenesi vertiginoso. Antes que eu pudesse revelar o motivo da minha visita, João abandonou o sofá novamente. Dessa vez foi ao quarto à pretexto de buscar algo e retornou com um maço de papéis debaixo do braço. Correu o dedo pelas folhas, trêmulo, “Ainda não tive tempo de terminar”. Escolhendo um trecho aleatório e limpando a garganta, começou a ler rápido como uma metralhadora, parando várias vezes. Contraindo o rosto, largou os papéis no sofá e foi à cozinha. De lá, sua voz soava clara e forte, fazendo eco nas paredes do apartamento, “Pode ficar, se quiser. Tenho outra cópia comigo”. A seguir, tudo o mais restou encoberto pelo barulho do liquidificador e do gelo triturado.
A noite, úmida e abafada, lembrava o hálito de um ser monstruoso. Colocando o copo de lado, João esticou o braço para alcançar o livro. “Ainda não mostrei pra ninguém. Mas eu acho que tu vai gostar, acho que vai... Por que tu desapareceu desse jeito? Fui eu, falei alguma coisa que não devia? Já te pedi desculpas, o que mais tu quer que eu faça? Pode dizer, é só dizer...”. Os copos se encheram outra vez. João bebia numa velocidade assustadora. Enquanto isso, eu já principiava a ficar lento. A cabeça rodava. Fiz um breve relato do que tinha ocorrido nas últimas semanas. João me interrompeu para ir outra vez ao banheiro. “Ah... então quer dizer que... esses dois... Sabe, andei pensando, não vai contar pra ninguém, entendeu? Andei pensando em escrever uma história... Um babaca do jornal disse que eu devia parar com isso, que só tá me atrapalhando, mas eu não posso fazer isso, posso? Então, resolvi mudar tudo... Mas tu tem que me prometer que não vai contar pra ninguém, ouviu? É sobre uma mulher que tem os pés perfeitos, brancos como duas pombas... Se eu fosse mulher gostaria de me chamar Júlia, e tu? João, Júlia. João, Júlia. João, Júlia. Pra quê antecipar as coisas se a vida se encarrega de tudo? Os pés da Júlia... Coitada, eles sempre a colocam nas piores enrascadas”.
Sentado sobre umas das pernas, João tinha os olhos em brasa. Após expulsar a última palavra inaudita, murchou de uma vez, como acontece a todas as coisas que, por algum motivo, acabam ficando maiores do que deveriam. Antes que fosse tarde, tornou a ir ao banheiro, recobrar o domínio de si mesmo. João sorria, “Não se esqueça de mim outra vez, por favor?”.
nove
A velha não suportava mais os sumiços dele, nem a visão de seu corpo magro, largado na cama horas a fio. “Ele parece mais um cadáver, não o filho que eu criei”, lamentava. Havia épocas em que Eduardo dava a impressão de que ia melhorar. Passava mais tempo em casa e até ganhava peso. Para se certificar de que o filho não voltaria a sair dos trilhos, a velha varava as noites escorada na porta de seu quarto. Mas então começava tudo de novo. “Leva o Eduardo contigo. Uma mudança de ares e de companhia vai fazer bem. Longe daqui talvez ele tenha alguma chance”, ela implorava com os olhos cheios d’água.
Diante daqueles pedidos doídos, que se repetiam com uma insistência cada vez maior, não tive outra alternativa senão acolhê-lo debaixo de meu teto. Contrariando todas as expectativas, especialmente as minhas, o início foi surpreendente e as primeiras semanas transcorreram numa profunda calmaria. Eduardo dormia o dia inteiro e passava a madrugada assistindo filme. De modo a ajudar na recuperação proibi a circulação de bebidas e também certas visitas. Para minha surpresa, tais imposições eram aceitas sem resistência. Nos encontrávamos apenas à noite, quando eu chegava em casa trazendo comida. Enterrado no sofá, Eduardo me recebia sem dizer uma palavra e sua reserva chegava a me causar arrepios.
A única distração que possuía era dar umas voltas pelas redondezas, a fim de se ambientar ao novo bairro. Eram caminhadas curtas e em menos de uma hora podia ouvir o arrastado dos chinelos pelo hall e a porta se abrindo atrás de mim. Porém, com o tempo, suas andanças o foram levando mais e mais longe, e quando percebi Eduardo já tinha ganhado o mundo outra vez. Também tornou a falar, quase sempre sozinho. A partir daí, a rotina de sobressaltos e sumiços começou a ocupar boa parte da minha vida, exatamente como acontecia à velha. Eventualmente, acordava com o barulho de alguém forçando a porta. Uma noite, depois de flagrá-lo revirando o apartamento com mais dois homens, escorracei-o de casa como a um vira-lata intruso. Até então, a velha telefonava pelo menos três vezes por semana. Com a voz tremida e cheia de dedos para não contrariar Eduardo, pedia que lhe contasse como iam as coisas e perguntava se comia direito e se tomava banho. Em seguida, me obrigava a repetir as mesmas mentiras. No entanto, ao tomar conhecimento do que eu havia feito, parou com as ligações.
Eduardo ainda ficou um tempo com Lucas antes de ir morar com Franzé. Mesmo assim ele me procurava sempre que precisava de grana ou quando se metia em problemas. Em uma dessas ocasiões, enfiando o dedo na campanhia nervosamente, ele interrompeu a justa homenagem que eu prestava a uma mulher em quem havia esbarrado na rua. Ainda disfarçando o volume no calção corri à porta. Eduardo estava lívido e seu corpo todo tremia. Tinha escoriações no rosto e nos braços. Perguntou se podia ficar um pouco e, deitando no sofá, envolveu-se num longo abraço solitário. Ardia em febre. A blusa rasgada deixava à mostra as costelas saltadas e uma grande mancha esverdeada. Ofereci-lhe toalha e roupas limpas. Eduardo fazia caretas de dor, ao sentir minhas mãos pesando sobre suas carnes magras.
Quem fez isso contigo?
Ninguém.
Vou te levar pro hospital...
Não – Eduardo levantou a voz, para diminuí-la logo em seguida – Me escuta. A gente precisa ir a um lugar.
O Lucas tem alguma coisa a ver com isso?
Não.
Tu tá mentindo, Eduardo. Diz logo o que vocês aprontaram. Quem foi que te deixou assim?
Tu é igualzinho à velha, nunca acredita no que eu falo.
Só quero saber o que houve. Não vou sair de casa uma hora dessas sem um bom motivo.
Aconteceu... – a voz de Eduardo soava fraca, quase doce.
Era a primeira vez que o via tão frágil e desamparado. Eu não sentia raiva ou pena dele, apenas o desejo de que desaparecesse e fosse encontrar em outro lugar a paz de que tanto precisava.
Alguém se machucou? – perguntei.
Sim.
Foi muito grave?
Tu tem que vir comigo, Gaspar. A gente tem que chegar lá antes que descubram ele.
Descubram quem?
Não posso mais ficar aqui... Ele queria me matar. Eu não fiz nada. Me defendi. Eu não fiz nada. Ele ainda tava respirando, mas tinha muito sangue. Sangue por todo lado. Tu tem que vir comigo.
E onde é que ele tá?
Fiquei fora de mim. Perdi a noção... Eles vão me pegar.
Não vai te acontecer nada, Eduardo. A gente vai resolver isso. Agora, me diz onde ele tá – falei, tentando acalmá-lo.
Não sei, acho que foi perto daquela rua... Porra. Não lembro, não lembro.
Pelas redondezas, tudo parecia normal. Alguns carros cruzaram nosso caminho com os faróis apagados e em alta velocidade. Eduardo mantinha a cabeça baixa, só levantando a vista quando eu o obrigava. O suor escorria gelado de sua testa. A certa altura, passamos por um posto de gasolina e, num gesto súbito, ele pediu que eu parasse. Correndo em direção à pista, alcançou o outro lado e se meteu por um buraco na cerca que separava os trilhos do asfalto. Apressei o passo para acompanhá-lo. Eduardo parou a poucos metros de uma marquise, onde um pequeno grupo de pessoas estava reunido. Uma fumaça fina e muito branca vinha de lá e subia com o ascender da chama e dançava no ar até desaparecer por completo. Puxando Eduardo pelo braço, pedi baixinho que fôssemos embora.
Não tem nada aqui, tá vendo? Não há ninguém machucado nem sangue no chão. Deve ter sido tudo coisa da tua cabeça.
Não foi coisa da minha cabeça. Foi real, eu juro. Ele tava bem aqui e havia sangue por todo lado. Minhas mãos ficaram sujas... Não pode ser. O que tá havendo comigo?
De volta ao apartamento, deitei-o no sofá. O cheiro do pão quente não o pode tirar de seu transe e minha voz não passava de um eco distante, incapaz de conferir peso à realidade. Seus pés nus deixavam à mostra as unhas grandes e sujas, rachadas até o leito. A figura de Eduardo, assustadora em sua imobilidade, secretamente conjurava a proteção do isolamento e decidi deixá-lo sozinho. Agora que o circo estava desmontado, o palhaço podia enfim descansar.
A porta do quarto permaneceu aberta por precaução e, pela madrugada, tiros e gritos de socorro continuaram vindo da sala.
A manhã me pegou de surpresa. O sol brilhava alto no céu, indicando que eu não devia estar em casa. O sanduíche de presunto pela metade e cheio de formigas era a única evidência de que Eduardo estivera ali. Na televisão, o jornal noticiava, “Hoje de manhã, perto dos trilhos na Avenida José Bastos, policiais encontraram o corpo...”.
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dez
Ao levantar o rosto amassado da mesa, enxuguei a baba que escorria pelo canto da boca, ajeitei a camisa e coloquei os botões no lugar. Olhei ao redor para ter certeza de que não estava sonhando e, apoiando a cabeça no antebraço, me preparei para voltar a dormir. Bruno apareceu pouco depois exibindo sua indefectível cara amarrada, e Rute veio logo atrás, exclamando, “É isso que dá. Se o doutor Sérgio te pega aqui dormindo... Quem avisa, amigo é”.
De frente para o espelho do banheiro, a água percorria os sulcos do rosto e descia pela barba, molhando a camisa. A dor de cabeça aumentava. Apoiando os pés na privada, via pelo basculante o dia se desenrolando lá fora. As nuvens mudavam de forma constantemente contra o fundo azul, e embaixo, no pátio onde ficavam guardados os carros, um pé de jambo frondoso fecundava o solo com seus frutos maduros. Imprensando o corpo da faxineira contra a árvore, o segurança amassava os peitos da moça, enquanto uma chuva de florezinhas lilases molhava seus cabelos. A mulher trazia o corpo do homem para perto de si num abraço apertado. Ávida, sua mão se encheu com a masculinidade opulenta do segurança, que retribuiu a carícia com a mesma intimidade. Suas bocas então se procuraram com força redobrada. Porém, um barulho estridente, de metal caindo no chão, os deixou assustados. A faxineira o empurrou para longe de si, juntando balde e rodo para continuar a limpeza, e ele correu de volta para seu posto, na entrada do prédio. O pé de jambo permaneceu imóvel, derramando flores de despedida, para sempre cúmplice daquele encontro furtivo.
Embora o almoço ainda lhe mandasse lembranças, mal colocou os pés em casa, Gaspar tornou a descer, sob o pretexto de comer alguma coisa. A Treze de Maio estava movimentada como de hábito. Jovens de cabelo preso e livros nas mãos, tão inconsequentes e lindas, esbarravam em Gaspar ou era Gaspar que esbarrava nelas? Quem sabe houvesse uma entre tantas que não recusasse o convite sincero de um homem desesperado. Tudo o que lhe pediria é que o acompanhasse até seu apartamento para se conhecerem melhor. As roupas seriam desprezadas como uma simples convenção, útil apenas para manter as pessoas ocupadas e as engrenagens funcionando.
Por algum tempo, Gaspar quedou-se sozinho numa mesa pegajosa, de um bar qualquer, esquina do mundo, e desposou a primeira e única cerveja da noite sem a surpresa das núpcias. Com os olhos secos, ele divisava o longo intervalo em que a vida se transformara e teve ânsias de não ser.
O pé de jambo, as flores lilases, seu corpo contra o de Alice. Debaixo do chuveiro, deixou que a água caísse abundante sobre a nuca, até que de repente tudo se apagasse num sorriso de penitência pela vida que, desperdiçada, escorria pelo ralo.
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