segunda-feira, 18 de março de 2013

DEPOIS DO PRIMEIRO COPO (p.2)
















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onze






De cama por causa de uma úlcera estourada, Cláudio passou a semana afastado do trabalho. Sem sua companhia, eu comia o mais rápido possível, a fim de fugir das moscas e das pessoas que pousavam em todos os lugares. Por um pouco de sossego, caminhava até a praça onde ficava o prédio da justiça, chupando um picolé de limão enquanto esperava o relógio bater uma hora. De um lado e de outro, bancos se dispunham ombro a ombro, e, dividindo ao meio o espaço entre eles, uma fonte que secara há muitos anos aumentava a sensação de calor. Deitada contra o sol sobre seu flanco esquerdo, uma mulher espalhava as banhas pelas ripas de madeira, enquanto um menino magro e remelento, pulando para lá e para cá, fustigava sua barriga com um pedaço de pau. Ela não repreendia a criança, sequer a olhava, com pena de acabar com a alegria da brincadeira.
Por um breve momento, a luz, que realçava seres e objetos com uma exclamação, a ponto de conceder-lhes um quê de artificial, num clarão fulgurante se fez branca, e o sol exibiu um intenso contorno alaranjado. Ano após ano, ele e eu íamos nos tornando cada vez mais próximos e, de uns tempos para cá, até arriscávamos trocar algumas palavras.
Quanto mais tu acha que ela aguenta? – perguntou.
Eu já falei que não é pra aparecer desse jeito – repreendi-o. – Não me leve a mal, mas é que eu não sou muito chegado a extravagâncias. Eu sei que é o teu jeito, eu entendo, mas...
Deixa de ser ranzinza, Gaspar. Faz quanto tempo que a gente não conversa? Parece até que tu anda fugindo de mim.
Impressão sua.
E a Alice? Como vão as coisas entre vocês dois?
Por que todo mundo fica me fazendo essa pergunta?
Qual é próximo passo? Tu sabe que eu tô do teu lado, não sabe?
Não tem próximo passo, pelo menos não por enquanto. A Alice tá saindo com um cara, um tal de Bira...
Mas conhecendo Alice como eu conheço, diria que não deve ser nada sério.
Tanto faz. Não tô a fim de conjecturar sobre isso agora.
Sabe qual é o teu problema? – afirmou, dominando o céu com uma imponência arrogante.
Não, qual é?
Teu problema é ser blasè demais. Viver é assumir riscos, Gaspar. Quando é que tu vai entender isso?
Pra você é fácil falar – retruquei.
“Tenho a sensação de ser um parasita me alimentando de um organismo que não funciona a contento”. Isso é coisa que se diga?
Não enche, porra. Isso faz tempo. Agora eu tô melhor. Tô até conseguindo dormir.
Foram aqueles comprimidos novos? Cara, depois que tu começou a tomá-los, não tem sido fácil te acordar.
É como dizem, ninguém é normal sem medicação.
Pode ser... Então, a gente ainda se vê mais tarde?
Eu não apostaria nisso.
Cansada de apanhar, a mulher tomou o pedaço de pau da criança, que chorava como se o mundo fosse acabar, e tornou a fechar os olhos.
           
           





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doze






Já havia escurecido quando nos sentamos, e o som das buzinas e dos motores alcançava o nível máximo.
Dá cigaarr...
Quê?
Cigaarr... - Bob apontava o para o maço em cima da mesa.
Ah, o garotão aqui quer um cigarro? Pois daqui a mão... Vai querer ou não vai? Anda, deixa de ser frouxo.
 Ao ouvir isso, ele deitara seu inseparável saco no chão e, aflito, esfregava as mãos na camisa. Lucas havia tirado o cigarro da boca e o segurava como a uma vela acesa. O mendigo olhava ora para a chama ora para Lucas, preso entre o desejo e a desconfiança. Não conseguindo mais resistir, estendeu-lhe a mão espalmada, parecendo uma criança que pedisse bombons. Num lance rápido, Lucas virou a ponta do cigarro para baixo, afundando -a na mão de Bob, que saiu ganindo pela rua.
Por que tu fez isso?
Não tenho culpa. É só assim que eles aprendem.
Com Lucas era preciso deixar clara a disposição de não ceder, pois ao menor sinal de fraqueza, ele assumia o controle. Tinha um talento natural para se colocar no centro das coisas, fazendo com que tudo girasse em torno de si. Sua autoridade geralmente se impunha sem resistência, tanto mais que, na maior parte do tempo, ele sabia exatamente o que estava fazendo.
Tu sempre sai essa hora?
É que eu tô com um monte de serviço acumulado. A coisa tá ficando feia pro meu lado. Se não eu me cuidar, perco o emprego. O pior é que tá cheio de gente doida que isso aconteça.
Tem visto a Cris? – Lucas não conseguiu resistir.
Tava demorando... Tive com ela uns dias atrás.
Ela perguntou por mim?
Ela sempre pergunta.
E o que é que tu responde?
Nada. Não tenho nada a dizer. Não sei da tua vida e muito menos do que acontece entre vocês dois. Prefiro ficar longe disso.
O que acontece entre nós dois... Vou te falar o que acontece. Na rua onde eu moro tem um prédio baixo, parecido assim com o teu, e todo dia um urubu pousa bem em cima dele. Fica lá parado durante horas, apenas observando...
Mas o que isso tem a ver?
Tudo. Esse urubu sou eu. Agora, tá vendo aquela gatinha, vamos dizer que seja uma gatinha, mexendo no lixo? – Lucas apontou ao longe.
Tô, mas e daí?
Aquela gatinha é a Cris – falou, didático. - Vamos dizer que um dia, vadiando por aí, a gatinha vê o urubu pousado lá em cima, e esquecendo de sua prudência felina, percebe que ele não é tão ruim e que sua cabeça pelada pode até ser sinal de algo mais do que a morte. Além disso, os gatos sabem se cuidar, o que é mais um motivo pra que ela não se preocupe tanto. Vendo a solidão em que vive o urubu, a gatinha acha que ele merece uma chance de ser feliz e todos os dias passa a desfilar sinuosa pela rua, na esperança de que ele a note do alto de seu silêncio contemplativo. E apesar de não dar a mínima pro que acontece lá em embaixo, o urubu não pode deixar de perceber seus miados langorosos. Depois de tanta insistência, ele finalmente resolve descer e conversar com ela. Descobrem que tem mais coisas em comum do que poderiam supor e começam a andar juntos pra todos os lados. Apesar da falação dos outros bichos, só existem os dois e nada mais. O urubu conta à gatinha como lhe parece o mundo visto de cima, longe de todo aquele calor, de toda aquela violência e destruição. Não fazia muito tempo, um ex-namorado da gatinha havia morrido espancado por uns moleques que só queriam se divertir. Por isso, ela jamais imaginou que houvesse um lugar onde pudesse escapar de tudo e seus olhos brilham de excitação. Aí, ela vai se deixando tomar por uma vontade incontrolável de ficar da altura do urubu, bem acima das outras criaturas rastejantes. Anseia por ver com os próprios olhos tudo que ele lhe falara. É justo que ele faça isso por ela, já que à sua maneira a gatinha havia lhe mostrado seu próprio mundo. Não havia mal algum em esperar um pouco de reciprocidade. Mas acontece que as coisas não são tão simples assim. O urubu viveu sozinho por tempo demais, e mesmo que não goste disso, mesmo que não queira admitir, ele precisa de sua solidão. E por mais que ele tente explicar isso a ela, a gatinha não consegue compreender, de jeito nenhum. E talvez não haja mesmo explicação possível. A gatinha fica com muita raiva, colocando as unhas de fora toda vez que o urubu se aproxima. Cansado de tentar, ele volta pra sua solidão nas alturas, um pouco triste, mas aliviado, é verdade.
Não sei se entendi direito o que tu quis dizer com essa fábula.
Bem, não há o que entender. As coisas são como são.
Talvez, mas a Cris não parece tão conformada quanto você.
Conformada com o quê?
Com o fato de vocês não poderem ficar juntos.
Mas eu nunca disse isso – Lucas afirmou, entre indignado e surpreso.
E essa história, o que significa?
Tô vendo que tu não entendeu nada.
Então não teria problema se ela visse outras pessoas? – provoquei, apenas para ver como reagiria àquela possibilidade.
Por que tu tá me perguntando isso? Tu tá sabendo de alguma coisa que eu não tô sabendo, Gaspar? – Lucas arregalou os olhos e trincou os dentes.
Não, não é isso. Só quero dizer que essa é uma chance que não se pode descartar... – ponderei, encolhido na cadeira.
Eu sei que ela não teria coragem de fazer isso comigo.
          É, acho que tu tem mesmo razão. A Cris nunca faria isso.
Quando foi a última vez que tu trepou com alguém? – Lucas perguntou, depois de uma longa pausa.
Tem uns dias, eu acho. Mas nem lembro direito como foi.
E a Alice?
Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Eu sei. O que eu quero saber é se tu já desistiu dela.
Sim, acho que sim... É, desisti sim.
A Cris nunca teria coragem de fazer o mesmo comigo.
Não tá mais aqui quem falou.
Isso nunca vai acontecer – ainda nervoso, Lucas ergueu o braço para pedir outra cerveja.
Cláudio e o dono do bar, Messias, eram conhecidos de longa data e sempre que o movimento no Disney diminuía ele vinha se sentar conosco. Mesmo não estando o amigo por perto, Messias aproveitou a deixa de Lucas e veio nos servir a cerveja pessoalmente. “Posso me sentar um pedacinho com vocês? É tão difícil encontrar alguém pra conversar no meio de tanto bêbo desdentado”, disse. Messias morria de desgosto do filho, o que não fazia questão de esconder de ninguém, especialmente quando escorregava na cachaça, sua perdição: “Não sei o que eu faço com o Chico. Não sei como um rapaz tão novo pode ser tão abestalhado. Quando eu era da idade dele, já tinha minhas coisa, um emprego, dinheiro certo, uma mulher me esperando em casa com o menino nos braço. Na minha época, quando um homem tava nos seus vinte, vinte e cinco já era um homem de verdade. Tinha que trabalhar e se virar como desse. Não existia isso de papai ficar sustentando marmanjo em casa, no bem bom. Eu, por exemplo, saí de casa com dezoito. Engravidei uma menina e meu pai chegou pra mim e disse: ‘Arruma tuas coisas que tu vai sair de casa. Se foi homem o suficiente pra fazer a criança, vai ter que ser homem também pra sustentar. Vai viver tua vida que o meu dinheiro não serve mais pra ti’. Engoli o choro e no outro dia me mandei. Hoje, tá cheio de garotão aí tudo cheio de minhoca na cabeça, sem saber o que quer da vida. Uma tristeza”. Com um pano encardido, ele enxugava a testa. Aos poucos o bar foi se enchendo de trabalhadores suados e com a barba por fazer, e Messias precisou retornar ao balcão.
A figura de Lucas era a única coisa perturbando a honestidade do ambiente. Vestindo uma camisa comprida, suja aqui e ali de tinta, e calçando sandálias pequenas demais para seus pés, ele se exibia com afetação. Em muitos sentidos, Lucas era um sujeito aristocrático. A saliência da barriga e os gestos amplos e extravagantes não deixavam dúvidas disso. No final, ao descobrir que, apesar do convite que lhe fizera, eu não estava disposto à bancá-lo, ele ficou puto e me acusou de não ser digno de sua amizade. Seu plano era ir terminar a noite no Gato Preto, mas sem a grana que teria que desembolsar ficaria de mãos atadas. Desistindo de brincar com o copo vazio, Lucas adquirira um olhar profundamente entediado e sem avisar ergueu o braço e desenhando um círculo no ar com o indicador pediu a conta e, continuando seu protesto, sacou duas notas amassadas suadas de dentro do bolso e as atirou em cima da mesa. E assim, depois de mais uma noite deliciosamente oca, só me restaria torcer para que no dia seguinte, ao acordar, eu descobrisse que a repartição jamais existira e que todos aqueles anos não haviam passado de uma ilusão perversa e então eu ficaria absorto, chocado mesmo, mas feliz de poder voltar para a cama e continuar dormindo.
Enquanto eu guardava a carteira de volta no bolso, dois homens entraram no Disney. O mais alto sacou uma faca e a colocou no pescoço de Messias, ao mesmo tempo em que o outro, de revólver na mão, passava de mesa em mesa recolhendo tudo. Com o corpo retesado e sem mexer os lábios, Lucas murmurava, “Vamo corrê, vamo corrê”. Apesar de estarmos próximos da rua, o fluxo de carros impedia que atravessássemos com segurança para o outro lado. Agarrando-se à sua bolsa como se estivesse disposto a dar a vida por ela, Lucas me olhava aterrorizado, mas como eu me mantivesse imóvel, faltou-lhe a coragem de agir sozinho. O homem que segurava o revólver gritava, “Vamo, seus filho da puta. Vão botando as coisa dentro do saco, senão eu meto bala, meto bala”. Antes que chegasse nossa vez, Lucas conseguiu puxar algo de dentro da bolsa e meteu-o no meio das pernas. Fez isso numa velocidade tão grande que mal pude acompanhá-lo. Acho que nem ele sabia ser capaz de se mexer tão depressa. Esvaziei os bolsos e Lucas foi obrigado a fazer o mesmo. No entanto, agora ele aparentava não mais se importar com o que pudesse acontecer e seus olhos retomaram o costumeiro ar bovino. Depois de limparem o local, os ladrões desapareceram. Em seguida, vozes indignadas começaram a se erguer e Messias tratou de chamar a polícia. Curiosos chegavam de todos os lados para saber o que acontecera. No meio daquele burburinho, Lucas entornou o que havia sobrado da cerveja, estalando os beiços.
Se a gente tivesse ido pro Januário como eu falei... Porra, fui te ouvir, deu nisso. Os vagabundos levaram minha bolsa.
É, mas pelo menos tu conseguiu salvar tua carteira.
Que nada.
Mas então o que era aquilo que tu escondeu entre as pernas?
Não adianta explicar. Tu nunca iria entender.
Enquanto a polícia não chegava, Messias mancava de um lado para outro, sem saber o que fazer. Em mais de quinze anos de negócios era a primeira vez que algo semelhante acontecia. “Aqueles vagabundo, eles botaram uma faca no meu pescoço... Ninguém pode mais trabalhar sossegado nessa merda de cidade. Os ladrões agora tomaram de conta”, afirmou, se dirigindo a todos e a ninguém em particular.
Chamamos o garçom de lado e pedimos outra cerveja. Já que teríamos de esperar a polícia, a fim de dar conta das coisas roubadas, que ao menos fosse com a garganta molhada. Mas porque precisasse estar de pé cedo para continuar limpando a barra no trabalho, comecei a me desesperar com a demora. Entretanto, além de mim, ninguém mais se importava com isso. Lucas também não dava a mínima para o relógio, que marcava nove e meia. Havia uma energia intensa no ar, uma excitação transformada em palavrões, análises sociológicas e toda sorte de sugestões para acabar com os criminosos. Cada um ilustrava seu ponto de vista com histórias de violência acontecidas com amigos, parentes e vizinhos. Pessoas que nunca haviam se falado antes, conversavam animadamente. Isso me fez retornar à madrugada em que o prédio onde eu morava pegou fogo. Nem nas minhas fantasias mais loucas de adolescente, pensei que um dia veria as garotas que eu observava voltando do colégio, com os cabelos soltos e exalando um frescor adocicado, naquelas roupinhas curtas, quase transparentes. Depois de anos de ignorância recíproca, vizinhos de porta trocavam palavras pela primeira vez, esperando os bombeiros. No ar, a mesma agitação, a mesma euforia disfarçada em lamentos e explicações.
Quando a viatura chegou, os policiais tomaram alguns depoimentos, já adiantando que seria muito difícil encontrar os ladrões. De qualquer forma, recomendaram a todos que tiveram as coisas roubadas que fossem à delegacia prestar queixa e desapareçam cinco minutos depois. Messias sequer teve a chance de reconstituir a cena do crime em todas as suas minúcias, demonstrando sua revolta e também a marca que a lâmina havia deixado em seu pescoço.
Passava de uma hora, quando coloquei os pés em casa. Além de o escrivão ter se atrasado, havia cinco pessoas na nossa frente, uma delas para relatar o sumiço de uma garotinha de onze anos. A noite esfriara rapidamente, e a tão prometida chuva parecia enfim se anunciar. Embora fosse o cenário ideal para me meter debaixo dos lençóis e adormecer como há muito não fazia, bastou deitar no colchão, para que algo tornasse a se acender dentro de mim. Ouvia o vento silvando ao entrar pela janela entreaberta, as gotas de chuva batendo pesadamente contra o vidro, as buzinas ao longe, o tic-tac do relógio.







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treze






Os dois homens arremessavam os braços desesperadamente na esperança de encaixarem um golpe fatal que encerrasse a disputa. A uma distancia segura dos lutadores, a turma que havia se formado esperava a definição do combate com sede de suor e sangue. Escorados no balcão da lanchonete, eu e Cláudio assistíamos a tudo de camarote. “O tatuado vai ganhar. Ele tem jeito de cabra ruim. Tá vendo como ele vai pra cima do grandão? Aposto dez conto nele”, Cláudio falava, com uma alegria sádica nos olhos. A luta se precipitou para o fim depois que o tatuado foi ao chão devido à força do inimigo e numa reviravolta incrível, mesmo por baixo, conseguiu acertar um soco que o fez cair, apagado. O baque do golpe chegou até onde estávamos e nos fez cerrar os dentes. Apesar disso, o tatuado levantou sem esboçar o menor sinal de sofrimento, sequer abria e fechava a mão para se certificar de que ela não tinha quebrado. Afogado na mistura de sangue e fragmentos de dente, o perdedor erguia os braços, buscando o ar.
         Não disse? Eu disse que ele ia ganhar. O grandão era mais forte, mas o outro era mais tinhoso. Porra, aquilo sim foi um soco – Cláudio festejava, estendo a mão para me cobrar a aposta.
          Calma aí, Cláudio. A aposta não vale se um dos dois tiver trapaceado – afirmei, sem querer me dar por vencido.
         Trapaceado? Tu tá louco? Tem certeza de que viu a mesma briga que eu? – Cláudio esperneava indignado, embora ele mesmo tentasse entender de onde aquele soco tinha saído.
        Com a polícia, a roda que se formara em volta do grandão foi dispersada e pouco depois uma ambulância veio recolhê-lo. Sentado, ele já começava a recobrar a consciência, estancando o sangramento com a camisa. Não havia mais qualquer sinal do tatuado, que desapareceu arrastando atrás de si a carcaça de geladeira que transformara em carrinho de mão, cheia de latas e garrafas vazias. Depois que as coisas se acalmaram de vez, corremos ao local dos acontecimentos à procura de evidências. Perto da poça de sangue, jogada a um canto, havia uma pedra cheia de quinas e de uma dureza à toda prova. Estampada nela uma mancha vermelha, brilhante e ainda fresca. Pegando-a com cuidado fui até Cláudio e falei com ar vitorioso, “Olha aqui. Tá aqui o segredo do soco. O filho da puta acertou o outro com uma pedra. Portanto, a aposta não valeu. Isso foi covardia”. Sem se abalar e fazendo uma cara de quem sabia do que estava falando, Cláudio se defendeu, “Pode até ser que seja verdade. Mas quem disse que isso era proibido? Tu sabe a diferença entre briga e luta? Pois eu vou te dizer. Luta tem regra. Briga, não. Não adianta chorar, filho, foi uma vitória legítima. O tatuado ganhou. Foi mais esperto e ganhou”.
        Desvendado o segredo do soco, fomos beber o dinheiro da aposta no Disney Lanches. Messias veio pessoalmente nos entregar a cerveja, aproveitando para narrar mais uma vez os detalhes e desdobramentos do roubo que havia lhe custado um mês de trabalho. Agora, dizia ele, o jeito era andar armado, e mostrava a pistola comprada a um foragido da polícia, que vendia drogas e falsificava bebidas num pulgueiro, perto do Parque das Crianças. Ainda animado pelo espetáculo que havíamos presenciado, Cláudio começou a falar, sorvendo um grande gole e arrotando alto.
          É o que eu te digo sempre, Gaspar: a vida só começa a ficar divertida quando se está do lado de cá ou do lado de lá. Nunca no meio. No meio tu não vai encontrar nada. Portanto, só há dois caminhos a seguir: ou chafurdar na lama ou encher o rabo de grana. Cada um escolhe o que quer ou o que pode. Gente como esses filhos da puta que querem te foder, essa gente que tá encurralada entre ser e não ser, é o pior tipo que existe. A única diversão que possuem é catalogar a miséria alheia pra compensar a mediocridade das próprias vidas. Eu já tô ficando velho, não sirvo mais pra muita coisa, mas de uma coisa eu posso me orgulhar: tive uma vida boa, muito melhor que a desses idiotas. Quando eu era garoto, devia ter o quê, uns vinte e poucos, me deu uma doida de largar tudo por aqui e ir pro Rio de Janeiro. Nunca te contei esse história, contei?
          Contou, mas eu não me importo em ouvir de novo.
         Isso foi no final dos setenta. Era o começo da geração do pó e dos pelos pubianos. Logo que eu cheguei conheci uma turma e comecei a andar com eles. Tinha uns filhinho de papai metidos no meio e era assim que eu descolava teto e comida. Vivi dois anos sem trabalhar, dormindo e comendo de favor na casa de um e de outro. Às vezes, eu pegava carona até Nova Friburgo, sem um puto no bolso, e passava semanas no sítio de um inglês maluco, amigo do pessoal. O nome dele era Tony ou Thomas, mas a gente só chamava ele de Ruivo. Quando a mulher morreu num acidente de trem, ele largou tudo e depois de rodar o mundo veio parar no Brasil. No sítio ele plantava maconha e cogumelo. Aí já viu. A gente ficava por lá semanas, perdido no tempo e no espaço. Era bom demais. Mas também tinha hora que eu enchia o saco de ficar delirando e descia a serra sem avisar ninguém, doido pra aproveitar os prazeres da cidade. Rapaz, eu comi cada morena que só vendo pra crer. Também apanhei um bocado, de tanto mexer com mulher errada. Um dia me pegaram de jeito. Fiquei um mês de cama, com duas costelas quebradas, sem conseguir me mover e mijando sangue. Porra, como eu tenho saudade daqueles tempos – Cláudio fez uma pausa, deu outro longo gole e limpando a garganta continuou – Nem sei porque tô te contando isso de novo, mas é que... Não quero ser um daqueles velhos chatos que ficam dizendo “Quando tu tiver a minha idade”, mas... quando tu tiver a minha idade vai ver que o passado vai tomando conta do presente, como uma sombra engolindo tudo. No nosso grupo todo mundo se pegava. O sexo não atrapalhava a amizade nem a amizade atrapalhava o sexo. É lógico que tinha as brigas e os ciúmes, mas bastava umas cervejas e uma branquinha que todo mundo tirava a roupa e era porra pra todo lado. Tudo o que a gente fazia era se divertir e trepar. Só. Queria que tu visse. Sabe, eu tive sorte de ter vivido tudo aquilo. Só me arrependo de... O foda é que hoje eu não tenho nada. Meus amigos de juventude, por exemplo, a maioria tá com a vida boa, pelo que soube. Imagina o que eles diriam se me vissem agora, um velho doido e beberrão. Mas eu não tenho inveja deles, porque eu tô bebendo aqui contigo, que é uma pessoa que eu gosto, sobrando nessa cadeira e me solidarizando com todos esses poetas sem casa – disse, fazendo um gesto amplo com os braços.
Pela décima garrafa, Cláudio não parecia mais em condições de voltar para casa sozinho e ainda assim continuava bebendo com uma avidez impressionante. Com as pernas cruzadas ele deitava seus olhos mansos na rua, distribuindo cortesias e acenos de cabeça às pessoas que passavam. “Acho que tu já bebeu demais, hein velho? Tá na hora de ir pra casa”, afirmei.
Porra, será que rola uma carona?
Cláudio morava num quartinho alugado, em cima de uma oficina de caminhões. Dentro, havia apenas o indispensável para sobreviver: um fogão, uma televisão antiga e alguns livros empilhados num canto da sala, cheios de poeira e comido pelas traças. No armador, um terço de madeira descansava em cima do punho da rede. Depois de tomar duas xícaras de café bem forte, Cláudio recuperou o ânimo e alisando a barriga saltada, afirmou, “Eu tô morrendo de fome, e tu? A gente podia descer e comer alguma coisa. A dois quarteirões daqui, descendo por aquela favelinha, tem um cara que faz uns espetinhos de gato que são uma beleza”.
      Apesar da hora, ainda havia pessoas sentadas nas calçadas. Quanto mais pobre o bairro, mais era comum ver senhoras metidas em camisolões de dormir, os queixos tremendo como se estivessem balbuciando alguma coisa, olhando o movimento da rua enquanto o sono não chegava, exatamente como suas mães e avós haviam feito muitas décadas atrás, em uma alguma cidadezinha esquecida, engolida pelo sol e pela seca. O mato que crescia sem controle no meio do cimento, as ruas acanhadas e estreitas, as calçadas irregulares, a pracinha com seus bancos quebrados, a monotonia dos dias em que nada acontecia ainda acolhiam aquelas figuras de outros tempos. Essa timidez provinciana estava de alguma forma inscrita no DNA de toda a cidade, pois mesmo nos bairros ricos, com seus prédios altos e shopping centers, sentia-se os estreitos limites de Fortaleza a constringir sonhos e possibilidades. Os viadutos, o asfalto, o trânsito, o concreto, a violência – nada disso conseguia esconder sua verdadeira vocação e identidade. Fortaleza era uma daquelas mulherzinhas fúteis e invejosas que desfilavam por aí com sua afetação e seu ouro falso para não serem confundidas com os outros pobres. Em suma, uma cidade de interior sob o efeito de esteróides.
Já pisando mais firme, Cláudio desceu a escada, tomando cuidado com os degraus que jamais se repetiam, cada um de tamanho e inclinação diferentes. As nuvens se juntavam ameaçadoramente no céu, avisando que aquela seria uma noite de chuva. A cada passo, aparecia algum conhecido e Cláudio fazia questão de falar com todos.
Não sabia que tu era tão simpático.
Eu devo dinheiro a quase todo mundo por aqui. O mínimo que eu posso fazer é ser simpático com eles.
         Sentado aos pés da churrasqueira improvisada, um homem trazia consigo um pedaço de pano negro repleto de pulseiras, brincos, colares e outros penduricalhos que ia vender no Centro. Cláudio cumprimentou-o com um aperto de mão caloroso e fez sinal para que Bené, o qual pincelava a carne com margarina derretida, preparasse três espetos no capricho. “Bota mais um aí Bené. Quase ia me esquecendo dos teus cachorros, Joca”, avisou, atendendo a súplica silenciosa dos animais, cuja saliva escorria copiosa pelo canto da boca. Joca sorriu agradecido, passando a mão na cabeça de seus três amigos, com quem dividia um restaurante abandonado. Ele e Cláudio pareciam se entender muito bem e até se uniram para sacanear minhas roupas. Joca nem lembrava da última vez em que teve de usar uma camisa de manga comprida, talvez apenas para acompanhar a mãe à missa, quando ainda era um moleque danado pelas ruas de São Luís.
        Os cães se alvoroçaram ao verem os pedaços de carne nas mãos de Joca, que, como um bom pai, dava a cada um sua justa parte. Ao terminarem de engolir, voltaram por mais, abanando o rabo e lambendo-lhe os dedos. Quando entenderam que não restara nada, voltaram a se deitar perto do dono, agradecidos por aquela dádiva imprevista.
Garotos passavam por nós pedalando suas bicicletas enferrujadas na maior pressa do mundo.
Sem tirar o cigarro da boca, Cláudio bateu com as costas da mão no braço de Joca e com ar de quem contava vantagem, disse “Sabia que o meu amigo aqui é o maior contador de história do Antônio Bezerra? Conta pra ele, Joca, aquela história da sucuri gigante que quase te engoliu inteiro”. “Outro dia eu conto, outro dia”, Joca afirmou, se levantando para ir embora. Imediatamente os cachorros se colocaram de pé e sacudindo a areia dos corpos o foram seguindo, farejando o chão atrás de algum resto de comida.
Voltando para o carro, conversávamos sobre a luta e eu soltava socos no ar tentando vencer a guarda de meu adversário invisível. Porém, por mais que eu me adiantasse em sua direção, meus punhos jamais conseguiam alcançá-lo. Aí então eu parava e voltava a balançar os braços como um homem que está simplesmente tentando chegar em casa. Apoiando os cotovelos na porta, Cláudio me ensinava o caminho de volta e antes que eu arrancasse ainda teve tempo de dizer, “Não tem nada além disso aqui, tá me ouvindo? Por isso o maior bem que tu pode fazer pra ti mesmo é aproveitar o pouco que a vida concede. Acredite, tu não vai querer chegar na minha idade triste e puto de ver que não passa de um saco de pele vazio”.
         Pouco depois, a água começou a cair pesada, lavando a sujeira das ruas.







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quatorze






Vai me deixar entrar ou não vai?
Agora não é uma boa hora. Tô esperando uma ligação.
Ah, é? De quem?
Não é da sua conta.
Abre aqui, Gaspar. Vim ver como é que tu tava. Um amigo não pode mais visitar o outro?
É tarde demais pra isso, cara.
Relaxa. O que é que tu vai fazer amanhã?
Trabalhar.
Me deixar entrar, porra. Não vou demorar muito.
Mas eu não quero te ver aqui quando aquele telefone tocar, ficou claro? – afirmei, abrindo a porta.
Tá, já entendi... Ei, tu não vai acreditar, mas quando eu tava vindo pra cá, uma tia encostou o carro e perguntou se eu não tava a fim de comer uma pizza com ela.
E tu parou mesmo com o lance de michê?
Faz tempo. Desde que eu conheci a Dora - Denis afirmou da cozinha, vasculhando os armários atrás de comida.
Onde é que tu guarda os doces?
Acabou. Usei tudo.
Não, cara. Eu tô falando dos doces de verdade. Biscoito, chocolate...
Também acabaram. O Eduardo levou o resto com ele.
Por falar nisso, como é que ele tá?
Na mesma.
Ouvi dizer que ele deu o fora da casa do Franzé. Parece que os dois andaram brigando...
O quê? Quer dizer que ele tá na rua de novo?
Não sei, cara. Pensei até que ele tivesse voltado a morar contigo.
Esse filho da puta não tem jeito.
Eu avisei pro Lucas... O Eduardo já não bate muito bem da bola e quando começa a usar... O cara pode ser escroto como for, mas tem que manter uma certa ética. Eu, por exemplo, nunca ofereci nada ao teu irmão.
E é bom que continue assim. Agora é sério Denis, dá o fora – pedi mais uma vez. - Tô esperando uma ligação...
Eu fico quieto, prometo que não faço barulho. Além do mais, não vou ouvir tua conversa, pode sossegar. Eu tô meio sem lugar pra dormir hoje. A Dora me botou pra fora de casa.
O que vocês pensam que eu sou? Algum tipo de missionário que vai salvar a pele de vocês toda vida que se metem em roubada?
Porra Gaspar, não tripudia. Vai querer que eu lamba teu saco? Já te disse que eu vou ficar na minha.
Merda. Então tá, vai, fica aí... Mas é só por essa noite, tá ouvindo?
Fechado. Ei, tá a fim de comprar uma máquina de escrever?
Máquina de escrever? Que é que eu vou fazer com uma máquina de escrever?
Escrever, porra.
Ninguém mais usa isso, seu maluco.
Mas espera só até tu ver essa aqui. É peça de colecionador. Já pensou se tu colocasse ela aí em cima da mesa, que beleza que ia ficar?
Sei não, cara. Não tô podendo... E cadê essa merda, deixa eu ver ela primeiro.
Eu sabia que tu ia se interessar – Denis disse, abrindo a mochila. - Tu me dá metade agora e paga o resto quando puder.
Quanto é que tu pedindo por ela?
Cento e cinquenta.
Qual é Denis? Tu não deve ter gastado mais do que cinquenta nisso aí.
Tô te falando. Essa máquina é especial. Eu podia conseguir duzentos nela. Só tô te oferecendo porque tu é meu amigo e achei que tu pudesse se interessar, mas se não quiser...
Me dá aqui. Deixa eu dar uma olhada.
Denis colocou a máquina em cima da mesa com cuidado, dando a entender que se tratava de algo realmente valioso. Havia tinta na fita e as teclas estavam todas funcionando.
É, parece que tá tudo direitinho... Te pago cem nela.
Cento e vinte e a gente fecha o negócio.
Como é que tu tem coragem de me cobrar... Tu esqueceu que vai dormir aqui hoje?
Mas é por isso mesmo que eu tô te dando essa colher de chá.
Cento e vinte, né? Então eu tenho que te dar sessenta agora... Caralho, vou levar.
Ótimo.
Agora me diz uma coisa... Onde é que tu arrumou isso?
A história é cumprida.
Então não precisa nem se dar o trabalho de começar.
Que nada. Fiquei sabendo de uma pessoa que tinha uma máquina em bom estado e como eu achei que alguém pudesse se interessar... Pensei em ti na verdade.
Corta essa, Denis. Pra cima de mim?
Tô te falando... Nesse dia eu tava meio... Eu não me cansava de ficar olhando os calangos que subiam e desciam pela goiabeira, perto do portão. Eles balançavam a cabeça e concordavam com tudo o que eu pensava, cara. Era incrível. E eu tirava o dinheiro do bolso e começava a contar pela décima quinta vez pra ver se não tava faltando nada. Aí eu pensei, “É melhor guardar isso num lugar mais seguro”. Nunca é demais se precaver. Tu e o Lucas não foram roubados um dia desses?
Ele te contou?
Pois então. Eu não podia correr esse risco. Tu sabe que onde eu moro é barra pesada. Depois de mais um tempo pensando, acabei dobrando o dinheiro e colocando dentro das meias. Fui até o portão e voltei algumas vezes pra ter certeza de que a grana não ia cair, já que as meias tavam velhas e frouxas. Ainda assim havia outro problema. Quando eu chegasse lá, as notas ficariam meladas de suor, sem falar no cheiro... Passei um tempão parado, com as mãos na cintura, tentando encontrar uma solução pra esse impasse. Mas no final, eu vi que tava sendo idiota de me preocupar, porque suado ou não, fedido ou não, dinheiro é dinheiro, e então resolvi deixar pra lá. Antes de sair, entreguei as chaves pro Jonas, caso eu não voltasse a tempo. Sabe o Jonas?
Que Jonas?
Ele tem uma banda, cara. Os 'Subterrâneos'.
Aqueles bostas?
Eles não são tão ruins assim... O equipamento deles fica guardado lá em casa, os amplificadores, os microfones, os fios e tudo mais, e como eles tinham show mais tarde, achei melhor deixar as chaves com o Jonas, por precaução. É um trato que a gente tem. O pai dele emburrou com a tralha toda por causa do espaço que tomava e eu propus ao Jonas o seguinte: ele podia guardar o equipamento comigo, se em troca me arrumasse umas bucetas. Sabe como é esse pessoal de banda. O Jonas conhece um monte de garotas e não havia mal nenhum se eu me aproveitasse um pouco disso. E foi assim que começou nossa parceria.
E a Dora, não desconfia de nada?
Ah, desconfiar, ela desconfia, mas eu sempre consigo dobrar ela. Bom, quase sempre. Quando a Dora fica puta, não tem jeito.
E dessa vez que foi que tu aprontou pra ela te expulsar de casa?
Isso é outra história... O Jonas passa o dia trancado no quarto, que fica nos fundos da casa, com um caderno velho nos joelhos e as costas grudadas na parede. Pra ele me escutar, eu tinha que sacudir o portão com força e mesmo assim não era garantido. Às vezes, eu precisava gritar o nome dele e os vizinhos gritavam de volta mandando eu calar a boca. Eu ficava nessa putaria até o Jonas aparecer todo assanhado, com cara de sono e coçando as costelas com as unhas crescidas. Nesse dia, depois de entregar as chaves nas mãos dele, umas mãos de couro de sapo, tomei meu caminho. O tornozelo onde eu tinha guardado o dinheiro coçava terrivelmente e eu parava o tempo todo pra dar uma esfregadinha. Havia um longo caminho pela frente. De vez em quando uma viatura passava por mim e eu respirava fundo. Os policiais costumavam ficar dando voltas pela rua atrás de garotas. Tem umas pobrezinhas que são tão fodidas que se dão de mão beijada só pra ver como é uma Hilux por dentro. Os filhos da puta pegaram até a filha do Raimundo da mercearia. Ele só descobriu isso quando a barriga da menina começou a crescer sem motivo. A princípio, o homem pensou que fosse verme, mas lá pelo terceiro mês, depois de entupir a menina de remédio, como a barriga não diminuía, viu que o negócio era mais sério do que pensava. 
Quando bati no endereço certo, uma velhinha veio atender meus gritos de “Tô de casa”, e aí eu disse, todo educado, “Olá, como vai a senhora? Eu soube que tem alguém querendo vender uma máquina de escrever. É aqui mesmo? Se importa se eu entrar e dar uma olhadinha nela?”. A velha ficou me olhando desconfiada por detrás do portão, mas como a rua ainda tava bem movimentada e eu tinha me preocupado em parecer apresentável, ela acabou se sentindo mais confiante e permitiu que eu entrasse. Ela desapareceu por um corredor estreito e escuro, enquanto eu esperava sentado num sofá tubular vinho, e depois voltou com uma xícara de café que tinha acabado de passar. Mas meus dentes tinham amanhecido sensíveis, sabe como é, e eu tive que recusar a gentileza. Em seguida, ela entrou num dos quartos, o que ficava mais perto da sala, e acenando com um pano empoeirado pediu que eu entrasse. Havia um monte de livros espremidos numa prateleira que ia de um canto a outro do cômodo, bastante ventilado por causa da janela aberta. O vento trazia o som dos carros e das mobiletes sem placa furando os sinais vermelhos. Perto da janela tinha uma mesa de madeira e em cima dela um porta-retrato, uma planta de plástico, papéis, mais alguns livros e encostada num cantinho, meio escondida, a máquina. Eu quase podia ouvir a batida seca e metálica das teclas imprensando o papel contra o rolo, cara. Aperta aí pra tu ver como é.
Diziam que era isso que dava o ritmo dos livros de antigamente.
Isso mesmo, e eu pensei “O Gaspar vai enlouquecer quando eu mostrar isso pra ele”. Por curiosidade, perguntei à velha por que ela queria se livrar da máquina. Ela respondeu que a Olivetti não era sua. Na verdade pertencia ao marido que tinha morrido há uns dois anos. Deus sabe que ela não queria ficar se desfazendo das coisas dele, mas os remédios tavam cada vez mais caros e o pouco dinheiro que recebia vinha da pensão do falecido. Ela até chorou, a coitada. Perguntou se eu não queria levar os livros também. A velha disse que tinha me achado um cara legal e que por isso iria me fazer um preço bom por tudo. Eu agradeci, mas falei que meu interesse era apenas na Olivetti. Pelo que ela contou, o marido vivia martelando a máquina. Esquecia até de jantar às vezes. Ela chamava, mas ele não dava nem sinal de vida. Se fosse bater na porta, o velho ficava puto. Por isso, ela deixava o prato em cima da mesa, e a comida ficava esfriando até a hora em que ele resolvesse aparecer. Tinha vezes que depois de comer ele voltava a se trancar e virava a noite por causa da insônia. E o velho tinha estudo. Entrou pro seminário, teve aula de latim, filosofia, estudou a bíblia. O engaçado é que de uma hora pra outra ele parou de acreditar em deus e largou os padres. Foi nessa época que os dois se conheceram. O velho dava aula de português no colégio onde ela estudava. Ao terminar de falar, ela emendou uma pergunta, “Tu acredita, meu filho, que alguém pode deixar de acreditar em deus, assim sem vê nem pra quê?”. “Ele devia ter os motivos dele”, respondi. Ela me olhou como se não tivesse me escutado e continuou, “O coitado vivia numa infelicidade só, achando que tudo tava perdido, que a vida era uma miséria. Eu lembro que ele gostava de usar essa palavra ‘miséria’. Quando ele começava a falar essas coisas, eu saía de perto, não queria ouvir, e aí ele tinha que enterrar essa tristeza em algum lugar dentro dele e eu acho que era por isso que ele escrevia tanto. Lá no meu quarto, tem uma gaveta cheia com as coisas dele. Antes de morrer, ele mandou que eu queimasse tudo, mas não tive coragem”. Eu disse a ela que tinha um amigo que era do mesmo jeito, e sabe o que a velha me disse?
O quê?
“Reze por ele, meu filho. Reze por ele”. Então... – Antes que Denis pudesse prosseguir o telefone tocou.
Eu preciso atender isso, depois a gente continua - Denis assentiu com a cabeça, buscando o controle remoto.
Enquanto falava, Alice ia se despindo lentamente. Bira não era mais o mesmo, ela dizia. Não era a primeira vez que ele a deixava esperando sem qualquer justificativa. Ele a estava traindo, ou era apenas uma fase, algum problema que o atormentava e que ele não se sentia à vontade em compartilhar? Os homens podiam ser muito silenciosos às vezes. Alice queria saber se eu era capaz de adivinhar o que acontecia.
Isso é uma condição intrínseca ao gênero, coisa de homem.
Ele nem disse aonde ia.
Pode ser que ele não tenha ido a lugar nenhum. Já tentou ligar pra ele?
Ninguém atende.
Eu não sou a melhor pessoa pra dar esse tipo de conselho.
O que há de errado comigo? Por que eu demorei tanto pra aceitar que ele não liga mais pra mim? Droga, Gaspar. Por que os homens são desse jeito? Tô cheia disso. Vocês deviam ser todos castrados. O Bira prometeu que dessa vez ia chegar cedo e olha só o que aconteceu? Eu queria ter te procurado antes pra dizer tudo o que eu tô sentindo. Afinal de contas, nós somos amigos, não somos? Além disso, tu é a única pessoa que me escuta... O que eu devo fazer? Aquele filho da puta conseguiu o que queria: me deixou completamente dependente. Parabéns pra ele. O Bira é assim: se as coisas saem do jeito que ele quer, não há ninguém mais divertido pra se ter por perto. Agora, se não for assim, não há quem o aguente. Sei lá, ultimamente, o Bira anda absorvido.
Melhor não se preocupar demais.
Já tentei. Mas é a outra hipótese, a da traição, que não me deixa sossegada. Tô usando a blusa que ele me deu de presente. Como eu sou idiota. Fiquei tão ocupada em ficar bonita pra ele que acabei esquecendo que passar batom com os cabelos molhados dá azar. Pensei em pegar um táxi e encontrá-lo no trabalho. Pelo menos assim eu descobria se ele tá mentindo pra mim. Mas fiquei com medo... E se ele não estivesse lá, o que eu ia fazer? Depois pensei em ir pra tua casa, mas eu não quis te incomodar. Eu sei que tu também tem teus problemas.
É assim com todo mundo. Besteira, Alice. Tu deveria ter vindo.
Pois é, mas quando eu tava discando o número do táxi, algo incrível aconteceu. O Neves, que nem é disso, pulou no meu colo. “Gato idiota, o que foi que te deu?”, eu falei, tirando ele de cima de mim. E então quando eu fui ligar de novo, o Neves pulou no meu colo outra vez e começou a puxar os fios da minha saia com suas unhas afiadas. Eu não sabia o que tinha dado nele, mas certamente ele queria me dizer algo. Ou tu acha que eu tô ficando doida? Minha saia ficou arruinada. Se o Neves não fosse minha companhia mais fiel durante todos esses anos, eu juro que teria arrancado a cabeça dele. Depois que eu o afastei pra longe, ele ficou parado, me olhando, esperando que eu fizesse alguma coisa. Ainda puta da vida, tirei a saia e fiquei procurando outra coisa pra vestir. O gato enlouquecido, a saia estragada, os sapatos que não combinavam com nada: poucas vezes a vida tinha me dado tantos sinais pra que eu não saísse de casa.
        Deitada, Alice enrolava o cabelo com a ponta do indicador. Ao lado da cama Neves se enroscava em seus pés, miando como se pedisse desculpas. O batom brilhava nos lábios hirtos de quem considera as coisas com gravidade. Para se distrair um pouco Alice fez uma lista de tudo o que a incomodava naquele momento: a falta de sono; sentir-se só num lugar que não era seu; não poder ouvir o quanto tinha ficado bonita; a noite escorrendo lá fora; o fio puxado da saia; os três quilos que tinha engordado; a lembrança da primeira vez em que ela e Bira ficaram juntos (aninhado na bagunça de lençóis e travesseiros, Bira descansava confiante, apesar da precipitação com que tudo acontecera. Ainda ardendo de felicidade e de desejo Alice não conseguia ficar parada, escovando o cabelo, bebendo o resto do vinho e fechando portas e janelas para que a noite não acabasse tão depressa).
       Pedindo que Gaspar esperasse um pouco, Alice foi investigar o ruído insistente que vinha da lavanderia.
        Tem mais alguém aí contigo?
      Era só o Neves rasgando o lixo. Não sei o que deu nesse gato hoje. Tô com uma sensação tão estranha...
Isso passa... quer dizer, nem sei se passa. Falo por falar. O que eu acho de verdade é que o Bira não vale isso tudo.
Talvez você tenha razão... Eu preciso de um pouco mais de tempo pra decidir o que fazer. Além do mais, pode ser que eu esteja fazendo tempestade num copo d’água.
É, pode ser.
Com a boca aberta e uma das mãos metida dentro da bermuda frouxa, Denis se esparramava no sofá, roncando alto.
Ao chegar do trabalho no dia seguinte, encontrei-o mastigando um pedaço de pão seco. A cada mordida os farelos voavam para todos os lados. Em cima da mesa, a Olivetti seguia nos oprimindo com sua inocência mecânica. Alteando a voz, comuniquei a Denis que havia chegado a hora de ele sumir da minha vista. Ainda com os olhos grudados na televisão, pediu um pouco mais de tempo, apenas o suficiente para que terminasse de contar a história de como havia conseguido a máquina. Antes disso, ele me fez jurar que, independente do que dissesse, nada me faria mudar de ideia em relação a ela.
        Ao falar nos papéis deixados pelo morto, a velha encheu os olhos d’água. Havia fotos dele espalhadas pelos cantos da casa, sempre com o ar melancólico e o cabelo partido ao meio. Depois que ele partira, a solidão havia tomado conta de sua vida, ela dizia, cansada de ter que continuar por conta própria. Mesmo correndo o risco de parecer indelicado, Denis interrompeu seu lamento e voltou a falar de negócios, “Mas afinal de contas, quanto a senhora quer pela máquina?”. Surpresa, a velha levantou os olhos para ele e disse, meio sem jeito, “Meu filho, por mim, a máquina era sua de graça, porque tu parece um rapaz direito e de boas intenções, mas... repare que eu tô precisando do dinheiro, vivo nessa miséria aí que o senhor tá vendo... Que tal duzentos e cinquenta?”. Denis tentou argumentar, dizendo que ela nunca conseguiria encontrar alguém disposto a pagar o que estava pedindo. Por que não aproveitava a oportunidade, já que estava precisando tanto da grana, e não aceitava o que ele lhe oferecia? A velha, no entanto, estava irredutível. “Tá pensando que eu sou besta, rapaz?”, disse, sem disfarçar um risinho irônico. Já perigosamente perto de perder o controle, Denis tentou uma última oferta. “Meu filho, não dá mais pra baixar”, ela repetia pacientemente.
        Denis havia tentado de tudo para conseguir a máquina do jeito certo, mas a velha não estava colaborando. Antes de ir embora, Denis pediu que ela lhe mostrasse o banheiro. Falou de um jeito tão franco que a velha não viu problema em acompanhá-lo ao interior da casa. Denis, que a seguia de perto, se aproximou por trás e, tomando o cuidado de tapar-lhe a boca com uma das mãos, a jogou no banheiro, fechando a porta pelo lado de fora. Em seguida correu até o quarto e encaixou a máquina debaixo do braço. Como um gesto de boa vontade, tirou da meia uma nota suada de cinquenta e a depositou embaixo de um dos porta retratos. A velha se esgoelava toda, mas seus gritos eram abafados pelas paredes grossas.
       Ao contrário do que esperava, ninguém se esforçou em notá-lo, andando pelas ruas mal iluminadas com aquele objeto - misto de brutalidade e ternura - a tiracolo. Quando finalmente chegou em casa, suado e ofegante, Denis ainda pôde sentir o perfume de Dora, que havia saído há pouco para o trabalho. A noite estava abafada como o dia, com a diferença de um ventinho leve, vindo do mar.
        Com uma calma curiosa, Denis deu uma boa olhada na máquina, observando-lhe a cor, a firmeza das formas, a delicadeza de seu mecanismo interno. A sensação que tinha era a de que todas as histórias do mundo, as escritas e as não escritas, estavam ali, bem em cima de sua mesa, brilhando sob a luz da sala. Prendendo um resto de papel no rolo, Denis começou a acertar as teclas, pá, pá, pá, pá, mas logo ficou entediado.
        De manhã, quando acordou, Dênis foi passar um café para espantar o sono e, incrédulo, viu um homem largado no chão, sem camisa e com as calças no meio das pernas. “Maldita hora em que fui vender o revólver”, pensou. Tentou manter as mãos firmes, mas os tremores matinais estavam ficando cada vez piores. Chegando mais perto, Denis reconheceu os cabelos encaracolados, os dentes projetados para frente e soltou um “puta que pariu” de alívio. “Acorda, Jonas. Acorda, porra. Quem foi que disse que tu podia dormir aqui, seu merda”, berrou, enquanto sacudia os ossos do garoto, mergulhado num sono profundo e cheio de pesadelos. “Vamo Jonas, acorda. Tu não pode ficar aqui. Se a Dora te ver desse jeito, eu tô fodido, mermão”, insistia, sem sucesso. Denis então teve a ideia de despejar um balde d’água em Jonas para acordá-lo. “Acorda, porra. Dá o fora daqui. Isso. Vaza, vaza”, Denis continuava, rindo à solta da expressão aterrorizada no rosto do garoto. Terminando de se arrumar, ele guardou a máquina debaixo da cama, passou o rodo no chão, contou os trocados no bolso e saiu.
            







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quinze






O plano de Rute se desenrolava lentamente e pelo jeito, com um pouco de sorte, eu continuaria empregado até o fim do ano. Para o bem e para o mal era assim que as coisas funcionavam na repartição. Enquanto terminava de colocar o serviço em dia, pouco a pouco tudo ia voltando ao normal, e vez por outra eu arriscava um atraso ou uma saída antecipada. Numa terça-feira em que cheguei ao trabalho quase duas horas depois do horário de entrada, estabelecendo um novo recorde pessoal, a recepcionista me parou para avisar que no dia anterior uma mulher procurara por mim, “Ela apareceu aqui eram quase cinco horas, mas tu já tinha ido embora. Como era mesmo o nome dela, meu deus? Acho que era... Peraí um segundinho, eu devo ter anotado em algum lugar... Tá aqui. Achei. Marcela”.
Apesar de conhecer Marcela há muito tempo, nosso relacionamento não era do tipo que incluía a espontaneidade e a improvisação de uma visita surpresa. Na verdade, antes daquele dia, não me lembrava de nenhuma outra vez em que deliberadamente tivéssemos procurado a companhia um do outro ou uma oportunidade de ficarmos a sós. Ao invés disso, sempre que nos víamos, havia rostos conhecidos por perto e tudo se diluía em gargalhadas, cervejas, lamentos e calabresas brilhantes. E se nos esbarrássemos por acaso, cada um resumia a própria vida em dois minutos e desaparecia até o próximo encontro fortuito.
Difícil e analítica ao extremo, Marcela ficava de mau humor com facilidade e quando bebia se tornava irritantemente nostálgica. Apesar disso, a gente se dava bem. Tínhamos alguns gostos em comum e ela era uma das poucas pessoas que não dormia com meus filmes favoritos. Por tudo isso, achei por bem retribuir a surpresa e a procurei no dia seguinte.
Me disseram que tu apareceu lá no trabalho outro dia... Era alguma coisa importante?
Foi só um paciente que desmarcou e eu fiquei com o último horário livre. Resolvi te pegar pra uma cerveja, mas pelo visto cheguei tarde demais, tu já tinha ido embora.
Quando dá na telha, eu saio mais cedo. Se eu não fizer isso não aguento.
E ninguém diz nada?
Claro que diz, mas a gente tem que aprender a conviver com as críticas.
Cretino. Vai fazer alguma coisa no sábado?
Não.
Tá a fim de assistir filme? Tenho uns que ainda nem tirei da embalagem.
Claro, pode ser. Na minha casa ou na sua?
          Prefiro que seja na minha, se não tiver problema.
          É até melhor assim. Meu apartamento tá uma zona.
     Imaginei. Vocês garotos continuam agindo feito criança pelo resto da vida, só esperando que apareça alguém pra cuidar de vocês.
        O encontro marcado tornou os dias menos entediantes, e até mesmo as rotinas que julgava impossíveis de se alterarem foram ficando de lado. E se eu sofria de ansiedade, ela não vinha misturada ao medo, porque de fato não havia o que temer, protocolo a seguir, nenhum sistema de códigos que devesse observar com uma atenção neurótica, a fim de me certificar de que nenhuma deixa passaria despercebida. Tratava-se apenas de duas pessoas que queriam aproveitar a companhia uma da outra numa noite vadia, assistindo a um filme e conversando sobre qualquer coisa. Carimbando papéis e fazendo anotações, me distraía com os carros estacionados, com as pessoas saindo do elevador, Marcela falando sem parar, minhas mãos suadas, a bebida descendo goela abaixo depressa, a conversa rolando solta, descendo goela abaixo depressa, fácil, fácil.
        “Não vai acontecer nada”, era o que eu vivia dizendo a mim mesmo naqueles dias de espera, tentando manter a calma. Ainda assim, algo deve ter escapado que chamou a atenção de Cláudio. À sua maneira ele demonstrou preocupação e quis saber por que diabos eu estava agindo de modo tão estranho. Após alguma insistência, contei-lhe o motivo da minha recente apreensão e ele riu da minha cara como nunca e ficou tentando me convencer de que trepar com uma amiga não feria nenhuma regra moral. Na idade em que estava, ainda mais ferrado como ele só, Cláudio tinha que passar por cima de tanta coisa para conseguir uma foda - rugas, falta de dentes, carnes flácidas, varizes, joanetes – que aquele parecia um detalhe ridiculamente pequeno.
Deixa de ser besta, Gaspar. Trepar não é tão diferente assim de um abraço. É mais uma questão de grau do que de substância. Tu não abraça tuas amigas? Pois então... Sexo não passa de uma forma diferente de carinho.
A teoria é interessante, mas na prática não funciona desse jeito, Cláudio. E se depois ficar um climão entre a gente? Não, já disse. Não vai acontecer nada. Tudo que a gente vai fazer é assistir um filme. Qual é o problema?
Nenhum. Mas e qual seria o problema se no meio do filme, uma mãozinha sobrasse assim na perna da menina, depois subisse pro peitinho, descesse pra bucetinha... É assim que começa, como quem não quer nada.
Não sei, cara. Não gosto da ideia de misturar sexo com amizade. Não dá certo cagar onde se come.
Como é que tu sabe? Tu nunca fez isso antes.
Eu também não preciso me jogar do quarto andar pra saber que eu vou me foder todo se fizer isso. Além do mais... já aconteceu uma vez.
Deixa de putaria, homem. Tu tá dizendo que já se jogou do quarto andar?
Não, velho. Tô dizendo que eu já transei uma amiga.
Por que tu não me contou isso antes? E aí, o mundo nem acabou, acabou?
Foi um acidente. Nenhum dos dois planejou isso. Ela tava chateada com o Lucas, a gente tinha bebido demais e aconteceu.
E quem é esse Lucas?
É um outro amigo meu.
Agora tu vai ter que se explicar. Então tu fica aí todo cheio de frescura, “Não posso fazer isso, é errado, não sei quê”, mas não vê problema em comer a mulher do amigo. Sacanagem da porra. Se tu fizesse isso comigo, eu te partia a cara, moleque.
Mas eles nem tavam mais juntos.
Ele ainda gostava dela?
Gostava.
Então, não faz diferença. Puta sacanagem.
Se o Lucas desconfia que isso aconteceu, ele me mata. Tô falando sério. Ele tem duas vezes o meu tamanho... Mas o fato é que depois desse dia, eu e a Cris... a gente meio que tá se evitando. Sei lá. Pode ser só impressão minha.
Isso é porque tu coloca peso demais no sexo. Tem que tirar o peso do sexo, senão não levanta, entendeu? Não levanta.
Talvez Cláudio tivesse razão. Talvez a gente colocasse peso demais no sexo. Talvez ele não fosse mesmo tão diferente assim de um abraço, no fim das contas. Mais uma diferença de grau do que de substância. Porém, eu estava disposto a me manter firme na decisão de conservar as coisas em seus devidos lugares.
Eram precisamente oito e dezessete quando cheguei ao apartamento de Marcela, que ficava atrás de uma concessionária de carros na Aguanambi. Os dezessete minutos de atraso bem que poderiam se tratar daquele tempo que, nos encontros, se deixa passar de propósito, para fazer charme, dando a deliciosa impressão de calma e displicência, quando sem dificuldades se poderia chegar com uma hora de antecipação. Mas a verdade é que eu simplesmente havia tomado o caminho errado.
Ao abrir a porta, Marcela foi logo arrancando as sacolas das minhas mãos. Como prato principal eu trouxera uma lasanha de microondas pálida e sem gosto. Para acompanhá-la qualquer vinho que não tivesse gosto de vinagre. E por último, de sobremesa, uma caixa de chocolates, ainda que corresse o risco de soar um tanto erótico. Marcela usava uma blusa tão leve que os bicos dos peitos, fazendo força contra o tecido, se revelavam por inteiro, firmes e redondos como dois pequenos botões. Devo ter passado tempo demais concentrado neles, porque ela, que nunca se deixava vencer, me sorriu tímida e desconcertada, como se perguntasse, “Por que tá me olhando desse jeito?”. Para dissipar o clima perigoso que se formara, ou quem sabe para deixá-lo ainda mais saturado, Marcela me jogou de lado com um movimento de quadris e pediu que eu fosse colocando a lasanha para esquentar, enquanto ela ia ao quarto buscar algo para amarrar os cabelos. A essa altura o desastre parecia iminente. Contudo, ao ver o filme que ela tinha separado, fiquei um pouco mais tranquilo. Marcela perguntou se eu fazia alguma objeção a sua escolha e respondi que ela não poderia ter selecionado nada melhor.
Tem certeza? – insistiu.
Tenho sim – afirmei, balançando a cabeça.
Então vai, coloca aí. O controle tá em cima da TV – ela disse e, tentando disfarçar sua decepção com minha persistência, continuou – Eu sempre tive vontade de ver esse filme. Que bom que finalmente encontrei companhia.
Após meia hora de diálogos profundamente cansativos, Marcela se levantou e me chamou para ajudá-la com o vinho. Ao passo em que eu lutava com a garrafa, ela, se apoiando em meu ombro, subiu numa cadeira para alcançar as taças. A visão de suas pernas nuas colocou meus pelos em pé. De volta ao sofá, reduzimos a distância entre nós para menos de um palmo e prosseguimos até nossos braços se tocarem. O filme se arrastava na tela e eu tentava controlar minha impaciência – traduzida numa respiração pesada e sem ritmo – fingindo estar concentrado e como que inteiramente absorvido pela história do acerto de contas entre mãe e filha. Cansada daquele teatro mal encenado, Marcela tomou minha mão e a colocou em seu peito. Só faltou dizer, “E agora, entendeu?”. A partir daí tudo ficou tão fácil quanto andar de bicicleta. Os zíperes desceram velozmente, os botões deixaram suas casas, as roupas foram sendo colocadas de lado e, enquanto mãe e filha trocavam acusações, meu corpo celebrava o prazer de compartilhar o calor de outro corpo e meus lábios endurecidos por tantas palavras ásperas se intumesceram pelo toque de seus lábios. Com a mesma naturalidade com que tudo havia começado, nos deitamos no chão, meio vestidos, meio nus, desfrutando de um silêncio estranhamente confortável. Já tendo desistido do filme e com a cabeça apoiada em dos braços, Marcela passava os canais freneticamente, como se aquilo a ajudasse a dar vida a algum pensamento em formação. De repente, seu rosto se tornou expressivo outra vez e olhando para mim, falou:
Posso te fazer uma pergunta?
Não sei. Depende.
Não precisa ficar na defensiva... Tu tá bem achando que eu vou começar a falar sobre o que aconteceu. Não é nada disso. É só uma questão que me ocorreu agora... Tu acha que homens e mulheres se masturbam pelos mesmos motivos?
Nunca pensei sobre isso... Bom, acho que não... acho... É meio estranho conversar sobre isso, mas... eu posso falar por mim. Na maioria das vezes... Geralmente eu bato uma quando tô há muito tempo na seca e até as mulheres da repartição começam a parecerem menos feias ou então quando eu fico tenso e preciso relaxar. Acho que com as mulheres não deve ser muito diferente...
        Então tu acha que quando eu me masturbo é porque eu não consigo parar de pensar em pau? Ou então porque eu preciso aliviar a tensão, e aí vou no banheiro, baixo as calças e toco uma?
        Não... O que eu quis dizer é que... Ah vai, me dá um desconto. A psicóloga aqui é você.
         Então vou dizer o que eu acho.
         Sou todo ouvidos.
         Os homens se masturbam porque eles simplesmente não podem deixar de fazer isso. A masturbação masculina inclusive é o fundamento de qualquer relação monogâmica e por consequência da família. Eu li uma matéria que falava exatamente sobrei isso, homens casados que se masturbam. Lá dizia que quanto mais o homem se masturba menores são as chances de ele procurar outras mulheres fora do casamento. É óbvio. Vocês precisam se livrar de todo esse sêmen acumulado. É uma coisa orgânica, sentida primeira no corpo e só depois na mente, e na maioria dos casos sem necessidade de qualquer mediação afetiva. Com a gente, as coisas não funcionam bem assim, tem uma série de outros fatores envolvidos. Por exemplo, eu consigo passar uma semana sem sexo antes de começar a sentir vontade. Isso não quer dizer que a gente não se toque pelo puro exercício do prazer, mesmo que o desejo físico não esteja ali tão presente. É só que a mulher em geral não é sugada por esse vórtex primitivo que faz com que vocês esqueçam até do próprio nome. É claro que isso pode acontecer, mas é difícil. Na maior parte do tempo a gente consegue manter o controle. E quando a gente se toca é sem tanta pressa de chegar ao final e há uma espécie de ternura que se manifesta até na maneira como a mulher sente o próprio corpo. Diferente de vocês, nas nossas fantasias, antes de um pau há sempre um rosto e uma voz e isso é o que é mais excitante. Uma vez, preciso confessar isso...  








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dezesseis






Na esquina de uma rua movimentada, um bando de velhos barrigudos se servia de cachaça, tentando se equilibrar em cima das cadeiras. Pregados nas paredes, quase do lado de dentro, quase do lado de fora do bar, os alto-falantes tocavam canções tão mordidas de amor que chegava a doer.
Há poucos metros dali, no casarão onde acontecia a festa, as pessoas circulavam num fluxo perene, à exceção de um cara muito alto e muito magro que, encostado à parede, com o cabelo bagunçado e um cigarro achatado nos lábios, ria ironicamente para dentro. O chão de tacos, mesmo sem o brilho de outros tempos, por sua presença e austera, dominava o ambiente, e só de olhar para ele tinha-se a impressão de que o mundo era um lugar sólido. Nada preocupado com isso, Denis mirava a entrada, ansioso por reconhecer meu rosto no meio da pequena multidão. Se esgueirando por entre corpos suados e puxando uma garota pelo braço, fez sinal para que eu voltasse e o encontrasse do lado de fora.
Escuta, se tu pudesse me adiantar o dinheiro hoje...
         Peraí. Cadê o Eduardo?
        Aquele teu irmão é um bicho escorregadio, Gaspar. Fui na Guidinha como eu tinha te prometido, mas no minuto que eu virei pra conversar com a Bete aqui, o cara sumiu, desapareceu.
          Como é que tu foi deixar isso acontecer?
         Eu não podia sair arrastando o Eduardo à força. Se eu fizesse isso corria o risco de não sair vivo. Aquele puteiro é a maior boca de confusão, Gaspar. Lá vai gente de todo tipo. Uns até armados. Muito policial viciado também anda por ali. Eu não podia dar esse mole. Fiz o que deu pra fazer.
Mas o trato era que tu atraísse o Eduardo pra cá, não importava como. E você não fez isso, fez?
         Não, mas... Tu tá querendo me foder, Gaspar? O trato era que eu achasse o Eduardo e depois trouxesse ele pra cá. São duas coisas diferentes. Eu não descobri onde é que ele tava? Pois então. Tu vai ter que me pagar pelo menos metade da grana.
         Já disse. Não foi assim que a gente combinou.
        Tá bom, tá bom. Olha, aqui não é a hora nem o lugar pra falar sobre isso. Depois a gente se acerta. Me vê aí o que tu ainda me deve pela máquina. A Bete aqui tá doida pra se divertir.
        Quantos anos tem essa menina? – perguntei, abrindo a carteira e puxando uma nota de cinquenta.
          E o resto?
         Não tem resto.
         Tem certeza?
         Absoluta.
         Diz pra ele quanto anos tu tem, Bete.
         Dezoito.
         Tá vendo?
         E tu conferiu a identidade?
       Qual é a tua, cara? Se ela disse que tem dezoito é por que tem dezoito. Quando é que tu vai aprender a confiar nas pessoas?
         Só tenta pegar leve com ela.
         Não precisa se preocupar. A Bete já viu muito mais coisa do que tu imagina.
A festa alcançou seu ponto máximo quando uma mulher começou a dançar freneticamente, deixando as batidas para trás. Nada a poderia segurar, nem mesmo as roupas - último obstáculo entre ela e a música -, tiradas com uma urgência feroz. Após se livrar do sutiã, mostrando os seios morenos e de auréolas escuras que pulavam para cima e para baixo, um sujeito corpulento e com cara de poucos amigos veio abrindo caminho e a envolveu num abraço que a deixou paralisada, apesar da força que fazia para se soltar. Se Eduardo estivesse ali e calhasse de ser um dia daqueles, ele teria arrancado as roupas e dançado e se derramado em cima dela, os olhos inquietos e perturbadores. Mas quando a consciência de si cozinhava no caldo ruim de suas vísceras, nem mulheres nuas, nem a companhia dos amigos, nem o cheiro do asfalto molhado, nem os sintéticos, nada, força nenhuma era suficiente para movê-lo e então ele se escondia como um bicho acuado e esquecia até as palavras, como se não passassem de fragilidade humana. Era assim desde pequeno. Bastava quebrar um dos jarros que enfeitavam a mesa, em suas corridas loucas pela casa, de braços abertos na esperança de que algum vento o levasse longe, para que Eduardo se encolhesse debaixo da cama e ficasse assim horas a fio. Só abandonava o esconderijo quando não suportava mais o som retumbante de seu coração apressado.
Como o recheio de uma torta, a música e o emaranhado de vozes preenchiam cada espaço do casarão. Denis e a garota haviam sumido, desaparecido no ar. Cansados daquela festa idiota, os dois deviam estar longe, trepando em algum buraco de merda. Eram poucos os momentos em que a vida fazia sentido e estar ali não era um deles. Passando pelo cara magro e assanhado -  o cigarro achatado na boca, o pé colado na parede, o risinho irônico davam a impressão de que a qualquer momento ia dizer uma coisa importante, o que nunca acontecia - cheguei ao carro, estacionado na parte baixa da rua, onde se encontravam os velhos beberrões. Só não me juntei a eles por excesso de amor próprio, esse bastardo que irá me impedir de descobrir o porquê de tudo isso um dia.
Descendo pela contramão, não tomei o caminho de casa. Ao invés disso, dirigi até o prédio abandonado pelo qual eu e Eduardo sempre cruzávamos voltando da escola, encantados com seus muros escurecidos e suas colunas de pedra. Com os faróis baixos o carro deslizava pela rua deserta e pouco antes de chegar à esquina, olhando pelo retrovisor, avistei o vulto de um homem escalando as lanças enferrujadas do portão. Pela agilidade e rapidez com que subia devia ser alguém acostumado a fazer aquilo ou então qualquer coisa que não era desse mundo. Tendo alcançado a rua, ele se aproximou numa corrida sofrida e desengonçada, e sem desligar o motor esperei até que pudesse distinguir os contornos de sua figura.
Após vários quarteirões e outros tantos sinais vermelhos, chegamos a meu apartamento. Os passos de Eduardo pareciam querer testar a firmeza do chão. Puxando o ar, ele começou:
Eu me sentia seco, entendeu? Seco. Alguma vez tu já se sentiu assim? Aquelas paredes altas fazem a gente pequeno ali dentro. O cheiro de merda sufoca. A luz mal entra pelas janelas quebradas. O vento faz a poeira dançar. Os bichos com suas patinhas miúdas vão de um lado pro outro e o som que fazem é tão alto que às vezes penso que vou enlouquecer. O Lucas viu, ele sabe. É tudo culpa minha. Merda. Parece que tem um liquidificador dentro da minha cabeça. Onde fica o botão pra desligar essa porra? Tu disse que tudo ia ficar bem. Mentiroso. Não consigo mais sentir amor por nada, por nada. Sentei debaixo da luz e esperei, porque os ratos podem ser assustadores. Quando voltei a abrir os olhos, pareceu natural... Havia pegadas no chão e também pregos e pedaços de madeira por todo lado. Quando fui chegando perto... Eu vi, Gaspar, era ele, o homem que eu achei que tivesse matado. Eu sabia que não devia ficar mais nem um minuto ali, eu sabia. Tudo vai ficar bem. Mentira. A respiração de repente se tornou curta e meus pulmões eram como duas paredes bloqueando a passagem do ar. Eu tinha que sair, desaparecer. O homem continuava ali, parado, sem dizer nada. Tu não faz ideia do que é ter alguém olhando pra você como se fosse te matar. Não tinha mais nenhuma dúvida. De algum jeito ele ia acabar comigo. Então fechei os olhos e corri. Corri até a saída, destruindo tudo. Alguns gritos se levantaram do chão, mas eu não tava nem aí, só queria dar o fora. Perto do portão, acabei esbarrando nele. O filho da puta era duro como uma pedra. Por pouco não cai. Tá vendo? – Eduardo levantou a camisa para mostrar a enorme mancha roxa que coloria seu ombro. – Isso prova tudo e ainda assim tu não acredita... Tu é igual aos outros, Gaspar. Um filho da puta como todos os outros. Não sei como consegui alcançar a janela e escalar o portão. Aí vi um carro passando e... era você... O segundo milagre na mesma noite fodida.
            Eduardo jogou a cabeça para trás, arremessando os chinelos para longe. Ficar com os pés descalços o ajudava a se acalmar. A TV a cabo transmitia um documentário sobre Ali e puxei uma cadeira para perto dele. Eduardo adormeceu com as pernas dobradas e a boca aberta, exatamente como fazia quando era apenas um menino, metido num pijama do homem-aranha, dividindo comigo pela enésima vez o pornô surrado que nossos pais escondiam debaixo da cama, dentro de uma caixa de sapatos.








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dezessete






Há mais de uma semana Gaspar chegava do trabalho, colocava a roupa de casa, um calção velho e surrado, enfiava a bunda suada na cadeira e começava a bater à máquina, atrapalhando o precioso silêncio de Eduardo. Alheio a esse novo hábito, Cláudio continuava tentando arrastá-lo ao Disney Lanches depois do expediente, apesar dos ventiladores quebrados e das baratas cascudas que infestavam o lugar. Se ele ao menos tivesse a cortesia de esperar um pouco, só até que aquele capricho passasse... No entanto, Cláudio insistia, ignorando as desculpas e os motivos de sua abstinência repentina, e à medida que Gaspar lhe recusava a companhia, mais os convites iam ficando parecidos com súplicas, coisa que nem era de seu feitio, assim como também não o era o ar carregado, taciturno, de quem precisava desabafar. Por tudo isso, diante de uma última e decisiva investida, não pôde mais enxotar o velho amigo. Se Cláudio não dividisse aquele fardo com alguém, nunca mais voltaria a dormir, sufocado em cima do colchão fino e duro onde despejava os ossos. Pelo menos assim parecia a Gaspar.
Antes de começar, Cláudio pediu uma cerveja e um punhado de linguiça para aplacar a dor de estômago e foi descascando camada por camada o problema que tanto lhe afligia. Era o mês de junho e as festas de São João pipocavam por todos os lados, especialmente nos bairros mais tradicionais, como o Montese. À convite de Raí, companheiro antigo de bebida e mulheragem, Cláudio foi assistir a uma quadrilha improvisada, há dois quarteirões da Costa Mendes, e como a festa iria terminar tarde, por volta das duas da manhã, e o primeiro ônibus não passaria antes das cinco e meia, ficou acertado que ele cairia bêbado na casa do amigo, um dos organizadores do festejo. Lá pelas tantas, Cláudio grudou a vista na mulher que, vestida de noiva, batia palmas e dançava num passinho miúdo. A julgar pela firmeza tardia do colo e pelos pés de galinha enfeitando o canto dos olhos ela já devia passar dos quarenta. Cláudio tratou logo de pedir informações a Raí, que, mesmo terrivelmente ocupado na tarefa de organizar a rifa para mais tarde, confidenciou-lhe que Deusa alugava o segundo andar de uma casa próxima a sua e que apesar do filho, um garotão de dezoito anos criado pela avó, nunca casara. Diziam as más línguas que a mulher era viciada em sexo e que já tinha dado para metade dos homens da rua. Raí mesmo já havia navegado aquelas águas, ou melhor, se queimado naquela fogueira de labaredas incontroláveis. Na ânsia de satisfazer Deusa e seus pedidos por mais, quase arrebenta o coração. A pressão arterial subiu tanto que acabou indo bater no hospital com um princípio de enfarto. Que Cláudio não fosse se meter a besta, Raí alertava. Do contrário poderia acabar se estrepando.
Por outro lado, Raí conhecia a índole do amigo, sabia que ele não era de desistir de um rabo de saia facilmente, ainda mais quando as chances de sucesso eram tão grandes. E além disso não havia motivo para preocupação. Apesar dos cigarros, o coração de Cláudio andava bem, batendo com a mesma força de quando era garoto, e isso por si só lhe conferia o direito de arriscar. Ajudado pelos braços longos, ele foi abrindo passagem entre as pessoas e, com a vista livre de obstáculos, sem mais se conter, mostrou à Deusa os dentes amarelados. Quando a mulher sorriu de volta ao passar por ele, deixando no ar um leve cheiro de alfazema, considerou que não havia mais motivos para duvidar de que a sorte estivesse mesmo do seu lado.
A dança continuava a topo vapor e, depois do casamento dos noivos, a encenação se desfez em uma grande roda, comandada por seu Carlindo, que exibia orgulhosamente o bigode recém-pintado. “Olha a chuva”, ele gritava e imediatamente todos levantavam as mãos. Por volta das onze horas, terminada a rifa - por uma dessas coincidências inexplicáveis o grande prêmio da noite, uma televisão de vinte e nove polegadas, havia ficado com a mulher de Raí – os pais levaram as crianças para casa e o São João se transformou numa festa de adultos e jovens namorados. Embalados pelo forró, os pares iam se formando entre as mesas de plástico.
No meio da algazarra, Cláudio saiu a procurar Deusa entre os rostos transidos de alegria e a encontrou encostada num carro, sozinha, empunhando uma lata de cerveja. Ela o reconheceu na hora e não foi preciso muito esforço em tirá-la para dançar. Algumas músicas depois, a fragrância que subia de seu pescoço úmido, morna como um vapor, envolveu Cláudio de um jeito que... Ela o estava deixando louco. Perdendo o pouco da reserva que ainda lhe restava, a trouxe para perto de si, mais e mais até não sobrar qualquer espaço entre eles. Enlevado pela antecipação de tomá-la em seus braços, Cláudio ficou duro como uma pedra. Apesar disso a coxa macia de Deusa continuou entre as suas, conferindo o aperitivo do que o esperava.
Tudo ia conforme o planejado e por isso Cláudio tomou um susto quando Deusa avisou que pretendia ir embora. Ele então se aferrou a seu corpo, repetindo todos os galanteios de seu vasto arsenal. Porém, de nada adiantou. Quando a música terminou, Deusa se despediu com um sorriso tímido e lhe deu as costas. Cláudio estava bêbado demais, excitado demais, impregnado demais com seu cheiro para permitir que ela o abandonasse daquele jeito. Sem medir as consequências e ignorando os conselhos de Raí, ele a seguiu até em casa. A vinte metros do paraíso, parou apoiado a um poste, aguardando pelo sinal. Como para atiçá-lo, Deusa abria o portão lentamente, virando a cabeça para se certificar de que ele continuava esperando. Nos lábios, o mesmo sorriso tímido de antes.
De mãos dadas, os dois subiram por uma escada lateral que dava acesso ao segundo andar da casa. Apesar da cerveja, ou mesmo por causa dela, o sangue velho e viscoso de Cláudio fervia dentro das veias. Bastaria Deusa se livrar das roupas que lhe escondiam o corpo, cujas formas suas mãos haviam laboriosamente tentado adivinhar, para que a revolução de fluídos culminasse outra vez numa rigidez imponente. Os anos de abuso haviam cobrado seu preço - a úlcera estourada e o catarro escuro que vinha junto com a tosse não o deixavam esquecer disso - mas o pau, milagrosamente, continuava altivo, pronto para lhe servir sempre que precisasse. Cláudio se gabava de nunca ter deixado uma mulher na mão, a não ser, é claro, da vez em que fumou um mesclado que lhe sugou as forças por quase uma semana. Mas de cara limpa, isto é, sem contar o álcool, nunca falhara. E agora não poderia permitir que fosse diferente, pois sabia que depois do primeiro tropeço o sujeito nunca mais é o mesmo. Por isso, respirou fundo, pensando consigo que tudo que precisava fazer era manter a calma e continuar tentando. Ah, e como tentou. Primeiro com as roupas e depois sem as roupas; de frente e de costas; de um lado e de outro; na cama, na rede e até no chão, apesar dos joelhos que, cansados, tremiam pedindo clemência. Ele já não sabia mais o que fazer. E o pior é que não podia sequer colocar a culpa em Deusa. Seu corpo resistira bem ao tempo e não havia sido deformado pela gordura, a qual servia antes para acentuar-lhe as curvas e torná-lo ainda mais desejável. O que mais um vira-latas como ele poderia querer? Para ser sincero, Cláudio nunca encontrara mulher tão paciente, tão ansiosa em agradar. Mesmo correndo o risco de ser confundida com uma puta, uma mulher qualquer, ela tentou toda espécie de jogos e fantasias eróticas para consumar a noite. Contudo, nada foi capaz de trazer à vida o membro inerte de Cláudio.
Os olhos de Deusa, antes cheios de desejo, haviam se tornado frios e acusadores. Humilhado, Cláudio esteve perto de chorar, como se fosse um menino. “Na hora H, não consegui levantar. Será que foram as cervejas? Mas eu já perdi as contas de quantas vezes eu fiz isso antes. O que é que tu acha, Gaspar? Será que... Será que meu tempo já passou?”, quis saber, esfregando o rosto com as mãos. “Isso é besteira. Acontece na vida de todo homem, mais cedo ou mais tarde. Vai na casa dela outro dia, de preferência sóbrio e manda ver”, Gaspar afirmou com um entusiasmo frio, sem acreditar em uma só palavra do que acabara de dizer. A seguir, levantou o braço para pedir a conta, de saco cheio de as pessoas à sua volta lhe trazerem tantos problemas. Se ninguém o ajudava com os seus, por que diabos ele deveria se preocupar com o dos outros?
Percebendo seu desconforto, Cláudio achou por bem não prosseguir. Se o amigo não estava disposto a ouvir os lamentos de um velho lascivo, não seria ele que iria forçar a barra. Afinal, vai ver Gaspar é que estava certo. Há certas coisas que um homem deve guardar para si. Enquanto ele mantinha os olhos baixos na espuma que subia rapidamente pelo copo, Gaspar ergueu o braço outra vez, já perdendo a paciência.
Dias depois, Cláudio fez outra investida, não na mulher, mas em Gaspar. Ele não fazia por mal, mas é que realmente precisava desabafar com alguém. Aquela brochada o vinha afetando mais do que podia imaginar. Sem coragem de dizer o que pensava, que Cláudio estava velho demais para se preocupar com essas coisas, Gaspar continuava tentando evitá-lo. Um golpe baixo, é verdade, mas se ainda quisesse ter alguma chance de ser feliz, era melhor começar a pensar um pouco mais em si mesmo.
       Na outra ponta de sua vida, os ventos começavam a mudar de direção. Fontes confiáveis asseguravam que as coisas entre Alice e Bira tinham esfriado de vez. No mês seguinte, ele partiria para Belo Horizonte, sem data para voltar. Iria cuidar pessoalmente da abertura da primeira filial da agência e, se fizesse tudo certo, o futuro lhe apareceria brilhante pela frente. Perto de completar quarenta anos, Bira estava ansioso por novos desafios. Na vida de todo homem chega o momento em que ele precisa ter coragem de dar um passo além, se quiser se ver livre da ameaça de uma vida mediana. E a hora de Bira tinha chegado, podia sentí-lo nos ossos. Alice não deveria tomar aquela decisão como algo pessoal. Era uma característica sua, isso de não se acomodar, de enjoar fácil das coisas, não que ele estivesse enjoado dela, uma mulher incrível e cheia de vida. Além do mais, não era nada definitivo, quer dizer, quando ele voltasse, se ainda estivessem a fim, poderiam retomar de onde haviam parado. De qualquer forma, nada impedia que continuassem amigos.
         Alice esperava secretamente que no meio de todas aquelas desculpas cretinas Bira mudasse de ideia e dissesse, “Quero que tu venha comigo”, e então, sem piscar, como naqueles dramalhões açucarados, ela responderia “É tudo o que eu mais desejo”. Ela não estava brincando. Seria capaz de deixar tudo para trás – Neves, o emprego, os amigos – só para ficar com ele. Como tinha sido idiota. Bem que a mãe lhe dissera para não se entregar tão depressa. Bem que a mãe lhe dissera.
      Enquanto isso, Lucas estava de volta, depois de passar um tempo em Sobral a trabalho. Em condições normais dificilmente teria aceito a proposta, por mais que estivesse precisando do dinheiro. Era apegado demais a sua rotina de vícios, às noites no Januário cercado de amigos ocasionais, ao perfume das putas que se ofereciam nas calçadas, ao barulho da rua para largar tudo ao primeiro chamado. O que o motivou ir foi Cris, na verdade. Depois de tantas idas e vindas, atropelos e palavras desperdiçadas, ela havia oficialmente decidido seguir em frente. Estava saindo com um protomacho que a ajudara a trocar o pneu do carro, vejam só, quando voltava de uma festa. Fosse como fosse, Gaspar lamentou não poder fingir que ele continuava longe demais para lhe causar problemas. Na maioria das vezes em que Eduardo se via engolido pelo próprio fogo, Lucas havia sido aquele que riscara o fósforo, e seu retorno, portanto, logo quando as coisas começavam se encaixar, prometia colocar tudo a perder.
Como há muito não ocorria, Eduardo vinha dormindo noites inteiras, e não raro Gaspar já o encontrava esparramado no sofá, com o controle da TV na mão, ao sair para o emprego. Protegido dentro do apartamento, aos poucos ele ia perdendo a gravidade tão característica, voltando a ser o menino calado e contemplativo que Gaspar havia se acostumado a tomar conta. Quem o visse assim tão calmo jamais desconfiaria das loucuras de que era capaz. Até mesmo Gaspar se pegava pensando às vezes, ao olhar para o irmão, se todas aquelas confusões em que se metia haviam realmente acontecido. A sensação que possuía era a de que Eduardo, enfim, principiara a ganhar raízes, e para que continuasse desse jeito era crucial que mantivesse Lucas afastado. No entanto, o que ele poderia fazer para cumprir tal encargo? Com adiar o inevitável? A Gaspar faltava a previdência e, mais importante, a disposição para levar a cabo o que precisava ser feito, o que tornava sua omissão ainda mais culpável. Ele sabia disso. Porém, a certeza do desenrolar dos fatos o fez baixar a guarda, e Gaspar não ofereceu qualquer resistência quando Eduardo veio lhe comunicar, dias depois, o convite que fizera a Lucas.
        Em um dia despretensiosamente comum, duas pancadas cheias fizeram tremer a porta. As dobradiças velhas e já sem alguns parafusos mal puderam conter a intensidade do impacto, que despertou Gaspar da contemplação solitária de um fim de tarde quente e viscoso, em que tudo parecia prestes a derreter. Não fosse isso quem sabe por quanto tempo ele teria permanecido assim. A mosca em sua perna direita esfregava as patas, a cumprimentá-lo por aquele pouso tão seguro e acolhedor. Mas as batidas, sempre aos pares, se repetiam, ecoando pelas paredes. Do quarto, sentado no meio do colchão improvisado, como se em cima de um tapete voador, Eduardo gritava, “Abre, é o Lucas”.
Gaspar recebeu-o sem falsos sorrisos e sem meias palavras, embora tivesse preferido algo mais contundente. No estado em que Lucas se encontrava, contudo, não teria feito a menor diferença se o tivessem saudado com uma buquê de flores ou arma apontada para a cabeça. Ele estava um desastre. Os olhos vermelhos e injetados, o cabelo assanhado, a blusa aberta até o umbigo e o cheiro de bebida indicavam que não dormia há dias e que só agora, vencido pelo cansaço, começava a desacelerar. Gaspar não sabia o que ele prentendia com aquela visita, mas uma coisa era certa: mesmo em frangalhos, Lucas ainda podia ser perigoso. Assim que colocou os pés para dentro, foi chamando por Eduardo, que apareceu sorrindo e com os olhos muito acesos, movendo-se em direção a seu abraço caloroso e cheio de segundas intenções. Ao se desvencilharem, num momento de distração de Gaspar, tão breve quanto um piscar de olhos, Lucas entregou a Eduardo, com a fluência e a perfeição de um número exaustivamente ensaiado, um pequeno presente, quase invisível.
O suor escorria abundante de sua testa, e tendo Eduardo retornado ao quarto, ele e Gaspar foram sentar na varanda. Aos poucos, o impulso inicial de enterrar os nós dos punhos nas carnes de Lucas havia passado, embora a reserva e a invencível sensação de superioridade que possuía em relação ao amigo continuassem firmes como nunca. Para se divertir, Lucas gritava com as pessoas que passavam na calçada, morrendo de rir dos rostos coléricos e dos dedos levantados em resposta. Como se tomado por uma recordação repentina, a certa altura, começou a apalpar os bolsos, vasculhando em seguida dentro da mochila, de onde puxou um cigarro amassado e um pedaço de papel.
Toma. Fiz pra ti – falou, estendendo o papel dobrado a Gaspar. – Enquanto eu tava pintando aquele mural de merda, entre umas e outras, surgiu a ideia pra esse desenho. Tu pode colocar numa moldura e pendurar aqui na sala. Tá vendo? Tu fica dizendo por aí que eu não presto, que eu sou um escroto, mas não é verdade, pelo menos não totalmente. É aquela bicha do João que fica te envenenando contra mim. Eu sei.
Tu não sabe porra nenhuma, Gordo. Porra nenhuma.
Ei, eu não gosto que me chamem assim. Qual é o teu problema? Eu acabei de te provar que eu sou um bom amigo e é isso que eu ganho em troca? Eduardo – Lucas berrou com toda a força que ainda lhe restava – diz aí pro teu irmão: eu sou ou não sou um bom amigo?
Bom, muito bom – Eduardo respondeu do quarto.
O garoto aí sabe do que eu tô falando. Tu devia aprender com ele... Tá a fim de um cigarro?  Sabe, tô de saco cheio de tudo, cara. Só o que eu queria agora era ir pra casa e dormir por uma semana. O que foi que achou do desenho?
Legal.
Legal? Isso não é resposta.
Qual é a diferença?
Eu realmente quero saber o que tu achou da porra do desenho. Será que é pedir demais, seu bundão? Por quê é tão difícil conversar contigo?
Você quer saber o que eu achei? Pois eu vou dizer. Achei uma merda. O desenho é feio pra caralho. Satisfeito?
É bom ver que corre um pouco de sangue nessas veias, ainda que seja sangue de barata. Se não gostou, devolve.
Vai pegar – Gaspar amassou o papel com umas das mãos e o arremessou da varanda.
Não acredito. Tu jogou fora, filho da puta. Agora tu vai ter que pagar por ele. 
Por aqueles rabiscos? Nem fodendo.
O que é que tu entende de arte, seu burguês de merda? Eu quero meu dinheiro.
Sabe de uma coisa, é melhor tu sair daqui antes que eu comece a ficar com raiva.
        Lucas se levantou, trôpego. Deus sabe onde ele teria deixado cair as chaves de casa. Puxou outro cigarro do bolso e o colocou na ponta dos lábios, enquanto tentava colocar a chama do isqueiro na posição correta. Andou em direção à porta bruscamente, sem se preocupar com as expressões comuns que marcam as despedidas. Nenhum “Tchau”, “Até logo” ou “A gente se vê por aí”. As pernas haviam ficado tão pesadas que ele temia não conseguir chegar em casa a tempo. Esgotado, dormiria na rua um sono profundo e sem sonhos. Da varanda, Gaspar o viu atravessar a rua, protegendo os olhos com as mãos, e assim de longe, misturando-se às outras pessoas, ele não parecia tão mal.
Gaspar sentia o coração bater em descompasso. Tinha ânsias de gritar: “Foda-se Alice. Foda-se Bira. Foda-se Lucas. Foda-se Eduardo. Foda-se João. Fodam-se todos vocês”. Em momentos assim, ele se aferrava a qualquer pensamento que o ajudasse a chegar inteiro ao final do dia e, em seu desespero, às vezes pensava encontrar um ou outro que merecia ser salvo do esquecimento. Com um pouco de cuidado e alguns ajustes, acreditava, poderia transformá-los numa daquelas belas frases de efeito que são lançadas no meio de jantares e encontros. E então com uma letra muito humana, Gaspar escrevia o que lhe vinha à cabeça da melhor maneira que podia. Dias depois, ao verificar no que aquilo se transformara, ficava surpreso de ver como era fácil enganar a si mesmo.
      Naquela noite plácida, entretanto, nenhum escrutínio autoconsciente foi capaz de suplantar o desejo sujo e mal educado de inundar o mundo com sua merda, num grande dilúvio que marcaria um novo começo, cheio de possibilidades jamais imaginadas. Enquanto isso, à suas costas a porta se fechou com enorme força. Ainda assim, continuou onde estava, apenas esperando o momento em que Eduardo passaria correndo entre os carros, de volta às rua e à cidade que o compreendia. Apesar de tudo era bom estar sozinho outra vez.







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dezoito






Dizem por aí que lutadores não são boas fodas. Mas será que de todas as semelhanças que existem entre lutadores e escritores, essa seria uma delas? Bater à máquina pequenos contos eróticos, quando isso na verdade não passava de um disfarce para vigiar a porta sem levantar suspeitas em Eduardo, por mais que fosse divertido, não fazia de mim exatamente um escritor. Ainda assim achei que a pergunta se aplicava ao caso.
Depois de algumas semanas, quando percebi que Marcela não voltaria a me procurar, uma dúvida mesquinha começou a crescer e jogar sua sombra em mim: por que ela não gemia? Por que não fazia nenhum barulho, nada que indicasse “É por aqui” ou “Está perto”? Embora a lembrança daquele dia estivesse já meio apagada, exigindo um esforço contínuo da imaginação para completar os espaços vazios, esse fato não me saía da cabeça. Na ânsia de estabelecer uma ligação com Marcela, tudo o que havia para me guiar eram as mudanças sutis no ritmo de sua respiração, o que de resto poderia não querer dizer muita coisa, e todo meu alento residia unicamente em sua sinceridade ferina. Se eu tivesse sido tão ruim, assim achava, ela teria dado um jeito de me deixar sabendo, fosse como fosse. De todo modo, apesar da força desse argumento, por causa de uma maldita conversa que tive com Cláudio, acabei não resistindo ao desejo de procurá-la e tirar a história a limpo.
          Você já esteve com uma mulher que não fizesse barulho algum, quer dizer, nenhum som, nenhum gemido, que...
      Nada? – Cláudio interrompeu, coçando o queixo como se estivesse realmente intrigado.
       Nada. A única reação perceptível era que às vezes ela respirava mais profundamente, como se faltasse o ar. Mas podia ser que ela só tivesse entediada.
        O que eu posso dizer? Nunca tive uma mulher que não fosse barulhenta. Como tu acha que eu acabei ficando meio surdo?
          Dá um tempo, Cláudio.
       Bem – ele disse, assumindo um tom professoral que combinava com o bigode cinzento e com o modo como balançava os braços - cada mulher tem um jeito diferente de fazer amor. Pode ser que essa aí seja das tímidas.
         Não, definitivamente não é esse o caso.
         Certo, então ela não é tímida. Mas também não parece ser o tipo de mulher que faz um carnaval na cama e fala um monte de sacanagem no teu ouvido e te deixa maluco. Puta que pariu, agora tu me fez lembrar da Deusa.
         A gente pode se concentrar no meu problema?
         Então, como eu ia dizendo... Tu sabe como são as mulheres. Qualquer coisa fora do lugar, por menor que seja, basta pra elas que percam a vontade. Experimenta dizer a coisa errada e veja o que acontece. Tem certeza de que tu jogou as cartas direito?
        Se fosse pra apostar, diria que sim. Se eu tivesse feito ou dito algo que a tivesse incomodado, a gente não teria chegado até o final. Isso eu posso dizer com segurança.
          Como tu pode ter tanta certeza?
          Porque a gente se conhece há muito tempo, Cláudio. Tô falando da Marcela.
        Que belo hipócrita tu é, hein Gaspar. Pra quem era tão veementemente contra a ideia de comer as amigas, até que tu não tá se saindo mal.
Aceito a crítica, mas agora isso realmente não vem ao caso.
Sinto muito, filho – Cláudio fez outra de suas pausas dramáticas. - Juro que tentei ajudar, mas se tu quer saber... acho que a verdade nua e crua é que tu não comeu a moça direito – sentenciou por fim, baixando a voz, quase com pena.
          Não fode comigo, Cláudio.
Tu quer a verdade ou quer se sentir bem? Pelo sim, pelo não, acho melhor ver isso aí direitinho. Era o que eu faria no teu lugar – falou, encerrando o assunto.
Descobrir que Cláudio estava certo seria um duro golpe em minha masculinidade já tão claudicante, mas ainda assim eu precisava saber. Por dois dias seguidos o telefone chamou por Marcela desesperadamente e até o fim, deixando-a terrivelmente assustada com a possibilidade de que eu tivesse entendido tudo errado e de que fosse tolo o bastante para acreditar que nossa noite juntos havia significado alguma coisa. Marcela jamais retornou aquelas ligações e somente tempos depois, numa circunstância bastante insólita, é que tornamos a nos encontrar.
Numa madrugada em que eu acompanhava o passar das horas resignado, mas ainda acalentando o desejo escondido de pregar o olho antes que o sol surgisse no horizonte, fui surpreendido pelo toque do telefone, alto e estridente, em meio a um silêncio de dimensões marítimas. Do outro lado da linha, um policial descarregava seu português bruto em cima de mim, falando tão rápida e atropeladamente que cheguei a cogitar estar sendo vítima do trote de algum bêbado desocupado. Embora quase todo o resto tenha se perdido, pude distinguir com clareza as palavras “Eduardo” e “preso”.
Não sei por que, no caminho até a delegacia, lembrei do dia em que Eduardo quase matou um colega de classe. O garoto havia passado meses tirando sarro dele pelo modo como ia à escola: assanhado, a farda amassada e suja, os olhos cheios de remela. Eduardo ouvia tudo calado, sem esboçar qualquer reação, como se os insultos não fossem direcionados a ele, e de resto exibia um comportamento exemplar. No entanto, numa terça-feira, logo depois das férias de julho, quando o garoto voltou a desfiar seu rosário de imprecações contra o visual grunge de Eduardo, foi recebido com uma fúria inesperada e também com uma saraivada de socos e pontapés que o levaram ao chão inconsciente e ensanguentado. Se eu não fosse maior e mais forte do que Eduardo não sei como poderia tê-lo feito parar. Após esse incidente ele acabou expulso do colégio e por pouco não foi parar no reformatório. Foi a primeira vez que notei que havia algo fora de lugar nele e dali para frente as coisas só pioraram. Começou a passar mais tempo na rua, fugiu de casa várias vezes e se meteu em tantas encrencas quanto alguém é capaz de contar.
A delegacia cheirava a suor, sujeira e café. Cercado de policiais e coberto de hematomas, Eduardo tinha as mãos algemadas para trás. Com os olhos fixos no chão, ele parecia não entender o que estava acontecendo. “O que foi que vocês fizeram com ele?”, perguntei, num tom desafiador que não foi bem recebido pelos policiais, os quais se aproximaram intimidadores, levando as mãos aos coldres e ameaçando me prender por desacato. Um deles, contudo, tomando minha arrogância por aflição, tratou de acalmar os ânimos, e sob os olhares condenatórios de seus companheiros, me puxou de lado para contar o que havia acontecido.
Descalço e sem falar coisa com coisa, Eduardo perambulava pela Godofredo Maciel de madrugada, e por qualquer motivo, atirou uma pedra enorme no segurança de um supermercado, que, a propósito, também era policial e pegava bicos como aquele para garantir um extra. A pedra havia sido lançada de uma distância considerável e não conseguiu atingí-lo em cheio, resvalando pelo ombro. Furioso, o homem correu atrás de Eduardo, conseguindo alcançá-lo quando ele escalava a cerca que protegia o estacionamento. Pelo estado em que Eduardo havia ficado, o segurança devia ser um daqueles caras pesadões e barrigudos que batem forte. Para não apanhar até morrer, Eduardo sacou do bolso a faca que usava para furar suas latas e a enfiou no flanco esquerdo do homem, que o largou no mesmo instante. Por sorte, a ponta da faca estava quebrada e o golpe causou apenas um pequeno ferimento. Os gritos do segurança chamaram a atenção de seu companheiro de turno, que encontrou Eduardo desacordado não muito longe do local do incidente. O policial ainda afirmou que Eduardo continuaria detido na delegacia e que se eu não quisesse deixá-lo preso pelos próximos anos com assassinos de verdade era melhor que arrumasse um bom advogado e desse um jeito de provar que ele estava fora de si no momento do ataque.
        Mais tarde no mesmo dia fui ao consultório de Marcela pedir ajuda. Ela me recebeu com uma cara do tipo “Mas que porra tu tá fazendo aqui?”, por um momento acreditando que eu tivesse perdido a cabeça. Eram por volta de dez horas da manhã e eu ainda usava os mesmo farrapos com os quais havia saído de casa. No rosto, umas olheiras fundas e arroxeadas de quem não dormia há dias. Por pouco ela não agarrou seu bloco de anotações, pronta a escavinhar meus delírios psicóticos mais perturbadores. Embora me custasse cortar seu barato, com a lucidez ainda preservada, relatei-lhe todo o ocorrido e o motivo de minha aparição repentina. Marcela não demonstrou surpresa. Ao contrário, parecia esperar que mais dia menos dia algo semelhante fosse acontecer. Para ela, o ataque de Eduardo era a culminação de uma conjunção de fatores igualmente perigosos, cuidadosamente orquestrados pela negligência e permissividade de todos a sua volta.
       Para produzir um laudo psicológico minimamente confiável, Marcela disse que iria precisar de no mínimo oito sessões ao longo de dois meses. Nas semanas seguintes mantivemos contato por telefone e quando enfim consegui soltar Eduardo, o que custou boa parte das minhas economias, as sessões com Marcela tiveram início. Às quartas e sextas, os dois conversavam durante uma hora, enquanto eu esperava do lado de fora. Um dia, já pela quinto encontro, tive a ideia de aproveitar aquele tempo livre para rabiscar a primeira de uma série de histórias.

         COISAS QUE ACONTECEM NOS CONSULTÓRIOS QUANDO NINGUÉM ESTÁ OLHANDO

Antes do final do segundo mês, tendo recolhido material suficiente para a conclusão do laudo, Marcela pediu que eu fosse à clínica sozinho, a fim de conversarmos sobre Eduardo.
O certo a fazer seria continuar o tratamento, mas receio que tu vá ter que procurar outra pessoa. Sinto muito Gaspar. Não posso continuar com as sessões. Na fala do Eduardo há muitas coisas a teu respeito e isso tá atrapalhando minha capacidade de julgamento. Mas escuta: é muito importante que as sessões continuem. Muito importante. Tu notou alguma evolução durante esse período, quero dizer, o Eduardo parece mais calmo, mais comunicativo?
        Continua calado como sempre – respondi, descruzando as pernas e sofrendo com os pelos recém aparados que me espetavam dentro da cueca. - Quando o Eduardo tá limpo é como se fosse uma vela apagada. É quase impossível trocar mais de duas palavras com ele. 
         Tu nunca pensou que esse retraimento talvez seja medo de te decepcionar?
        Isso é uma revelação surpreendente. Se não te conhecesse tão bem, diria que tu tá tentando me fazendo de idiota.
        Não é nada disso. Se tu tivesse um pouco mais preocupado em conversar com teu irmão ao invés de se ocupar em bancar o cão de guarda, acho que seria mais útil. E aqui falo mais como amiga do que como profissional.
        Tu não sabe como é tê-lo em casa. Com o Eduardo por perto minha vida vira do avesso. Bem, de qualquer forma... nem sei como agradecer o que tu fez por ele.
          Podia começar me pagando um jantar, o que acha? Mas não vá esperando que algo como o que houve entre a gente volte a acontecer. Não quero parecer convencida, mas antes de a gente continuar, é melhor deixar as coisas nos seus devidos lugares. Desculpa, eu sei que não é uma boa hora pra falar sobre isso.
        Não, absolutamente. Durante todo esse tempo eu tive mesmo procurando uma brecha pra tocar nesse assunto, mas nunca encontrava ocasião. Não consigo ser direto como você.
         Isso é por que tu é macio demais, Gaspar. Eu acho que isso não tem deixado tua vida melhor, tem?
Ninguém é perfeito. Veja só, agora tu me deu algo em que pensar, mas o que eu realmente queria saber é... Sou muito mais simples do que tu pode imaginar, Marcela. O que eu realmente queria saber é... como eu fui naquela noite?
         Hum... Que tal: “Eu nunca vi um pau tão grande na minha vida” ou “Tu me fez gozar como nenhum outro homem jamais fez”. Tá bom pra ti? Espera, tem essa que também é ótima, “Não sabia o que era um orgasmo até te conhecer”.
         Ironias à parte, vad...
         Do que foi que tu me chamou?
         Vadia. É isso que tu é.
         Ah, é? E o que mais?
         Puta, sem-vergonha, vagabunda. Sabe o que tu merece? Tu merece uma surra.     
         Me bate, se for homem, vai. Na cara. Vai. Assim... Vai, de novo... Ahhhh...
  Marcela então pediu que eu fechasse a porta, e se aproximando lentamente, sussurrou em meu ouvido, “Tu quer que eu seja tua puta, quer? Então me come, Gaspar, me come...”.
           
...

         Pontualmente às seis horas, Eduardo saiu do consultório e caminhou em direção ao carro, cabisbaixo e silencioso. Da porta, Marcela ainda o observou por alguns instantes, como se a temer que, em mais um de seus ímpetos de liberdade, Eduardo pudesse abandonar as demandas daquela disciplina exógena. Antes de tornar a entrar, ela se despediu de mim acenando frouxamente com a mão.








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dezenove






A precariedade de nossas escolhas às vezes nos levam por direções não muito condizentes com a imagem que possuímos de nós mesmos. Isso e também um resquício de consciência moral eram o que me impediam de violar a fronteira demarcando os limites entre vida e trabalho, porque, ao cabo, tratava-se de uma questão de sobrevivência. Mesmo depois de tantos anos de repartição eu ainda tentava compreender de que maneira aquele prédio alto, incrustado no coração do Centro, me dizia respeito. Sintia-o tão parte de mim quanto um bigode postiço. Dos amigos apenas dois ou três sabiam da existência daquela realidade paralela, da qual, embora indiretamente, Cláudio fazia parte. Por todos os motivos que eu pudesse pensar, enquadrá-lo naquele contexto soava como uma tremenda injustiça. No entanto, por uma dessas associações infelizes que ficam gravadas no cérebro, o fato de convivermos nas cercanias da repartição e em ocasiões de algum modo vinculadas à rotina do trabalho – os tragos eram compartilhados depois do expediente e os almoços, no intervalo entre os turnos - era suficiente para contaminar nossa amizade, da mesma forma que uma recordação ruim fazia com uma música da qual costumávamos gostar.
Por tudo isso, Cláudio tampouco sabia como eu levava a vida fora dali. Certa vez, depois de me ver conversando com Murilo perto do Betão, começou a afirmar para quem quisesse ouvir que eu tinha perdido a vergonha e que andava atrás de michês no Centro, pouco me lixando se o fazia às vistas de todo mundo. Falava sempre em tom de brincadeira, mas no fundo ele temia que suas suspeitas fossem fundadas. Porque já estivesse de saco cheio de ser objeto de escárnio e para dissuadi-lo da ideia de que eu fosse gay, com o passar do tempo, me vi obrigado a ir soltando algumas coisas sobre Alice e outros casos esparsos.
No horário de sempre passei na xerox e chamei-o para comer num restaurante novo que eu havia descoberto. Não era tão sujo e feio quanto o que costumávamos frequentar, mas o lugar tinha lá sua graça. Depois da refeição, todos recebiam um doce de goiaba para esquecer o gosto da comida e, como o ambiente era milagrosamente arejado, ninguém reclamava se você resolvesse puxar um cigarro para ajudar a completar a perfeição de uma tarde fresca, de vento seco e pequenos redemoinhos.
Cláudio era um homem baixo, mas seus gestos amplos faziam com que parecesse muito maior. Tinha ombros largos nos quais se encaixavam braços longos e peludos como os de um chimpanzé. Quando não estava bebendo, sua voz rouca e profunda era cadenciada, pontuada por longos intervalos, seja para tossir ou para conferir certo dramaticidade às palavras. Porém, depois do primeiro copo, Cláudio perdia os modos e aquela sua fleuma quase acadêmica era substituída por um vocabulário cuidadosamente coligido em anos de peregrinações por bares e cabarés. Sem o menor constrangimento e espalhando baba para todo lado, como um cão raivoso, dizia todas as sacanagens que lhe vinham à cabeça, e qualquer uma que passasse na sua frente era alvo de seus comentários sensuais e explícitos. Tinha sorte de ainda não haver apanhado de algum marido ofendido com aqueles elogios injuriosos, feitos num volume mais alto do que supunha. Seu divertimento favorito era falar sobre as aventuras da juventude, de preferências as sexuais, muito embora já fizessem parte de um passado distante, que ele ainda tentava reviver no corpos das mulheres que admirava com os olhinhos miúdos, atrás das lentes grossas e riscadas. Porque Cláudio sempre acabasse encontrando algum detalhe, alguma característica particular que o deixava excitado, nenhuma mulher escapava de seu visgo de velho tarado.
       O dia estava leve, não havia muita coisa para fazer no trabalho, e terminada a sobremesa, cada um acendeu preguiçosamente um cigarro. Enquanto Cláudio exultava com o sol que ardia, a sexta-feira que batia à porta, a barriga cheia, minha companhia, com as mulheres que passavam por nós mexendo os quadris em jeans apertados, eu carregava aquele ar de sentenciado que de vez em quando caía sobre mim sem aviso, e por mais que ele me instasse a participar do diálogo, tudo o que conseguia arrancar de mim eram uns ruídos que só de longe lembravam palavras. Se Cláudio não tivesse tanto prazer em falar, permeando sua histórias picantes com digressões sobre assuntos que iam desde o amor até o melhor lugar para se comer buchada, se dependesse de mim a tarefa de desenvolver a conversa, por nosso silêncio, seríamos tomados como pai e filho que, depois de anos de convivência e desprezo mútuos, em uma última tentativa de aproximação, descobrem que a muralha erguida por eles, tijolo após tijolo, havia se mostrado intransponível ao final. Embora jamais os pedisse, conselhos também não eram estranhos a seu repertório. Com a convicção de homem experimentado, ele dizia, “Gaspar, tu tem que fazer isso, tem que fazer aquilo, tem que sair mais, trepar mais, esquecer essa tal de Alice”. Cláudio já havia me sugerido inclusive a pedir demissão, porque, segundo suas próprias palavras, “Se tu continuar, vai se enterrar cada vez mais fundo nessa merda. É melhor viver sem dinheiro do que infeliz”. Claro que era tentador abandonar tudo e começar de novo, quem sabe até em outro lugar. Esse pensamento já vinha fermentando em mim há anos, mas o que permanecia sem resposta era: abandonar tudo em troca de quê? De algum ideal obtuso de felicidade?
        Pelo segundo cigarro, como se tivesse guardado o melhor para o final, Cláudio contou como havia criado coragem de chamar Deusa para sair. Depois de levá-la à lanchonete de Raí, que assistia ao encontro com uma combinação de inveja e incredulidade, comprou um vinho doce na mercearia e ficaram conversando na varanda de Deusa até bem tarde. Sem o vestido fedendo à mofo e a maquiagem exagerada, ela lhe pareceu muito mais bonita do que antes. À pretexto de trocar uma lâmpada queimada, Deusa terminou por convidá-lo ao quarto e, dessa vez, dispensando as estripulias e a pressa incendiada da bebida, se amaram no escuro, cozinhando o desejo em fogo morno. Pela janela, a lua brilhava majestosa num céu sem estrelas.
A satisfação de vê-lo feliz outra vez, falando do alto de sua virilidade reconquistada, não se manifestou em mim fisicamente, e julgando que minha indiferença tinha passando dos limites, Cláudio me repreendeu, fingindo-se indignado:
Anda, rapaz, fala alguma coisa. Cansei desse teu silêncio catatônico. Me diz, pode dizer, quem foi o desgraçado que te comeu o cu?
         Não precisa se preocupar com meu cu. Isso não é da tua conta.
         Então, qual é o problema? Isso ainda é por causa da garota dos gemidos?
         Não, não é.
Me diga qual o homem que nunca decepcionou uma mulher na cama? Veja o que aconteceu comigo, por exemplo. Logo eu que entendo tanto do riscado. O negócio é não baixar a cabeça, se é que você me entende. Por que tu não faz como eu e...
Já disse, porra, não é nada disso. Esse assunto com a Marcela já tá superado. Resolvi me dar o benefício da dúvida nesse caso.
Acontece que, nesse caso, a dúvida não te beneficia em nada, meu amigo. Ao contrário, pelo que eu entendi, a presunção de culpa pesa contra você.
       Eu sei, eu sei, eu sei... Não precisa falar mais nada. Vamos esquecer que eu te contei isso, certo? Na verdade, eu tava pensando... Lembra de quando tu disse que eu deveria pedir demissão?
        Nunca disse que tu devia fazer isso.
      Qual é, Cláudio? Não era tu que vivia me falando pra largar o emprego e procurar alguma coisa que me fizesse feliz?
        Mas isso foi no começo, logo que a gente se conheceu. Esquece o que eu disse, cara. Eu tava só mexendo com a tua cabeça.
         Mexendo com a minha cabeça?
       É, mexendo com a tua cabeça, Gaspar. Conheço o teu tipo. Por apatia, ceticismo, desesperança, covardia, necessidade ou tudo ao mesmo tempo, tu se prende a uma vida que despreza e, cheio de culpa e pudor, anda por aí como se estivesse ferido. Isso não me comove e também não deveria te comover.
       Bom, seja como for, agora tudo isso tá resolvido. Parece que eu vou mesmo perder o emprego.
         Não brinca com... Peraí, tu tá falando sério, garoto? O que foi que aconteceu?
         Desídia. É quando o funcionário...
         Eu sei o que é isso.
         Em resumo, eu chegava atrasado, não batia o ponto, saía antes da hora, não fazia o trabalho que me mandavam e umas duas ou três vezes fui trabalhar bêbado.
Em resumo, tu fodeu tudo.
Depois que eu descobri o processo que tavam abrindo contra mim tentei me emendar, mas aí já era tarde demais.
         Eu sempre soube que, lá no fundo, tu era um sonhador, garoto.
         Quer dizer então que nós dois sofremos da mesma doença?
       Não, não é verdade. Sonhos nunca me interessaram. Só tratei de viver da melhor maneira que pude, isto é, fazendo o que eu tinha vontade de fazer. Isso não faz de mim um sonhador. Na verdade, é muito mais simples do que isso. Mesmo assim, olha o preço que tive que pagar. Esse ano completo cinquenta e oito, cara. Tu viu o pulgueiro que eu tenho a ousadia de chamar de casa. Tu teve lá. Tenho um filho quase da tua idade que não vejo há mais de quinze anos. Ele nem deve saber que eu existo. Tu acha que eu quis isso? Se soubesse que iria acabar assim, teria feito como os outros. Toda manhã, quando eu ligo aquela maldita copiadora, fico me perguntando por que continuar. Não foi pra isso que eu assinei, Gaspar. Mas apesar de tudo não posso culpar ninguém além de mim. Isso é triste e ao mesmo tempo não é. Que beleza, hein? Pra quem só queria contar sobre uma trepada, até que a conversa acabou se desviando um pouco do caminho – Cláudio afirmou, tentando amenizar o peso daquelas palavras, mas em seu rosto via-se que lutava para controlar a raiva de ter sido obrigado a falar sobre coisas que preferiria esquecer. – E o que é que tu vai fazer?
         Não tenho a menor ideia. Talvez mandar tudo pro inferno e desaparecer.
         Não tem a mesma graça mandar tudo pro inferno quando alguém já fez isso por ti. De qualquer maneira, bem vindo ao clube dos fodidos e sem grana. Ser pobre é uma vocação, cara.






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vinte






Nunca fui um grande fã de pornografia. Tinha algumas fitas, compradas de uma locadora falida, quando adolescente, mas era só. E, levando em conta os relatos que ouvia no colégio, histórias de moleques que alcançavam marcas heróicas de sete ou oito vezes em um só dia, também não era dos que se masturbavam mais. Murilo, por outro lado, embora seu objeto de desejo diferisse do da maioria dos meninos, vivia em eterna disputa com eles pelo título de maior punheteiro do colégio Dom Bosco. Para acabar com a falação inútil e estabelecer de uma vez por todas quem era o verdadeiro merecedor de tal honraria, certa vez, depois de fugirem da aula de Educação Física, ele e mais alguns garotos organizaram um campeonato no banheiro da escola. As regras eram simples: o vencedor seria aquele que conseguisse o maior número de ejaculações no intervalo de meia hora. Cada competidor, depois de gozar, deveria mostrar o conteúdo para uma comissão julgadora, responsável por contabilizar o resultado, e retornar às suas cabines com as mãos devidamente limpas a fim de continuarem. Para extraírem o melhor de si, eles tinham o direito de escolher até duas cartas do baralho de mulher pelada que Murilo havia roubado especialmente para a ocasião. Embora nenhuma das damas de cabelos platinados e pernas abertas lhe servissem propriamente de estímulo, Murilo ficou tão excitado com o homoerotismo daquela mise en scène – os garotos perto dele massageavam seus membros rígidos numa velocidade estonteante – que não deu chance a ninguém, ganhando com uma boa vantagem sobre o segundo colocado. Como ele mesmo gostava de dizer, todas as suas experiências sexuais posteriores não passaram de um pastiche daquela manhã gloriosa. O que mais se aproximava eram os cinemas do Centro, onde travestis delirantes contavam a quem quisesse ouvir seu passado de luxo e terror, Gucci e amores italianos, implantes de silicone e perfumes caríssimos, antes de serem comidas pela pobreza e pela indigência; e policiais fardados, com os revólveres metidos dentro das calças para disfarçar a doçura, se entregavam atrás das paredes, com pressa de acabar.
Ao conhecer Cecília, pelos dezenove, vinte anos, deixei a brincadeira solitária de lado, para não gastar munição à toa. Só retornava ao antigo hábito, quando ela dizia estar de saco cheio de mim e pedia um tempo. No entanto, foi começar a trabalhar na repartição que voltei à velha forma. Sempre que dava tempo, antes de sair de casa, eu batia uma com o chuveiro ligado, espantando o silêncio matutino com a impessoalidade ancestral do ruído de água caindo. Era meu primeiro ato do dia, minha saudação ao sol, o que me ajudava a aliviar a ansiedade. Às vezes não pensava em ninguém e me fixava unicamente em executar os movimentos no ritmo certo, ainda frio de sono. Mas havia ocasiões em que acontecia exatamente o oposto e era difícil manter a concentração em alguma mulher específica. Iam surgindo por vontade própria, como se sobre elas eu não tivesse controle. Nos dias mais comuns, no entanto, eu conseguia repousar minha mente em alguma fantasia maravilhosamente escapista, elaborada com o cuidado de um artesão. Nelas, curiosamente, Alice não aparecia com a mesma frequência de outras mulheres, como a vizinha do andar de cima, por exemplo. Ela devia ter pouco mais de trinta anos e, apesar de feia de rosto, possuía um corpão de quem frequentava academia, o qual fazia questão de exibir, invariavelmente metida numa saía lápis um palmo acima dos joelhos, justa o suficiente para não deixar qualquer espaço à imaginação.
Os remédios para dormir surgiram como mais um desses hábitos que pouco a pouco vão se impondo por si mesmos. Por influência de João, comecei com um comprimido, guardado para situações de emergência, quando dormir parecia mais impossível do que andar de pés descalços no asfalto do meio-dia. Porém, a eficiência dos compostos bioquímicos fez tanto sucesso com meu corpo moído pelos dias de insônia, que esperar até o último momento, enterrado no desespero de continuar acordado a brandir xingamentos e maldições pela madrugada, parecia uma expiação desnecessária. Daí, depois da primeira concessão, outras tantas se seguiram, empurradas por minha autoindulgência quase infantil. Não demorou muito para que eu perdesse o controle, transformando o que era um aparte em ritual diário, consagrado nas últimas horas da noite. Um comprimido por dia, antes de deitar, aparecia como a solução ideal, o nem tanto ao mar nem tanto à terra, a medida do meio proposta pelos filósofos, e por um tempo pensei ter resolvido um problema que me acossava há anos. Mas então meu corpo, insidiosamente, começou a exigir mais, o dobro, o triplo da dosagem, até chegar num ponto em que os remédios por si só deixaram de funcionar, demandando outras combinações, perigosas e pouco recomendáveis, para surtir o efeito esperado.
Ao lado desses vícios havia tantos outros que me ajudavam a suportar a vida e que, apesar de não preencherem o oco edênico, primal, serviam ao menos de passagem a um estado entre a agonia e a felicidade. No meio deles, Alice aparecia como o mais vergonhoso, o mais injustificável, o mais destrutivo – aquele do qual não conseguiria me livrar a menos que mastigasse os próprios calcanhares. Por isso, embora me custasse admiti-lo, eu sempre precisava vê-la outra vez, mais uma vez, a última vez. Agora que estava com raiva, machucada pelo desapego que Bira havia lhe demonstrado, era hora de, como o urubu de Lucas, abandonar meu refúgio e recolher os pedaços que de Alice haviam restado. Desde sua separação, a última notícia que me chegara aos ouvidos, de que havia voltado a morar com a mãe, acabou se mostrando infundada, o que só vim a descobrir quando a fui procurar em casa. Acreditando que eu fosse apenas mais um cretino querendo se aproveitar de sua filha, a mãe de Alice mandou o porteiro me despachar. No entanto, mostrando-se extremamente solícito depois de receber uma nota de vinte, ele me confidenciou que na semana anterior Alice havia passado rapidamente pelo apartamento e desde então não mais retornara.
Encontrar Alice ou mesmo falar-lhe estava se mostrando surpreendentemente difícil. Seu telefone por algum motivo permanecia desligado, e, ao visitar a loja onde trabalhava, não tive melhor sorte. Ninguém ali sabia de seu paradeiro, já que há cerca de um mês, segundo fui informado, ela havia pedido demissão. Como um repórter das antigas, insatisfeito com a versão oficial que me foi apresentada, continuei apertando a vendedora, uma baixinha corpulenta e falante, a qual, numa revelação que me custou vinte reais, acabou contando o que havia acontecido. Na verdade, tudo não passara de uma farsa. Cansada de presenciar as investidas cada vez mais desaforadas de Alberto em Alice e temendo a fúria do marido caso ousasse demiti-la sem a sua permissão, dona Sandra, quase de joelhos, lhe propôs o seguinte: em troca de sua saída voluntária, ela se comprometia a pagar tudo o que Alice tivesse direito a receber, além de mais algum dinheiro e uma boa carta de recomendação.
Quando parecia não haver mais jeito de localizá-la e já tendo me dado por vencido, Alice achou por bem me procurar. No telefone, ela parecia triste, embora quisesse me fazer acreditar que sua voz arrastada não passasse de cansaço. Mesmo a tendo inundado de perguntas, Alice permaneceu tranquila e disse apenas que estava bem e que queria me ver. “Onde você prefere?”, perguntei, e ela afirmou, “Qualquer lugar, onde tu achar melhor”. Alice sempre entregava menos do que suas palavras prometiam e, sabendo disso, tentei manter a cabeça no lugar. Apesar de haver se mostrado um pouco reticente com a sugestão de que nos encontrássemos em meu apartamento no próximo dia, ela acabou concordando, e depois de tudo acertado só me restava suportar a espera do jeito que desse.

Embora toda aquela expectativa fosse mais do que pudesse suportar, por via das dúvidas, Gaspar se manteve atado às convenções de um banho comum, casto e limpo, como se por qualquer deslize, por qualquer excesso, pudesse ser punido. O dia seguinte, ele pensava, correria para seu desfecho mais rápido do que pudesse imaginar e, portanto, era preciso que tudo fosse pensado com antecedência. Assim que chegasse do trabalho, de modo a garantir a privacidade necessária, mandaria Eduardo embora, ainda que fosse só por aquela noite. Colocaria cinquenta reais em suas mãos para que tomasse um táxi até a casa de Denis e lhe diria: “Se tu aprontar outra das tuas merdas, fique sabendo que não poderá contar comigo”. Eram palavras duras, mas necessárias, uma vez que Eduardo não respondia a outro discurso que não o do medo e da ameaça. Ainda assim, de tanto que Gaspar já havia ladrado e lhe mostrado os dentes sem maiores repercussões, não seria difícil imaginar que Eduardo o desobedecesse sem a menor cerimônia. Sem poder conciliar o sono e não querendo parecer um pedaço inerte de carne humana quando finalmente estivessem a sós, Gaspar foi até a cozinha, onde guardava os comprimidos, e os engoliu com a ajuda do Old Eight que ganhara no amigo secreto da repartição. Nem bem teve tempo de acertar o alarme para as sete horas e de fechar as cortinas novas que mandara instalar, seus olhos começaram a ficar pesados e os membros dormentes. Minutos depois de deitar na cama de bruços – a bunda branca como a lua virada para a porta – Gaspar agonizava silenciosamente, enquanto Eduardo, deitado no sofá da sala, assistia a um jogo de futebol.







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epílogo






Se seu corpo não tivesse falhado, se Gaspar tivesse sobrevivido aquela noite como o fizera outras tantas vezes nas mesmas circunstâncias, no dia seguinte, na hora marcada, a campanhia teria tocado, avisando a chegada de Alice. Ante de entrar, ela lhe teria dado um longo abraço e, levantando os calcanhares, se aproximado para tocar seus lábios.  O apartamento estaria limpo e ventilado para recebê-la, e Eduardo, longe. Em seguida, Gaspar lhe ofereceria uma bebida antes de convidá-la a sentar no velho sofá encardido, a conversarem despretensiosamente sobre a vida e seus mal-entendidos.
Tu acredita em ciganas? – Gaspar a surpreenderia.
Nunca tive razão pra duvidar delas, mas qual é o motivo da pergunta? – Alice devolveria, desconfiando do que pudesse estar escondido por trás daquele aceno à banalidade.
Dia desses, eu tava andando pela Praça Zé de Alencar e uma cigana veio até mim se oferecendo pra ler meu futuro. A mulher tinha os braços cobertos de tatuagens esverdeadas, as orelhas cheias de brincos e um monte de penduricalhos nos pulsos e no pescoço. Usava um vestido vermelho de chita e o cabelo preso num rabo de cavalo grisalho e desgrenhado. Minhas mãos tavam frias e suadas como de costume e tive vergonha de oferecê-las naquele estado. Ainda assim, ela insistia, exercitando seu canto da sereia, à medida que me seguia os passos. Pra despistá-la perguntei, “Vem cá, a senhora não é uma cigana de verdade, é?”, e, já agarrando minha mão, ela disse, “Mas é claro que sim, meu filho. Minha mãe me ensinou tudo o que eu sei”. “Tá vendo essa linha grande aqui, fazendo essa curva?”, ela perguntou e, riscando com a unha a linha que contornava a base do meu polegar, prosseguiu, “Significa que tu vai viver muitos anos, muito mais do que tu imagina. Tá vendo como ela vai até o final?”. E então eu afirmei, “Aposto como tu fala isso pra todo mundo”, e ela sorriu cúmplice, escondendo os dentes estragados com as mãos.
E o que mais ela disse? – perguntaria Alice, curiosa como sempre.
Aí falei, "Então tá, agora que eu sei que vou viver muito, será que eu vou aproveitar bem esse tempo todo?”. A cigana fez suspense, com os olhos fixos na palma da minha mão, que reluzia ao sol. Sua vista não era a mesma, ela afirmou, deixando que os óculos, desses que se encontravam antigamente nas farmácias, escorregassem até a ponta do nariz. Depois de um tempo, ela disse, “Tá vendo essa outra linha que cruza com a linha da vida? É a linha do sucesso. A sua é bem apagadinha...”. “Não precisa nem continuar”, eu disse. Ela riu e continuou apertando os olhos, enquanto franzia o nariz e inclinava a cabeça pra trás. “Mas e sobre o amor, tu não vai falar nada?”, eu quis saber, e ela: “Pra saber a sorte no amor, é melhor botar o baralho”.
E o que as cartas disseram?
Eu tava atrasado e tive que recusar a oferta. Além do mais, acho que tive medo do que pudesse ouvir – Gaspar admitiria.
Pois agora que tu entende de quiromancia, olha aí o que destino reservou pra mim. Mas se vir alguma merda, bico fechado, entendeu?
Pode confiar – Gaspar a tranquilizaria, como se tivesse alguma ideia do que estava fazendo, ao  apanhar a mão de Alice para colocá-la em cima da sua. Relaxada mas atenta ela o observaria com a incredulidade dos que esperam, bastante vermelha com aquela onda de calor repentina que não a deixava respirar direito. Interessada em ouvir o que lhe traria o futuro, Alice se inclinaria sobre Gaspar.
Isso é bom. Tá vendo? Tu também vai viver muitos anos – Gaspar arriscaria, enquanto com os dedos percorreria o traçado de sua mão, cada uma de suas linhas delicadas, sem que Alice jamais desconfiasse que assim ele inventava seu futuro juntos.
Acho que tu tá se aproveitando de mim – ela então explodiria numa gargalhada de nervosismo, se afastando de Gaspar antes que ele a pudesse deter. Alegando que precisava de um pouco de ar, ela andaria até à janela, a divisar a rua e seus santos vadios. Com o desejo enterrado vivo e inundado por pensamentos que teria vergonha de confessar, Gaspar permaneceria imóvel, tentando absorver o golpe. Mais um pouco e se esquecendo de quem era ele a tomaria de qualquer maneira, com uma fome tão grande que ela seria incapaz de resistir.
        Como vão as coisas com o pessoal? Faz tempo que eu não vejo ninguém – Alice lançaria a pergunta com um quê de crueldade, voltando a ser aquela mulher sem rosto e sem alma que continuaria a fugir de Gaspar para sempre.
            Nada mudou, Alice. Na verdade, nada nunca muda, em canto nenhum. Tá tudo na mesma, acredite. Tu já reparou que chega uma certa altura em que a vida fica assim empacada, como se tivesse adquirido um peso imenso?
            Mesmo que tu tenha razão, eu ainda tô longe de chegar nesse ponto onde a vida para de surpreender. A minha tem dado tantas voltas que tem me deixado tonta. Tu já deve saber de tudo, as pessoas sempre sabem de tudo. Eu precisava de um tempo sozinha depois que o Bira foi embora. Não tava preparada pro que aconteceu. De jeito nenhum.
            Não posso dizer que fiquei triste com isso.
            Eu sei que tu não ia com a cara dele.
            Eu simplesmente o queria fora da tua vida.
            Não começa. A gente sabe onde isso vai dar.
            Não Alice, a gente nunca pode saber.
Da primeira vez que eu vim aqui - acho que já era de madrugada e todo mundo tinha ido embora, apesar dos três ou quatro que dormiam jogados pelos cantos - tu disse pra mim: “A vida é uma sucessão de pequenos fracassos, um atrás do outro”.
            Eu devia tá completamente bêbado – Gaspar tentaria remediar.
           Os bêbados e as crianças sempre falam a verdade - Alice insistiria. - Foi então que eu percebi que a gente nunca poderia dar certo.
            Comportando-se como uma criança antiga, perdida no tempo, o vento rodopiaria pela sala, espalhando papéis e derrubando porta-retratos com o peso de sua força invisível. Sentada sobre um das pernas, Alice acenaria a Gaspar com um sorriso de esquecimento, antes de deitar a cabeça em seu colo reativo, mal protegido por uma bermuda caseira. E cedendo àquele impulso frívolo de perdoar-lhe a cada nova recusa, Gaspar se abriria mais uma vez para recebê-la, embalado pela perversidade que os unia.








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notas






A primeira vez em que se ouviu falar de Maria foi no dia em que surrou Leocádio quase até a morte. Ele era seu homem e, por isso, ela lhe confiava todo o dinheiro que colhia nas madrugadas, de segunda a segunda, para ser guardado dentro da garrafa de coca-cola, escondida num buraco no chão, que ela mesma tinha cavado. Com esse dinheiro, esperava poder realizar o desejo que alimentou a vida inteira: o de abandonar tudo para viver seu sonho e completar a transformação que apenas havia iniciado. Um dia em que acordou cansada da vida, desanimada pela noite anterior em que apenas um homem se dignou a parar o carro e cortejá-la, Maria sentiu um desejo irrefreável de admirar o fruto de seu trabalho e manter acesa a centelha que trazia dentro de si. Suas formas ainda eram retas demais e a voz grossa demais para competir com as outras meninas, que rebolavam na calçada de fio dental e de peitos de fora. Ainda assim, ela não podia desanimar. Por isso, foi até o quarto, afastou a cama e puxou a garrafa de dentro de seu esconderijo. Ao descobrir seu cofre vazio, Maria sentiu um aperto incrivelmente forte no estômago, como se tivesse acabado de levar um soco, e vomitou seu ódio em um líquido azedo e esbranquiçado. Com mais aquele revés, seus planos teriam que ser adiados indefinidamente. Querendo vingança, decidiu que naquela noite ficaria em casa esperando por Leocádio. Ela não havia conseguido comer nada o dia inteiro e se sentia fraca. Porém, animada por um ódio como nunca sentira na vida, bastou que a porta se abrisse para Maria cair em cima do namorado, surrando-lhe com tanta força e tão resignadamente, que pouco a pouco a fúria incontrolável foi dando lugar a um sentimento indescritível de justiça, como se fosse apenas a executora de uma pena imposta por outra pessoa. Os dois se equivaliam em altura e força, e, em condições normais, teria sido um luta difícil e de resultado imprevisível. No entanto, do jeito que Leocádio havia chegado, ele acabou virando um alvo fácil. Ela estava decidida a ir até o fim, a tirar a vida do desgraçado que a havia separado de seu sonho. Só parou porque os vizinhos chamaram a polícia. Depois desse episódio, Maria desapareceu. Andou por Salvador, Recife, Teresina, subiu até o Pará e por fim retornou a Fortaleza com algumas mortes nas costas, um revólver na bolsa e o corpo cheio de curvas, proporcionadas pelo silicone industrial injetado por uma velha que também se dizia rezadeira. De volta à cidade natal, ela reconquistou seu espaço com violência e crueldade. Em pouco tempo, seu nome corria de boca em boca, sempre com o respeito que só o medo pode proporcionar. Além de seu ponto, passou a controlar outros dois, após se envolver em uma disputa de território em que cegou uma menina e cortou fora o nariz de outra. Impiedosa, a partir daí não parou mais de estender seus domínios. E pensar que tudo havia começado quando era apenas uma garota tola, uma freelancer qualquer, ingênua até a medula, que havia acabado de ganhar o mundo de presente do pai, que não a suportava ver de lábios pintados, muito alta em cima dos saltos. Nesse dia, ela havia chegado em casa tarde da noite, trazendo os sapatos na mão para não acordar os de casa, e não percebeu que o velho a esperava escondido na escuridão. Ela não teve nem tempo de lhe pedir desculpas e jurar que aquela havia sido a última vez. Empunhado um pedaço de pau, o homem começou a lhe cobrir de pancadas. Como sempre fazia, ela se largou em pé abandonada, tomando o cuidado de proteger o rosto, e permitiu que o pai descarregasse toda sua raiva, sem medo ou pudor de lhe ferir os seios falsos, que, na confusão, caíram do sutiã. Mas, então, uma fúria de ver aquele homem vermelho e atarracado batendo no corpo que ela cuidava com tanto esmero começou a crescer dentro de si. Sem poder mais com a visão de suas longas pernas cobertas de hematomas, antes que o velho pudesse acertá-la outra vez, ela cravou as unhas fortes e bem cuidadas em sua garganta. Os lábios de seu agressor começaram a ganhar uma tonalidade roxa, e, quando ela finalmente o largou, parecia que ele havia acabado de escapar de um afogamento, tossindo e puxando o ar com toda a força, a barriga subindo e descendo no ritmo frenético da respiração. Debaixo de xingamentos e ameaças, ela foi até o quarto que dividia com a irmã, jogou algumas roupas na mochila e jurou aos berros que nunca mais colocaria os pés naquela casa e que jamais voltariam a ter notícias suas. “Morri pra vocês, seus filhos da puta”, foi a última coisa que disse antes de bater a porta atrás de si. Até ali, ela possuía muitos nomes, os quais sussurrava nos ouvidos dos homens, ao ganhar a madrugada em cima dos saltos, perdida entre seres insondáveis. Já havia se chamado Karla, Tamara, Jéssica, Roberta, Paula. Mas no dia em que foi obrigada a mergulhar de cabeça na vida, ela sabia que nenhum daqueles nomes lhe serviriam mais. Precisava se entregar a um novo batismo, que a preservasse da imundície da vida e das ruas. Sabia também que se sobrevivesse, pouco restaria nela da garota que até então havia sido. Por isso, naquele dia marcado, renasceu como Maria. Mais tarde renasceria ainda outra vez. No segundo batismo, durante a peregrinação durante a qual se fez mulher e aprendeu a ferir sem remorso, Maria se transformou em Cão, presa várias vezes entre os homens. Foi com esse nome que se fez temida e odiada. Quem quisesse fazer ponto na esquina da Visconde do Rio Branco com a Clarindo de Queiroz, por exemplo, precisava antes conseguir sua autorização, do contrário acabaria tendo o mesmo destino de uma outra metida a corajosa que decidiu ganhar a vida por ali, sem dar satisfação a ninguém. As meninas, vendo que os homens preferiam a novata, imediatamente procuraram Maria Cão para lhe contar o ocorrido, “Cão, tu precisa dar uma jeito nessa daí. Ela tá pegando todos os cliente. E sabe o que ela disse? Que a rua não tinha dono e que ela não te devia nada”. Maria Cão deu uma semana para que a novata entrasse nos eixos e lhe pagasse o que devia. Mas suas ameaças foram em vão. Para não perder a autoridade, ela decidiu agir imediatamente e, colocando o 38 dentro da saia, foi restabelecer a moral e a ordem no seu negócio, com a mesma violência e tenacidade que a fez chegar onde estava. Cão conhecia aquelas ruas como ninguém e foi se esconder atrás em um terreno baldio, três quarteirões antes de chegar à avenida, perto de onde a novata costumava ficar. Quando a viu chegando, Cão entendeu o motivo de tanto fogo nas ventas. Era uma negra de mais ou menos um metro e oitenta, ombros largos, braços longos e bem definidos. Tinha jeito de quem sabia se defender, se fosse preciso. Por isso, preferiu evitar o corpo a corpo. As outras meninas estavam avisadas de que Cão iria resolver a problema e portanto era melhor que ficassem atentas, para que não acabasse sobrando tiro para alguém. Fingindo ser apenas mais uma noite de trabalho, elas  mostravam as pernas meticulosamente depiladas, sensualizando com os carros que passavam de faróis baixos. Quem as visse, jamais desconfiaria de que a morte estava a espreita. Cão fez questão de saber o nome de sua vítima antes de fazer o que tinha de ser feito. Assim que a novata passou, Cão se esgueirou por uma abertura no muro, enquanto esperava pelo momento certo de agir. O tambor do revólver estava cheio, embora não precisasse de mais do que dois tiros para acabar com tudo de uma vez. Percebendo que a seguiam, a mulher se virou de súbito, numa agilidade que pouca gente tinha visto, e nesse momento o revólver de Cão disparou. O primeiro tirou pegou no ombro e o outro entrou pelo olho. O primeiro para derrubar e o segundo para matar. Por mais esse crime, Cão acabou presa, mas foi logo solta por falta de provas. As testemunhas disseram não ter visto nada e a polícia nunca conseguiu estabelecer por conta própria qualquer ligação entre Maria Cão e aquele assassinato. Além do mais, ninguém jamais apareceu para reclamar o corpo da baiana valente. Essa história era conhecida de todos que andavam pelas ruas. Mas sem dar conta disso, Cão continuava ocupada na tarefa de manter a ordem nas ruas que lhe pertenciam, impondo o peso de sua autoridade, enquanto perguntava a si mesma se os pais ainda estariam vivos depois de tantos anos e se algum dia quiseram saber da filha que desapareceu pela porta de casa numa noite de vento seco, jurando nunca mais voltar.






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